Walter Robinson: O jornalismo nos EUA vive na "bolha Trump"

O editor-at-Large no The Boston Globe liderou a equipa Spotlight que denunciou os abusos sexuais na Igreja Católica dos EUA em 2002. Veio a Lisboa falar sobre a importância do jornalismo de investigação para a sobrevivência da democracia.

Walter Robinson começou a fazer reportagens para o jornal quando ainda era estudante, em 1972, "está a fazer 48 anos" e descreve-se como "uma pessoa com muita sorte por ter uma carreira tão longa num dos maiores jornais dos Estados Unidos, o The Boston Globe.

"Trabalhei um pouco por todo o mundo, incluindo no Médio Oriente. Fiz a cobertura de quatro campanhas presidenciais e da Casa Branca com dois presidentes que eram civis na forma como lidavam com toda a gente."

Foi a primeira farpa lançada ao atual presidente dos EUA. Donald Trump não monopolizou a conversa mas foi tema incontornável. Segundo Robinson, o jornalismo vive numa "bolha" (temporária) graças à sua administração.

Comparando a investigação que liderou há mais de 20 anos com caso Harvey Weinstein, que desencadeou o movimento #metoo, não tem dúvidas: algo mudou para as vítimas de abusos sexuais.

Liderou a unidade de investigação Spotlight, galardoada com Prémio Pulitzer em 2003 e que serviu de argumento para o filme O Caso Spotlight, vencedor de Óscar em 2015.
Estava há um ano à frente da equipa quando começámos a investigar um padre católico e 20 meses depois, quando acabámos a investigação e descobrimos que só em Boston 250 padres tinham abusado de crianças.

Descobrimos que existiam centenas de vítimas e que a Igreja tinha encoberto estes casos. Foi uma grande história, não apenas em Boston, mas um pouco por todo o lado. E, em parte, porque a Igreja Católica não soube lidar com ela, é uma história que ainda não terminou. Após todos estes anos, há cada vez com mais revelações e em muitos outros países.

Atualmente teria margem para publicar uma história com a dimensão que esta veio a ter?
Penso que nenhuma organização noticiosa que soubesse que estes abusos estavam a acontecer se afastava de uma história como esta. É demasiado grave, o mal que foi feito às crianças foi horrendo...

Não tenho dúvidas de que a história seria publicada. O problema é outro: perdemos tantos jornalistas entretanto, que podemos não saber que outros abusos estão a acontecer.

Faltam jornalistas para investigar?
Tínhamos mais pessoas que costumavam descobrir este tipo de histórias e as reportavam e agora não há praticamente ninguém que o faça. Um dos problemas que o jornalismo norte-americano atravessa - e é transversal aos vários meios de comunicação - é que existem muitas boas histórias que não estão a ser contadas. Há demasiadas instituições públicas que não são escrutinadas pelos jornalistas e, como consequência, provavelmente há mais corrupção no governo.

Quando investigou os casos de abuso sexual na Igreja Católica estávamos no dealbar da idade da internet, ainda sem redes sociais (o Facebook foi fundado em 2004, um ano depois de a equipa Spotlight ter ganho o Pulitzer). À velocidade que a desinformação viaja pelas redes sociais atualmente, o que teria sido diferente?
A repercussão do caso teria sido muito maior. Digo isto porque as histórias que contamos eram irrefutáveis, tínhamos documentos que provavam o que aconteceu. Se fosse hoje? Assim que chegasse às redes sociais, o ultraje seria incomensurável em todos os países do mundo. Talvez o caso tivesse tido uma resolução mais célere.

Em 2002, as histórias tornaram-se virais na Internet. Logo nos dias seguintes começamos a receber emails de vítimas de todo o mundo. E isso, na altura, foi uma surpresa para mim.

Não surgiram tentativas de manipular ou distorcer as histórias?
Isso também foi feito. Será que essa desinformação teria tido mais impacto se tivesse sido difundida nas redes sociais? Não sei. Recordo que uma fação muito conservadora da Igreja começou por dizer que era apenas um caso relacionado com um padre gay. O que não era verdade, mas muitas pessoas acreditaram isso.

