Vanessa da Mata: "A minha música é medicinal"

A cantora brasileira volta a Portugal para dois espetáculos em que apresenta a sua Caixinha de Música e mostra como é possível viver sem ser amargurado mas, antes, ser Gente Feliz.

Dezasseis anos depois do primeiro disco, Vanessa da Mata já não tem medo do escuro nem dos fantasmas da própria voz, tal como cantava em Não Me Deixe Só (2002). Continua a ter aquela voz doce e alegre, continua a exibir um sorriso aberto e a abanar a farta cabeleira quando dança, mas é uma "boneca" que se recusa a agir de acordo com qualquer manual que não seja o seu.

Como ela canta em Gente Feliz, um dos seus temas novos: "Gente feliz não se incomoda com os outros/ Cada um tem sua maneira de existir/ Se cuide para não ficar amargurado/ Não seja o tipo que reclama e fica sentado." E foi isso que quis mostrar com o seu último trabalho, Caixinha de Música, lançado no Brasil em setembro do ano passado e que agora é apresentado em Portugal em dois concertos: na sexta no Casino da Póvoa e no sábado no Casino Estoril.

Caixinha de Música não é um disco como os outros porque nasce logo como um DVD, o que é um conceito pouco comum entre nós. "O público brasileiro pede muito esse registo de imagem", explica a cantora numa conversa telefónica entre os dois lados do Atlântico. "Eu sabia que faltava esse registo, mas estava tranquila também porque hoje em dia toda a gente grava nos shows e isso fez-me relaxar nos últimos anos. Além disso, achava que tinha de ser um trabalho especial, não podia ser só a gravação de mais um show. Tinha de ser algo de que eu conseguisse gostar e aprovar e curtir."

"Baú"

Quando chegou o momento certo, decidiu, então, criar um espetáculo novo, "feito de propósito para registar". Gravado em duas noites em São Paulo, o DVD Caixinha de Música inclui muitos dos êxitos da carreira de Vanessa, alguns com nova roupagem (não faltam, para os fãs de sempre, temas como Ai, Ai, Ai, Amado, Ainda Bem ou Boa Sorte) e ainda quatro inéditos: Orgulho e Nada Mais, Gente Feliz, É Tudo o Que Eu Quero Ter e Caixinha de Música. "Escolhemos conforme o assunto e conforme ritmos, a gente não queria ter muito de rock ou muito de reggae, porque não queríamos que o disco ficasse muito ligado a um determinado estilo, tentámos fazer de uma maneira variada", explica.

É um espetáculo que é como uma viagem. Como voltar aos sítios onde fomos felizes procurando, de vez em quando, uns caminhos novos. E - fazendo o percurso ao contrário do que é habitual -, depois de gravado o DVD, Vanessa meteu-se na estrada para apresentar o novo espetáculo ao público.

"Caixinha de Música"

A ideia de "caixinha de música" tem que ver, por um lado, com uma respiração da música (há muito espaço para os instrumentos neste espetáculo) mas também com uma ideia de vibração. "Aquela ideia de que as ideias estão numa caixinha, que pode ser a caixa torácica ou o meu cérebro, as ideias estão ali guardadas, protegidas, mas há uma necessidade de comunicação, de "revibração" no outro. A minha música é sempre um diálogo."

E Vanessa é, mais do que uma compositora, uma contadora de histórias. Uma "cantadora de histórias", na verdade. Ela admite que não sabe tocar bem nenhum instrumento e que na maioria dos casos as canções começam com as palavras a que vêm associadas melodias: "Podia tentar gravar a melodia no violão mas, como não sou uma instrumentista, isso seria muito redutor", diz. Então, o que ela faz é cantar a melodia para que os músicos procurem os acordes certos. O que acaba por ser um processo muito mais livre, explica.

"Valsa do sorrir"

As suas canções podem falar de amor e de desamor, mas também de orgulho, de respeito pelo outro, dos preconceitos. Não são canções políticas mas também não são canções assim tão ligeiras como podem parecer à primeira vista. Uma coisa é certa, Vanessa da Mata é uma pessoa do bem e, mais do que apontar problemas, procura apontar soluções: "A minha tentativa sempre é, se a vida é triste, sair dessa tristeza, se é quotidiana é de haver uma história de um instinto de vida. Eu sou uma pessoa assim. A tristeza existe, ela é importante, mas não pode perdurar. Para mim é sempre uma catapulta, para que a gente saia dela e continue para a frente. Quando isso não acontece, há alguma coisa errada, uma descompensação química ou uma depressão. Essa não é a minha função, a minha função é trazer uma manifestação de uma ideia, de um incómodo, e ao mesmo tempo uma cura - a música para mim é completamente medicinal, sou uma doutora da alma."

"Boa sorte"

Escritora de canções, Vanessa da Mata é também uma escritora de romances. O primeiro, A Filha das Flores, foi lançado em 2013. O segundo está a ser escrito mas ela ainda não revela pormenores nem sabe quando será editado. São duas maneiras completamente diferentes de escrever, explica: "O romance é muito mais trabalhoso. O meu livro demorou 33 meses a ser escrito e tinha 300 páginas. Fiquei exaurida. Mas eu gosto disso de dedicar muito tempo dentro do mesmo assunto, é um trabalho exaustivo, imersivo, profundo. Eu não queria sair do meu livro - criei um mundo à parte, inteiro, cheio de detalhes e a sensação que eu tinha era de que aquelas personagens existiam mesmo", conta.

Já as canções são pequenas histórias que ela concretiza rapidamente: "As canções têm várias etapas: escreve, faz a melodia, vai para o estúdio, passa para os músicos, grava, ensaia, vai para a estrada. É um processo cheio de novidades e menos cansativo." Vanessa sabe que as histórias cantadas são mais poderosas do que se ficassem só pelo papel e isso é algo que a motiva: "A música faz que as pessoas se liguem naquele assunto de uma maneira muito mais potente."

"Segue o som"

No regresso ao Brasil, Vanessa da Mata vai entrar em mais uma aventura: está a criar um espetáculo em parceria com a cantora cubana Omara Portuondo. "Será uma tournée pequena mas trabalhosa, com uma senhora extremamente competente, com uma história fenomenal", conta a brasileira, não escondendo a sua felicidade.

"Eu fiz uma participação num show dela há muitos anos e agora ela se lembrou e estamos a criar um show novo com um repertório híbrido de músicas brasileiras e cubanas, clássicos e músicas modernas, estamos ainda acertando tudo." As duas vão apresentar-se em seis cidades brasileiras. E só depois Vanessa terá tempo para se isolar um pouco e, quem sabe, pensar num novo disco de originais.

Concertos:
27 de julho - Casino da Póvoa
28 de julho - Casino Estoril
11 de Agosto - L´Kodac, Leça da Palmeira
13 de Agosto - Festival do Marisco, Olhão

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