1966: Eusébio na pátria do futebol

A Inglaterra eliminou Portugal nas meias-finais e venceu o torneio ao bater a Alemanha de Beckenbauer na final

Eis que, 103 anos volvidos, "o jogo" voltava a casa, já consagrado como o mais popular do planeta. E o título mundial ficava em casa. A Inglaterra arrecadou o troféu (pela única vez na história) depois de ultrapassar Portugal do portentoso Eusébio nas meias-finais e a Alemanha do impressionante Franz Beckenbauer numa final decidida no prolongamento e com um histórico hat trick de Geoff Hurst (o único em finais da prova). Foi também o momento de eternizar Willie, o cão Pickles e o soviético (do Azerbeijão) Tofiq Bahramov, o mais célebre fiscal-de-linha da história.

A vitória da Velha Albion, onde o jogo moderno nasceu em 1863 após a clivagem com o râguebi que deu origem à Football Association (federação inglesa de futebol), começou quatro anos antes com a profecia do treinador Alf Ramsey, que substituiu Walter Winterbottom logo após a eliminação da Inglaterra pelo Brasil no Mundial 1962.

Sir Ramsey declarou que a Inglaterra seria campeã mundial em casa quatro anos depois. Muito antes de Mourinho ("Tenho a certeza que no próximo ano vamos ser campeões", 23 de janeiro de 2002, previsão confirmada a 4 de maio de 2003), e com uma antecipação bem maior, Ramsey transformava-se num profeta.

Claro que ajudou ter Gordon Banks (eternizado quatro anos depois com a "defesa do século" a um cabeceamento de Pelé), Ray Wilson, Jack Charlton, o capitão Bobby Moore, Jimmy Greaves, Bobby Charlton ou Geoff Hurst. Além do leão Willie, a primeira mascote num mundial (gerou uma euforia mundial por memorablia de todas as formas e feitios) e o collie Pickles (transformou-se numa vedeta, com direito a série de desenhos animados, a uma recompensa para o dono, David Corbett, e a um ano de ração grátis), que descobriu numa praça do sul de Londres o troféu Jules Rimet, roubado nesse ano.

O Mundial na pátria do futebol ficou logo marcado pelo boicote das seleções africanas, que recusaram a participação dos vencedores da segunda fase de qualificação continental num play off com equipas asiáticas. E havia, também, a questão política do apartheid na África do Sul - a FIFA não expulsara a seleção daquele país (mas acabaria por a proibir de participar no Mundial 1966).

A Inglaterra passou a fase de grupos sem grandes incómodos (0-0 com o Uruguai e 2-0 a México e França) e nos quartos-de-final Hurst (1-0) decidiu o jogo com a Argentina. Na meia-final, Portugal. Em Wembley a Inglaterra foi maior. Bobby Charlton bisou, Eusébio reduziu de penálti, mas o que continuou foi a profecia de Sir Ramsey.

Na final, foi com a presença na tribuna da atual monarca de Inglaterra, a rainha Isabel II (entronizada em 1953), que a Inglaterra se consagrou. Uma final frente à Alemanha decidida no prolongamento, e com muita discussão. Depois de um empate a 2-2 após os 90 minutos, veio o lance mais polémico da arbitragem no que toca a sancionar golos (bem, vinte anos depois um tal de Maradona marcou com "a mão de Deus" à... Inglaterra). Hurst chegou ao bis com um cabeceamento que embateu na barra e foi refletido para o chão. A bola bateu fora, o árbitro suíço Gottfried Dienst demorou a decidir e consultou o fiscal-de-linha Tofiq Bahramov. Golo inglês e euforia em Wembley, que ainda veria Hurst chegar ao único hat trick das finais de mundiais mesmo no final.