O aspeto crítico de todo o jornalismo que fazemos é a verificação, a prova. E quando existem provas documentais que podemos colocar online, por exemplo, as pessoas não vão culpar os jornalistas mas quem cometeu os atos terríveis que estão a ser denunciados.

Em 2017 o Pulitzer foi atribuído ao grupo de jornalistas do The New York Times que desvendaram o caso de Harvey Weinstein, também uma história de abuso de poder, agressão e abuso sexual. A forma como este tipo de vítimas é tratada nos media mudou?
Uma coisa que não mudou é que quando as instituições estão sobre assalto, como a NBC [uma cadeia de televisão norte-americana acusada por um dos jornalistas que investigava Weinstein de "matar a história" que posteriormente foi publicada pelo New York Times] , há sempre quem defenda essa mesma instituição. Foi o que aconteceu com a Igreja Católica.

As instituições continuam a ter primazia em relação às vítimas?
Algo mudou nas últimas duas décadas. Há menos culpa e vergonha. As vítimas de agressões sexuais, abusos sexuais sentem que têm mais espaço para contar as suas histórias. A sociedade está mais preparada para entender os diferenciais de poder que levaram a esses abusos. São mudanças para melhor.

Por exemplo, agora, nos locais de trabalho - espero que também aconteça aqui o já acontece nos EUA - o tipo de comportamento, as assimetrias de poder que levam a má conduta sexual, levada a cabo maioritariamente por homens e contra mulheres, é cada vez menos tolerada.

Veja-se o exemplo recente da McDonald's, que despediu o CEO por estar envolvido numa relação consensual com uma colega de trabalho. Levando em conta a dinâmica de poder entre ambos, não foi aceitável para a empresa.

Circulavam muitas histórias de abuso relacionadas com Harvey Weinstein... porque demorou tanto tempo a ser investigado pelos jornalistas?
E porque é que levou tanto tempo a investigar a Igreja Católica? Podemos fazer um paralelo com ambos os casos. No que diz respeito a Harvey Weinstein e pessoas como ele, os sistemas de suporte que o protegeram durante todos aqueles anos acabaram por derreter.

Derreteram?
Sim. E as pessoas estavam mais dispostas a falar. O New York Times e outros meios de comunicação sabiam de muitas das histórias sobre Harvey Weinstein há vários anos, mas não tinham conseguido que ninguém falasse. Faltava-lhes o elemento chave. Tal como nós fizemos para a Igreja Católica, conseguiram abrir uma caixa de Pandora. As pessoas passaram a ter vontade de falar, já não tinham medo.

Voltando ao paralelo... A Igreja Católica era "toda poderosa", os procuradores, os juízes tinham medo de a atacar, os pais das crianças tinham medo de falar.

E quando olhamos para outro tipo de instituições, como Hollywood, todas aquelas pessoas sentiam que não podiam falar porque as suas carreiras seriam destruídas por um homem poderoso e com muito dinheiro. Mas isso mudou. Agora..., mudou em todo o lado? Não. Só podemos ter esperança que mude.

Resta-nos a esperança?
A tendência para denunciar parece estar a seguir no bom sentido. Será que as coisas estão a mudar à velocidade necessária? Penso que muitas mulheres dirão que não estão. E têm razão. Seja inconscientemente ou não, as mulheres no local de trabalho não são tratadas com equidade em relação aos homens. Mas há muito mais discussão em relação a isso, o que é bom.

"Não podemos ter uma democracia vibrante, se não existir uma imprensa livre"

Como podem a imprensa livre e o jornalismo de investigação salvar a democracia?
Neste momento não tenho a certeza se podem salvá-la. A minha preocupação é pensar que a democracia pode estar de tal forma deitada no seu leito de morte que já não a consigamos ressuscitar. O que sabemos é que a democracia não funciona se a imprensa, os media, não funcionarem. Não podemos ter uma democracia vibrante, se não existir uma imprensa livre também vibrante.

E, por razões económicas, a imprensa já não é vibrante. E em simultâneo, existem forças a laborar para enfraquecer a nossa democracia. São duas coisas são interdependentes e nenhuma está a atravessar um bom momento.

