1974: a Alemanha total

A Holanda deslumbrou, jogou Futebol Total, mas foi incapaz de ultrapassar a única equipa que conseguia chegar ao título depois de perder um jogo na fase final

Jogadores desavindos com a federação por causa de prémios, um motim entre eles após a derrota para a desavinda "irmã" República Democrática Alemã (RDA), uma Holanda superlativa com o futebol total desenhado pelo treinador Rinus Michels. E, no fim, vitória total dos alemães (República Federal da Alemanha, RFA). Gerd Muller tornou-se no melhor marcador da história.

Depois da Hungria de Sandór Kocsis e Ferenk Puskas anunciar ao mundo um futebol baseado num carrossel infinito em 1954, eis que chega a Holanda de Rinus Michels vinte anos depois (e terminando uma ausência de 36 anos - desde o França 1938). Com o Futebol Total: Arie Haan, Ruud Krol, Johnny Rep, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink e um certo Johan Cruyff revolucionaram o jogo, melhorando as virtualidades da "Poderosa Hungria" e lançando as fundações para uma outra tendência que havia de ser efetivamente dominadora (o Barcelona de Cruyff nos anos 90 e de Guardiola já este século, que sustentaram as vitórias da Espanha - Euro 2008, Mundial 2010 e Euro 2012). Cruyff que já jogava no Barcelona (dos 22, apenas mais dois jogavam fora da Holanda, na vizinha Bélgica: Ruud Geels no Club Brugge e Rob Rensenbrink no Anderlecht).

Já voltaremos à inevitável "laranja mecânica", sublimada pelo dominador Ajax (tricampeão europeu 1971, 1972 e 1973), porque este torneio apresentaria ao planeta outra grande equipa, com um futebol menos rotativo, mas muito poderoso. A Polónia do letal Grzegorz Lato, que com os seus sete golos (melhor marcador do torneio) impulsionou a seleção polaca até ao 3.º lugar, batendo pelo caminho colossos como Itália, Argentina e Brasil.

Sim, o Brasil que quatro anos antes deslumbrara no México 1970. O campeão Brasil, o tricampeão Brasil. Que já não tinha Pelé ou Tostão, mas ainda tinha Jairzinho e Rivelino, uma equipa em transformação ainda pela mão de Mário Zagallo que apostou em novas caras como o nosso conhecido Marinho Peres (esteve dez anos em Portugal como treinador do V. Guimarães, Belenenses, Sporting e Marítimo, em períodos entrecortados entre 1986 e 2011), o guarda-redes Leão (um dos melhores da história do escrete, o primeiro a capitanear a equipa em 1978 e que tinha sido suplente no título de 1970), os avançados César, Paulo César ou Valdomiro. Mas já não era a equipa-arte de quatro anos antes, isso já não conseguiu Zagallo: O Velho Lobo tem sete presenças como jogador (1958, 1962), treinador (1970) - campeão - (1974, 4º) e 1998 (finalista) e adjunto em 1994 (campeão) e 2006 (quartos-de-final). Ficou fora da final pela primeira vez nos dois únicos mundiais em que não atingiu pelo menos o jogo decisivo, em sete participações (só perdeu a final de 1998, em cinco).

Voltemos à sensação Holanda. O que impressionou como nunca foi a equipa que provocava o caos apenas pelas movimentações ininterruptas dos seus jogadores, uma equipa com constantes trocas posicionais, bola no pé e adversários a correr atrás dela. Num mundial que abandonara o modelo dos cinco anteriores (fase de grupos e quartos, meias e final) em detrimento de duas fases de grupos de onde saíram os finalistas (e as equipas que discutiam o 3.º e 4.º lugares), a Holanda confirmou os sinais dados pelo tricampeão europeu Ajax liderado pelo mítico número 14, Johan Cruyff, que se juntara ao treinador Rinus Michels em Barcelona um ano antes, onde o técnico já estava depois de ganhar o primeiro título europeu do Ajax (1971). (Michels que desenharia a única glória da Laranja Mecânica ao conduzir a equipa de Rijkaard, Gullit e Van Basten ao título europeu em 1988.) Cruyff no topo do mundo: Bola de Ouro em 1971, 1973 e neste ano da graça de 1974, além de conquistar a Bola de Ouro da FIFA para o melhor jogador deste Mundial.

Curiosamente, ou talvez não, o domínio de Cruyff foi interrompido em 1972 por um tal de Franz Beckenbauer, líder da seleção campeã europeia em 1972. O "Kaiser" seria a figura, em termos de títulos, nos anos seguintes: campeão mundial em 1974, ano em que o "seu" Bayern de Munique iniciou o tri na Taça dos Campeões. A intromissão de Beckenbauer seria um prenúncio para o Mundial 1974. A conquista do ceptro, para a RFA, começou numa derrota muito amarga, frente à vizinha RDA (0-1), no último jogo da primeira fase de grupos, depois de triunfos sobre Chile (1-0) e Austrália (3-0) - uma das estreantes em mundiais, tal como a RDA, o Haiti (a segunda participação caribenha depois de Cuba em 1938) e Zaire, embora estas três nunca mais tenham jogado uma fase final.

Essa derrota com a RDA causou tumulto no balneário da RFA, cujos jogadores já estavam em conflito com a federação por causa do valor dos prémios. Mas parece também ter sido o alarme para as tropas: na segunda fase de grupos ganhou os três jogos (Jugoslávia, Suécia e Polónia) e reservou um lugar na final. Jogo em que defrontaria a laranja mecânica. Que, por sua vez, conquistou triunfos sobre Uruguai e Bulgária, e empate com Suécia na primeira fase de grupos; e três triunfos brilhantes sobre Argentina, RDA e Brasil, na segunda fase de grupos.

A final começou a todo o gás para a Holanda: primeiro minuto, a bola ainda não tinha sido tocada por qualquer alemão, Cruyff entra na área e penálti de Uli Hoeness. Johan Neeskens fez o 1-0. Se houve alguma manha neste lance, também ficariam dúvidas quanto ao lance em que Bernd Holzenbein cai na área. Aos 26", Breitner concretiza o penálti e empata (e torna-se o terceiro a marcar em duas finais, depois dos brasileiros Vavá e Pelé, e muito antes de Zinedine Zidane, 1998-2006). Foram os primeiros penáltis em finais. Antes do intervalo, num trabalho posicional muito típico, Gerd Muller fechou o marcador em 2-1 para a RFA (e marcando o quarto no torneio, ultrapassou Just Fontaine, 13 golos, como o melhor marcador dos mundiais, com 14, depois dos 10 em 1970). E a RFA tornava-se, durante 36 anos (até a Espanha ser campeã europeia em 2008 e mundial em 2010) a única a vencer consecutivamente os dois torneios continentais.

A Holanda deslumbrou, jogou Futebol Total, mas foi incapaz de ultrapassar a única equipa que conseguia chegar ao título depois de perder um jogo na fase final (derrota com a Hungria em 1954, que bateu na final; e agora desaire com a RDA e título). A RFA juntava-se a Uruguai e Itália como bicampeã, apenas atrás do tri Brasil. A Inglaterra tinha, como continua a ter, apenas um título conquistado em casa em 1966.

Nota ainda para a vitória da Polónia sobre o Brasil no jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares: 1-0, autoria do melhor marcador do torneio, Grzegorz Lato, com sete golos. Mais dois do que Neeskens (um terço dos 15 golos holandeses).

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