1982: Revolta de Rossi calou Zico, Platini e Maradona

O Brasil de Zico surgia como a grande equipa, mas foi uma Itália de luxo, liderada por Paolo Rossi, a ultrapassá-lo e a sagrar-se tricampeã mundial

Estava quase a terminar a reclusão competitiva internacional de Portugal (Euro 1984 e Mundial 1986) e a Espanha dava os primeiros passos após 39 anos de ditadura do "Generalíssimo" Francisco Franco (morrera em 1975 e abriu o caminho à monarquia parlamentar de Juan Carlos). O Brasil de Zico surgia como a grande equipa, mas foi uma Itália de luxo, liderada por Paolo Rossi, a ultrapassá-lo e a sagrar-se tricampeã mundial (após os longínquos títulos de 1934 e 1938).

O número de participantes passou de 16 para 24 equipas como consequência do trabalho de bastidores do presidente da FIFA João Havelange (nome de batismo: Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, filho de um belga radicado no Brasil), eleito em 1974 e responsável pelos seis torneios seguintes até 1998. O primeiro alargamento da competição permitiu ter pela primeira vez representantes das seis confederações continentais e a estreia de Kuwait, Nova Zelândia, Argélia, Camarões e Honduras, que sofreu a maior goleada da história (1-10 frente à Hungria, que já tinha esmagado a Coreia por 9-0 em 1954, o mesmo resultado aplicado pela Checoslováquia ao Zaire em 1974).

Depois do suspeito Argentina 6-0 Peru em 1978 (os argentinos jogaram duas horas e meia depois do Brasil bater a Polónia por 3-1 a saber que precisavam de ganhar por quatro para chegar à final), a polémica voltou a instalar-se: na primeira fase de grupos, com seis de quatro equipas, a República Federal da Alemanha (RFA) bateu a Áustria por 1-0 (marcou Hrubesch aos 10"), o resultado que apurava as duas equipas para a fase seguinte às custas da Argélia (as três com duas vitórias e quatro pontos). Argélia que no primeiro jogo tinha surpreendido a poderosa RFA, por 2-1, com o primeiro golo a ser assinado por um jovem Rabah Madjer, contratado em 1985 pelo FC Porto e imortalizado cinco anos depois com o calcanhar de Viena e uma assistência para Juary que valeram o primeiro título europeu aos dragões: 2-1 sobre os alemães do Bayern de Munique. Madjer sempre a punir alemães.

O Brasil era uma parada de estrelas orientada por Telê Santana. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Éder, Toninho Cerezo, Serginho (e um jovem Luizinho, que passaria três épocas pelo Sporting entre 1989 e 1992), mas ficou conhecida como uma das melhores equipas da história a falhar a conquista do título. Aliás, como a vice-campeã dos dois anteriores mundiais, a Holanda, que não se qualificou para este torneio.

Mas seria uma injustiça não sublinhar mais duas equipas. A Itália de Zoff, Cabrini, Gentile, Scirea, Tardelli, Bruno Conti e Rossi (além de suplentes como Giuseppe Bergomi e Alessandro Altobelli). Ou a Alemanha do tresloucado Harald Schumacher, Stielike, Breitner, Briegel, Rummenigge, Litbarski, Hrubesch, Magath e um jovem de 21 anos Lothar Matthaus, que jogou cerca de uma hora como suplente em dois jogos da primeira fase (incluindo a "desgraça de Gijón frente à Áustria) e seria o futuro comandante da Mannschaft e igualaria o recorde do mexicano Antonio Carbajal (1950, 1954, 1958, 1962, 1966) de mais fases finais consecutivas: cinco. Buffon foi igualmente a cinco, mas não jogou em 1998 e Rafa Márquez deve juntar-se ao duo recordista ao jogar pelo México no Mundial 2018.

