Woody Allen e uma desilusão de estrondo em San Sebastián

Rifkin's Festival abre esta noite o Festival de San Sebastián. Uma comédia cinéfila desinspirada de um Woody a brincar com o cinema de Fellini, Bergman e Truffaut. Mas hoje estreia-se também Pátria, sobre as feridas expostas do legado da ETA.

O Festival de San Sebastián arranca com um filme sobre o Festival de San Sebastián. A cortesia é de Woody Allen e nesta sua nova comédia, Rifkin's Festival, produzida com dinheiro espanhol e americano, atira-se com dentes afiados à frivolidade do mundo do cinema e dos seus bastidores festivaleiros. Goza com a imprensa fútil, publicistas superficiais, cineastas com ego do tamanho do mundo, parasitas diversos e toda a feira das vaidades. Não é um ato de amor pelo cinema nem pelos festivais, apenas uma bicada misantropa de alguém desencantado com o estado das coisas no mundo do cinema. Trata-se da história de um casal que chega ao festival, ele um professor de cinema frustrado, ela uma agente de imprensa vaidosa - estão numa crise conjugal que é acelerada pelo ambiente de cocktails e festas do festival. Pelo meio, há uma cardiologista espanhola cinéfila e um realizador francês que acredita que o seu próximo filme pode vir a ser a solução para o conflito israelo-árabe.

Woody, aos 84 anos, já deu o recado a dizer que está devastado por não poder viajar até ao País Basco, mas na gala desta noite vão estar Gina Gershon e Elena Anya, as suas novas musas. Na sessão de imprensa desta manhã sentiu-se no final da sessão uma receção fria ao filme. Rifkin's Festival tem muitos problemas. Falta-lhe a garra de Vicky Cristina Barcelona, outro filme "espanhol" do cineasta, e não tem o poder de paródia cinéfila que outros dos seus filmes mais antigos tinham, já para não referir que os sonhos cinematográficos do protagonista são demasiado óbvios na recriações a preto & branco de momentos de clássicos de Claude Lelouch, Godard, Truffaut, Fellini ou Bergman. Ou seja, o seu amor ao cinema é transposto como uma muito pouco subtil partida ao espetador. A desilusão é maior quando esta piada de mau gosto é feita sem Woody acreditar muito nela, sobretudo quando escolhe Wallace Shawn para ser o protagonista, ator que é deixado à solta numa imitação irritante de todos os tiques do próprio cineasta. O desastre atinge também proporções chocantes quando a dada altura a cidade de San Sebastián é filmada como adereço de postal ilustrado, quase ao jeito de um segmento de um filme promocional tipo I Love San Sebastián, em que não falta um Sergi Lopez como pintor adúltero a imitar o Javier Bardem de Vicky Cristina Barcelona.

Mas não será a desilusão inicial que trará maus ventos a um festival que tem muitos pontos fortes, sobretudo na secção Pérolas, onde estão obras como Verão 85, o novo de François Ozon, filme que está com o selo de competição virtual de Cannes 2020, e Nomadland, de Chloé Zhao, a obra que venceu o Festival de Veneza.

Hoje foi ainda mostrado à imprensa a primeira parte da série Pátria, a partir do besteller Fernando Aramburu, onde se conta a situação das vítimas dos atentados da ETA após o fim da luta armada. É talvez o acontecimento televisivo mais esperado em Espanha e é feito com uma sobriedade tocante. Aqui em San Sebastián ganha ainda uma força emotiva suplementar. Exemplar como a ficção televisiva espanhola conseguiu tão bem capitalizar um dos grandes traumas da sociedade espanhola...Pátria chega à HBO Portugal dia 23 e esta noite a gala promete provocar um debate nacional.

De Portugal vamos ter a estreia mundial de Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro, jovem cineasta que estará na competição da secção Zalbategi Tabalakera. Filmado num espaço de cinco anos, Simon Chama narra a passagem da infância à adolescência de um rapaz marcado pelo divórcio dos pais. Uma espécie de Boyhood português onde a cineasta faz uma experiência sobre as marcas do tempo. É filme para passar algo despercebido numa secção onde há pesos-pesados como Philippe Garrel ou Hong Sang-Soo

Catarina Vasconcelos, depois de Berlim, também volta aos grandes festivais com A Metamorfose dos Pássaros, premiadíssimo filme que aborda um olhar pessoal sobre a perda. Obra de um fulgor superior que reforça a posição portuguesa aqui em San Sebastián.

Também nas curtas-metragens o cinema português vai estar bem representado com Noite Perpétua, de Pedro Peralta, ilustração de um momento trágico de uma detenção de uma jovem mãe espanhola da repressão franquista. Cinema português a evocar o terror do fascismo espanhol para afugentar as sombras populistas dos dias de hoje. É um pequeno grande acontecimento!

O Festival de San Sebastián dura até dia 26 até e todas as sessões são rodeadas de fortes medidas de segurança sanitária: há sempre uma cadeira vazia e, para evitar filas, todos os bilhetes virtuais são com lugar marcado. Porque o cinema não pode parar, tal como a vida.

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