Um vinho suave para tempos difíceis

Eis uma pequena surpresa com selo Netflix: Uncorked é um olhar sobre a relação entre um pai e um filho, corroída pelas expectativas de um e o improvável sonho do outro de se tornar especialista em vinhos.

O vinho como tema e metáfora das relações, leve degustação de cinema, ou reconforto líquido para tempos incertos. Podemos ver Uncorked (disponível na Netflix), primeira longa-metragem de Prentice Penny, por qualquer um destes ângulos. Um filme que se centra no típico conflito entre pais e filhos à volta do futuro destes, mas sem as comuns discussões espalhafatosas e com um especial enfoque no processo de maturação de quem está a aprender a fazer as suas escolhas de vida.

Por outras palavras, não é todos os dias que nos chega um olhar sobre um jovem afro-americano a tentar construir o seu próprio caminho no meio exigente da especialização em vinhos. Logo aí, Uncorked entra no campo do retrato atípico que quer mostrar como é que a cena afro-americana pode ganhar contexto numa área tão específica, sem ser necessário recorrer a caricaturas ou enveredar pelo discurso direto do racismo. Nada disso. Aqui estamos simplesmente a assistir à composição de gestos perseverantes de um jovem, Elijah (Mamoudou Athie, apuradíssimo), que divide o seu tempo entre o trabalho na churrasqueira do pai e numa loja de vinhos, onde atende os clientes com a inspiração e requisito de um verdadeiro connoisseur.

Quando decide que este seu gosto pelo vinho, enquanto ciência do paladar, é para levar a sério, inscreve-se no difícil curso para mestre sommelier, ao mesmo tempo que o pai (Courtney B. Vance) se adianta nos projetos de lhe deixar o negócio da churrasqueira, tal como aconteceu com ele em relação ao seu próprio pai, e assim sucessivamente, numa espécie de prisão da passagem de testemunho geracional. Ao assumir perante o progenitor que vai perseguir um sonho pessoal, Elijah não terá a vida facilitada, é certo. Mas ao contrário do confronto ríspido que quase sempre acompanha este tipo de situações, impera o silêncio. E essa mágoa calada que se arrastará entre os dois ao longo do filme é o passe de mágica deste pequeno objeto cinematográfico, subtil e bastante "digestivo".

Prentice Penny conjuga na perfeição a alma afro-americana - nomeadamente através da banda sonora, e várias referências a Beyoncé - com a elegância da atitude de degustação do aspirante a mestre sommelier. Aliás, a palavra francesa para escanção dá mesmo azo a um momento de pura comédia à mesa, quando Elijah, frustrado, tenta explicar o seu significado aos familiares por entre uma bizarra conversa que a encaminhou para a associação com a Somália e um mexerico sobre um roubo de identidade...

Sobretudo, Uncorked é um filme cujas suaves notas dramáticas, acentuadas com o avançar da história, beneficiam de um estilo lacónico. Não se pisam demasiado as emoções mas, por outro lado, estas surgem sem aviso através de leituras de paladar e olfato, tirando partido da beleza dos sentidos à volta de um líquido fermentado. Como diz o protagonista, o vinho é uma forma de viajar até aos lugares onde é produzido. Uma rota invisível. O que ele vai descobrir é que também é uma maneira de saborear uma memória, de estar mais próximo de alguém, de procurar uma reconciliação e de suportar os dias menos bons. Sempre com sensibilidade de degustação e uma boa batida interior.

*** Bom

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