Seis anos depois da imortalização, ao bater o penálti decisivo na final do Euro 1976 frente à RFA, com a ousadia de rematar para o centro da baliza com a bola a entrar lentamente enquanto Sepp Maier olhava no chão encostado a um poste, Antonin Panenka teve a oportunidade de disputar o único mundial. E a Checoslováquia caiu na primeira fase, com uma derrota (0-2) frente a Inglaterra e dois empates 1-1 frente a Koweit e França. Autor dos golos? Panenka, de penálti.

De Leste vinha também uma Polónia muito forte, ainda com Lato (do 3.º lugar no Mundial 1974), mas já com Boniek, Smolarek e o guarda-redes Jozef Mlynarczyk, que se mudou no verão de 86 do Bastia para o FC Porto, fazendo parte da equipa de Madjer que no ano seguinte conquistou o título europeu e Taça Intercontinetal e, em 1988, a correspondente Supertaça europeia. A passagem pelas Antas foi mesmo o fim de linha para o polaco, depois de perder a titularidade para um jovem Vítor Baía. Mlynarczyk reformou-se em junho de 1989.

Tem faltado aqui um nome quase sobrenatural: depois de Menotti o ter deixado de fora do Mundial 1978, então com 17 anos, Maradona estreava-se na prova por uma Argentina com a base campeã quatro anos antes, mas com dois nomes importantes para o sucesso em 1986. Além de Maradona, o também avançado Jorge Valdano. Maradona (que apontou dois golos frente à Hungria) não aguentou a derrota (segunda em dois jogos) frente ao arquirrival Brasil e foi expulso a cinco minutos do fim. Foi, no entanto, uma vitória inconsequente para os brasileiros, uma vez que a Itália ganhou os dois jogos e seguiu para as meias-finais.

Antes, os italianos tiveram uma primeira fase sofrível (três empates com Polónia, sem golos, e a 1-1 com Camarões e Peru - avançou atrás dos polacos e em igualdade pontual, mas melhor diferença de golos, com os camaroneses).

E a França lançava as bases para a vitória no Euro 1984, com o treinador Michel Hidalgo: Platini (um pouco em baixo de forma), Giresse e Tigana apresentavam-se ao mundo, e só caíram na meia-final com a Alemanha. Num jogo épico, mas tristemente célebre por uma das mais bárbaras agressões de que há memória: o guarda-redes alemão Schumacher partiu dois dentes, três costelas e danificou vértebras a Patrick Battiston, quando este se tinha isolado num passe de Platini. O jogador francês sobreviveu dez minutos em campo, entrando aos 50" e tendo de ser substituído aos 60". Aparte a ação tresloucada e não punida do guardião germânico, o jogo foi espetacular. Empate 1-1 no final dos 90", a França chega ao 3-1 no prolongamento, mas a Alemanha empata e adia a decisão para o desempate por penáltis. Ironicamente, Schumacher defendeu dois penáltis e a sua equipa avançou para a final com a Itália.

Antes desse jogo, António Garrido apitou o jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares, que pendeu para a Polónia (3-2 à França), o jogo mais adiantado da prova alguma vez apitado por um português. Garrido que já tinha dirigido o Inglaterra 3-1 França da primeira fase.

A final teve o dedo de Paolo Rossi. Suspenso em 1979 por três anos por alegado envolvimento numa rede de resultados combinados, ao serviço do Perugia, a pena foi reduzida para dois, libertando-o para o mundial a meses do seu início (uma chamada de Enzo Bearzot muito contestada). A fraca primeira fase da Itália também afetou o avançado de 26 anos. Mas depois, Rossi levantou-se acima de todos os outros: fez um hat trick decisivo frente ao Brasil (3-2), bisou na meia-final com a Polónia (2-0) e pôs em marcha o triunfo na final sobre a RFA. Tardelli e Altobelli colocaram a Itália a ganhar por 3-0, Breitner reduziu para o 3-1 final e a Itália era igualava o Brasil como tricampeã. Rossi foi o melhor jogador e marcador (seis golos) do Espanha 1982 (e a Alemanha começava uma inédita série de três finais, um título em 1990; superada pelo Brasil, campeão em 1994 e 2002, vice-campeão em 1998).

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