Opinião

Raúl M. Braga Pires

Tinariewn, a música de intervenção touaregue nos Grammy Awards 2021

A música hipnótica dos malianos Tinariewn, Desertos, na tradução literal, confunde-se com a resistência que herdaram de seus pais e avós à presença colonial francesa e, mais recentemente, ao Poder subsaariano e negro que emana a partir da Capital do Mali, Bamako. Negro na cor da pele e também negro nas acções tenebrosas que o Exército Maliano executou durante as décadas de 90, tendo como alvo as comunidades de mouros e tuaregues no norte, vulgo Azawad, vasta região que desde o tempo colonial não esqueceu uma ambição em tornar-se independente do "Mali do Sul". É aliás em consequência deste estado de guerra racial e étnico entre Norte e Sul, que o providencial Coronel Muammar Khadafi entra em cena e garante a paz no seu "quintal das traseiras", abrindo as portas da sua "Jamahiriya"* a jovens que quisessem estudar, a artesãos e quadros que quisessem trabalhar e também a quem quisesse ingressar nas Forças Armadas, formando assim a sua famosa Guarda Pretoriana, que após a sua morte regressou ao Azawad de armas, bagagens e toyotas todo-o-terreno e ainda convencidos pelos franceses de que, em breve, seriam independentes. Não será aliás, por acaso, que ao 9º álbum, de nome "Amadjar", em português, "O estrangeiro de passagem" ou "que passa", os Tinariewn estejam nomeados para a 63ª edição dos Grammy Awards, na Categoria "World Music". A história de "despaisamento" destes 6 magníficos, sempre acompanhados também por vozes femininas, reflecte-se nas letras que cantam tendo por base um sincretismo musical que se apoia na música tradicional tuaregue, no "Chaabi"** marroquino e no "Rai"*** argelino, cujas guitarras eléctricas e percussões fazem de cada tema uma "oração de blues do deserto". Um fadinho eléctrico e ritmado por cabaças e pele de testículo de camelo, portanto, que de forma hipnótica e em crescendo, vai cantando em Tamasheq, as mágoas e esperanças dos "homens azuis", como os franceses os carimbaram, visto a cor original do "Chéche", o turbante, lhes ficar colada ao rosto, por via da transpiração. Tudo isto ecoa no silêncio do vasto Sahara, tendo-se tornado inspiração de resistência e esperança não apenas para os tuaregues com nacionalidade maliana, mas também no Níger, Chade, Argélia e ainda para berberes marroquinos, argelinos, líbios e mouros mauritanos, que mantêm a esperança de um dia verem constituída a Tamazgha, uma Confederação a construir, grosso modo, desde o Mediterrânio até ao Rio Níger, isenta de passaportes, na boa tradição nómada e dos homens livres. É esta a utopia que os Tinariwen alimentam, visto também serem a encarnação moderna de uma figura central na História e na hierarquia social Tuaregue, a do "Griôt", o "Cantador de Histórias", cuja importância para qualquer líder tribal é a de um "Fernão Lopes da tradição oral"! Como nota final, para quem esta banda é desconhecida e lhe queira sentir o gosto, sugiro que procure primeiro pelo tema "Nànnuflày" e depois avance para "Sastanàqqàm" ou ainda para uma desbunda que fizeram ao vivo com os Red Hot Chili Peppers com "Cler Achel", que voltarei ao tema em Janeiro para festejarmos em maior sintonia e regozijo este Grammy, oxalá! *Estado das Massas **Popular (não pimba) ***Folclore

Raúl M. Braga Pires

Viriato Soromenho-Marques

Os Estados Unidos da América no pensamento de Eduardo Lourenço

Esta sexta-feira, realiza-se um Webinar sobre o tema "Eduardo Lourenço: A Arte do Pensamento". A iniciativa, há muito planeada, ganha uma triste actualidade em virtude do recente desaparecimento do grande pensador. Por ocasião desta conferência, é também lançado o número 16 da revista Iberografias, Revista de Estudos Ibéricos, coordenada por Rui Jacinto e editada pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), sediado na Guarda, de que Eduardo Lourenço foi mentor, patrono e director honorífico. A revista contará como oradores, os autores que contribuem para este número da revista. Entre eles, encontra-se Viriato Soromenho-Marques, que aqui partilha com os leitores do Diário de Notícias o seu texto sobre as representações dos EUA no pensamento de Eduardo Lourenço.