Finalmente, quase Portugal

Finalmente, Portugal qualificava-se para uma fase final, e logo a expensas da então vice-campeã Checoslováquia. Era o período de esplendor dos bicampeões europeus em 1961 e 1962 pelo Benfica (ao contrário das eliminatórias falhadas quatro anos antes). Eusébio, prodígio de força, energia e golos, o Senhor Coluna, a solidez de Germano, a habilidade de António Simões e José Augusto e o faro de golo de José Torres. A estes, juntavam-se outros grandes jogadores como Carvalho (guarda-redes do Sporting), Vicente (Belenenses), Hilário (Sporting) ou Jaime Graça (V. Setúbal). Mas foi o número 13 que mais interferiu na fortuna lusa.

Já com Morais a história é outra - e também não é a "d'o cantinho do Morais", o golo olímpico que valeu a Taça das Taças ao Sporting, dois anos antes, no jogo de desempate frente ao MTK de Budapeste. O defesa do Sporting ficou encarregue de vigiar de perto Pelé, que ficara a mancar no primeiro jogo do grupo e falhou o segundo, e o jogador leonino acabou com o astro do Santos em Goodison Park (casa do Everton). Morais ficou com a fama (e algum proveito) de parar Pelé com alguma brutalidade - houve uma entrada de tesoura, em particular, que deixou o brasileiro a fazer número em campo até final. Numa entrevista deste mês, Alexandre Baptista, colega de setor e de clube de Morais, confirmou a "tesourada" nos tornozelos de Pelé, mas revelou que o brasileiro retribuiu a gentileza aplicando uma cotovelada na cara de Morais.

Mas quem acabou com o Brasil (que até começara bem, fora a lesão de Pelé, ao bater a Bulgária com golos do craque do Santos e de Garrincha, a dar as últimas...) foi o "king" com um bis servido por Torres (Simões inaugurara o marcador, Rildo reduziria para 1-2). O pináculo de Pelé em mundiais teria de esperar quatro anos.

A queda do Brasil foi a mais estrondosa, porque se tratava do bicampeão mundial. Mas não foi a única sonante. A Itália de Giacinto Fachetti, o destro que liderou uma revolução tática como lateral esquerdo (abrindo o caminho para os laterais ofensivos: é o lateral com mais golos da Serie A, com 60 golos), caiu na fase de grupos. E foi recebida com uma chuva de tomates no regresso a casa.

Os "Magriços", como foram batizados, não deram hipóteses no Grupo 3: triunfos sobre a Hungria (3-1), a Bulgária e, finalmente, o Brasil (3-1). Estava tão lançada a estreante equipa, que nos quartos-de-final quase foi corrida da Ilha pela também estreante Coreia do Norte (só voltaria a um mundial em 2010, onde somou uma goleada frente a Portugal, a maior da história da seleção lusa campeonatos do mundo: 7-0). Novamente em Goodison Park, aos 25 minutos os coreanos chegavam a um estrepitoso 3-0. Onde andavam os Eusébios, Simões, Torres e companhia? Dormentes, inebriados pela fama súbita após três jogos bestiais? E então foi criado um gesto cujo simbolismo jamais se perdeu: Eusébio a sair da baliza adversária com a bola nas mãos e a correr para a colocar no meio-campo de maneira a apressar o jogo. Uma (27"), duas (43", de penálti), três (56") e quatro vezes (59"). Um póquer de golos que lançou Eusébio para a eternidade. Torres ainda completou uma das mais épicas reviravoltas dos mundiais (talvez só comparável à da conseguida pela Áustria frente à Suíça nos quartos-de-final do Mundial 1954: 3-0 para a Suíça, 5-3 para os austríacos, 7-5 final para a Áustria no jogo mais produtivo de sempre). Houve outras memoráveis, sobretudo da Alemanha Ocidental: frente à Inglaterra em 1970; frente à França em 1982; ou na final de 1974 frente à Holanda. A história dos magriços de Otto Glória só terminou no 3.º lugar, após bater a União Soviética, por 2-1 (com Eusébio a assinar, de penálti, o nono golo no torneio e a sagrar-se melhor marcador da prova).

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