Pode elaborar?
Muitas pessoas nos EUA consideram que se pudermos restaurar a estabilidade, civilidade e normalidade ao gabinete presidencial talvez seja possível começar a sarar as divisões que ferem a nossa democracia.

Poderá sarar mais depressa se a destituição de Trump chegar a bom porto?
O processo está a decorrer, a questão é se saber se o Senado irá votar a favor da destituição. Neste momento, isso não parece possível. Penso que o impeachment irá fazer com que muitas pessoas "acordem", o que poderá ter um impacto significativo nas presidenciais do próximo ano, mesmo que Trump não seja destituído.

Donald Trump descreve os media como "inimigos do povo" e caracteriza, frequentemente, as notícias que não o favorecem como falsas. Muitas vezes fá-lo através da conta no Twitter, que se tem tornado uma fonte praticamente inesgotável para os media... Trump tem sido bom para o negócio?
Sim, temporariamente. Para muitos meios de comunicação como New York Times, o The Washington Post, ou o The Boston Globe, sim. As pessoas estão mais atentas ao jornalismo que se produz porque entendem que algumas liberdades estão ameaçadas. E penso que percebem, mais do que nunca, a importância do bom jornalismo. Neste momento estamos a viver a "bolha Trump".

Essa bolha inclui o jornalismo de investigação?
Sim, particularmente em Washington DC onde é difícil acompanhar o fluxo noticioso diário. Repetindo a expressão que um amigo meu usou um dia destes, "a enxurrada de notícias é de tal ordem que sinto que estou a ser constantemente torturado por afogamento".

A administração Trump é mais escrutinada pelos jornalistas que as anteriores, especialmente pelos jornalistas de investigação?
Sim, sem dúvida.

As histórias que têm resultado desse escrutínio são tão lidas como os textos sobre o que Trump escreve no Twitter, por exemplo?
São lidas pela maioria dos leitores, as pessoas entendem o que se está a passar. Mas não podemos esquecer que a base de apoiantes de Trump acredita em tudo que ele diz e não no que lê sobre o que ele diz.

Sabemos que as redes sociais desempenharam um papel significado na eleição de Trump. Mark Zuckerberg afirmou no Senado que o Facebook irá continuar a publicar anúncios a partidos e candidatos políticos, inclusive os que tenham mentiras. Por seu lado, Jack Dorsey anunciou que o Twitter iria banir esses anúncios. Que impacto poderão ter estas decisões nas presidenciais de 2020?
É difícil responder a essa pergunta porque nos EUA não censuramos o discurso. Algumas organizações, como o The Boston Globe, não publicam anúncios de caráter político mas as estações de televisão fazem muito dinheiro com eles durante as campanhas eleitorais.

Se tentarmos censurar esses anúncios, se dissermos "não publicamos anúncios falsos", quem decide quais são falsos? "Ter direito a estar errado" é parte da beleza da Primeira Emenda, na qual muitas decisões do Supremo Tribunal se baseiam. Temos direito a errar. E falar livremente em público está intimamente relacionado com o facto de as pessoas poderem dizer o que lhes passa pela cabeça, mesmo quando o que dizem é falso. Não podemos impor limites ao discurso.

No entanto, quando se trata de vender um produto, como um anúncio, qualquer organização - seja o Facebook, o Twitter, o The Boston Globe - pode decidir não aceitar esses dólares, porque esse tipo de anúncios são uma enorme dor de cabeça. Especialmente para o Facebook, devido aos danos que podem vir a causar nas próximas eleições.

O jornalismo, e especialmente o jornalismo de investigação, deve investigar o poder. O que devíamos estar a investigar agora, que não estamos?
Há cada vez menos jornalistas a fazerem jornalismo de investigação e mesmo quando existiam muitos mais a fazê-lo, só conseguiam investigar uma pequena fração do que precisava de ser investigado. Agora, o que mais preocupa é que nos focamos nas coisas que estão ao nível do nosso olhar e a grande maioria das pessoas que mais precisa da nossa ajuda não estão à vista. Pessoas que foram abusadas por padres, pessoas que são atropeladas pelas sociedades em geral, grupos que não têm voz. E não sabemos que não sabemos.

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