Viriato Soromenho-Marques

Sérgio Figueira

O Último Combate de Sá Carneiro: Razão do Estado versus Razão do Amor

Numa era em que a política se faz no Twitter, sendo o pior exemplo o agora cessante Presidente dos EUA, e a popularidade dos políticos se mede pelo número de seguidores nas redes sociais, ou pela disponibilidade para tirar selfies, voltar 40 anos atrás no tempo, em Portugal, revisitando a praxis política e os líderes de então, é uma viagem fascinante e uma comparação em que os protagonistas atuais saem a perder. Francisco Sá Carneiro é um caso notável de um político que marcou uma época, num espaço de tempo relativamente curto, e que ficará seguramente na História do Portugal democrático. Pela vida política, mas também pelas circunstâncias da sua vida pessoal, que terminou de forma trágica a 4 de dezembro de 1980. Esse ano começara em glória para o homem que esteve na génese do PPD (atual PSD), partido de que foi, indubitavelmente, o líder mais relevante. Após uma vitória expressiva nas eleições legislativas, intercalares, de 2 de dezembro de 1979, com a sua Aliança Democrática, Sá Carneiro foi nomeado primeiro-ministro de Portugal à frente do primeiro governo de centro-direita, a seguir ao 25 de Abril. O seu propósito claro passava pelo fim da tutela militar do poder político, exercida pelo Conselho da Revolução, cuja extinção considerava indispensável para a normalização democrática do Estado. Tal posição, ainda no rescaldo dos tempos revolucionários, trouxe-lhe, inevitavelmente, muitos inimigos e muitas batalhas; mas isso era coisa que não o incomodava. Os inimigos enfrentou-os sempre com panache, e nunca se furtou a um bom combate. O ano de 1980 foi disso um grande, talvez o maior, exemplo. A estratégia de Sá Carneiro passava pelo fim da instabilidade que tinha marcado os primeiros anos após o PREC, e tal só era possível com uma maioria clara no Parlamento, e de um Presidente, sintonizado com a mesma. Esse propósito veio a ser condensado no slogan: uma maioria, um Governo e um Presidente. A maioria que lhe possibilitou um governo estável, o país deu-lha, duas vezes; a primeira na já referida vitória de dezembro de 1979, a segunda, em outubro de 1980, reforçando a conseguida menos de um ano antes. O Presidente foi-lhe recusado, mesmo, e, apesar, da sua morte trágica três dias antes da eleição. Ramalho Eanes, seu adversário, então Presidente, candidato à reeleição, estaria no centro de uma inimizade que se acentuou ao longo desse ano, também por motivos pessoais. Aliás, 1980 foi para Sá Carneiro, de facto, o ano do seu grande combate, como Homem, para lá do político, que, ironicamente, se tornou numa batalha política. Os valores e as convenções sociais eram, então, em Portugal, ainda muito marcadamente conservadores, principalmente no universo de que Sá Carneiro era originário, bem como da sua base de apoio (de direita, católica). E o simples facto de o primeiro-ministro viver maritalmente com uma mulher, Snu Abecassis, que não era aquela com que estava ainda casado pela Igreja, foi um escândalo e considerado, por muitos, como uma afronta à moral e à religião. Por que razão não se divorciara então? Apenas porque a lei portuguesa na época não permitia o divórcio contra a vontade de um dos cônjuges, antes de decorridos seis anos sobre a separação de facto, como era o caso (a primeira mulher do político opôs-se ao divórcio), tendo Sá Carneiro de esperar ainda mais dois anos até o poder fazer (Snu estava já divorciada do seu primeiro marido). Apesar disso, ao contrário do que os seus opositores poderiam esperar e mesmo contra a opinião de alguns dos seus apoiantes, o primeiro-ministro assumiu publicamente Snu como a sua mulher, que esteve sempre presente ao seu lado em todos os atos públicos mais importantes, oficiais e protocolares. Ou, pelo menos, em quase todos. Aquando da visita do Presidente americano Jimmy Carter em junho de 1980, os convites, a cargo do protocolo da Presidência de Ramalho Eanes, não incluíram Snu no programa social da primeira-dama americana. É fácil perceber que Sá Carneiro não gostou. As eleições presidenciais que se realizariam a 7 de dezembro tornaram-se então, também por esse motivo, no seu mais importante combate e que seria o derradeiro. Tanto assim, que, na iminência da derrota da eleição do seu candidato Soares Carneiro (todas as sondagens previam a vitória de Eanes), Sá Carneiro faz saber aos seus correligionários políticos que se demitirá do cargo de primeiro-ministro caso Eanes seja reeleito, dando-o a entender ao país no último tempo de antena que gravou da campanha eleitoral, e que não chegará a ser transmitido devido à sua morte. Apesar da tendência desfavorável, não desiste do combate até ao fim. A decisão de última hora de se deslocar ao Porto, para participar num comício de apoio a Soares Carneiro, é um forcing para captar mais votos. Essa viagem tornar-se-á fatal com a queda do avião em que Sá Carneiro viajava com a sua mulher Snu, Adelino Amaro da Costa e mulher, António Patrício Gouveia e os dois pilotos. Todos morreram em consequência do que várias Comissões de Inquérito Parlamentares consideraram atentado, ao contrário da Justiça, que nunca julgou o caso, adensando a aura de tragédia e mistério neste desenlace. Natália Correia, protagonista na aproximação de Sá Carneiro e Snu, recordou, quando a entrevistei na RTP em 1990, "essa paixão maravilhosa" e como Sá Carneiro desafiou convenções ao impor "à razão do Estado a mulher que amava", invertendo, desse modo, a lógica de Pedro e Inês. A razão do Amor venceu pois a razão do Estado e deu-me o mote para escrever o romance "O Fim do Tempo" (ed. Passado Presente, 2017), em que revisitei a história de Sá Carneiro e Snu. Que esse exemplo de carisma e coragem possa também inspirar os políticos de hoje. Ficávamos todos a ganhar com isso.

Sérgio Figueira

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