Um filme perturbante contra a pena de morte

O cineasta iraniano Mohammad Rasoulof apresenta uma visão trágica, eminentemente crítica, da permanência da pena de morte nas leis do seu país: "O Mal Não Existe", Urso de Ouro do Festival de Berlim, chega agora às salas portuguesas.

O Mal Não Existe: situações e personagens de um país em que as notícias provêm de um tempo não muito distante, mas ainda anterior à pandemia. Foi em fevereiro deste ano. O cineasta iraniano Mohammad Rasoulof apresentava O Mal Não Existe na secção competitiva do Festival de Berlim, um poderoso libelo contra a pena de morte, arrebatando o prémio máximo (Urso de Ouro); representado no certame pela filha, Baran Rasoulof (uma das atrizes do filme), o realizador tem sido alvo de processos judiciais que, além de o impedirem de viajar para fora do seu país, envolvem a acusação de "propaganda contra o sistema" e consequente interdição de filmar.

É esse filme, intenso e perturbante, que agora chega às salas portuguesas, constituindo um dos grandes acontecimentos do final deste atribulado ano cinematográfico.

Em Berlim, o ator britânico Jeremy Irons, presidente do júri que premiou Rasoulof, definiu o seu trabalho de modo exemplar, considerando que O Mal Não Existe sabe mostrar "a rede que um regime autoritário tece em torno das pessoas normais, levando-as a comportamentos inumanos." Isto porque se trata de problematizar a existência da pena de morte no Irão, não através de referências abstratas, antes a partir das experiências de personagens envolvidas no ato ritualizado da morte do condenado.

A divisão do filme em quatro histórias autónomas (O Mal Não Existe é também o título da primeira) confere-lhe uma muito particular eficácia dramática. A diversidade de situações e personagens contribui para que a pena de morte não seja pensada, nem sequer descrita, como uma questão estritamente legal ou estatal, emergindo antes como um assombramento social que se manifesta nas mais variadas histórias individuais.

Não por acaso, em todas as histórias encontramos personagens que fazem ou fizeram parte do sistema prisional. Mais, muito mais, do que "agentes" de um sistema desumano de punição, Rasoulof filma-os numa encruzilhada de muitas ressonâncias trágicas. Dito de outro modo: a partir do conflito radical entre os ditames de um Estado e a turbulência das consciências individuais. Exemplo modelar: o soldado que, na segunda história, não quer aceitar o facto de ser um instrumento "mecânico" no ato de matar um seu semelhante.

Confirmamos, assim, a fascinante vitalidade do cinema iraniano. Autores como Abbas Kiarostami (1940-2016), o "oscarizado" Asghar Farhadi ou Jafar Panahi, também julgado e impedido de filmar, têm sido presenças regulares no mercado cinematográfico português. Para lá das suas especificidades formais, há neles uma exigência de verdade que define uma genuína postura cinematográfica. A saber: a paixão do realismo.

* * * * Muito Bom

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