Um casal disponível para o cinema humanista

O cinema de Robert Guédiguian abre-se cada vez mais à vida e às nossa fragilidades. Chegou aos cinemas o belo A Casa junto Ao Mar, com a sua mulher Ariane Ascaride. O DN entrevistou o casal em Paris e captou a cumplicidade de uma dupla que tem um percurso longo e consistente. Um filme sobre como lidar com a memória e o seu peso

Estamos nas sete quintas de Robert Guédiguian, cineasta comunista francês de origem arménia. As sete quintas significam aquele humanismo reivindicativo muito "lá de casa". O homem filma uma família à beira da morte do pai. Três irmãos que se reencontram na casa ao lado do porto de Marselha. O local onde cresceram e se fizeram adultos.

É uma história sobre a passagem do tempo ou sobre como o tempo nos corrompe. Tem o idealismo cínico da premissa de que o que era bom não volta a ser.

Os três irmãos já não são os mesmos. Estão a enfrentar a morte do pai mas enquanto olham o Mediterrâneo enfrentam os remorsos do passado. Um é intelectual blazé e amargo de coração, o outro ficou sempre na casa ao lado do pai, enquanto a irmã é uma atriz com mágoa por uma tragédia que a marcou.

Olham muito para o mar, lembram-se da suas juventudes e sonhos enquanto há Bob Dylan na banda-sonora. Trata-se de um "modus operandis" cinematográfico profundamente simples e honesto. A câmara de Guédiguian exala um humanismo sereno, mesmo quando aposta numa fratura da narrativa familiar e introduz duas crianças estrangeiras que surgem junto ao mar. É tempo de agir, é tempo de as receber.

Nesta conversa, Guédiguian ouvia com sorriso a sua mulher, Ariane Ascaride, musa permanente do cineasta que com ela filmou pérolas como Maris e Jeannette, As Neves de Kilimajaro, La Ville et Tranquille, bem como tantas outras...

Este é um filmes sobre as memórias e como elas nos marcam. São memórias muito pessoais para vocês?

Robert Guédigian- À partida, sim, embora as memórias estejam por todo o lado. Digamos que as três personagens principais têm a mesma idade e estão muito próximas de mim. De um certo modo, há um lado de diário íntimo. Depois há coisas que encenei para que a ficção pudesse entrar, sobretudo as histórias românticas. Havia que criar mecanismos para que essas personagens próximas de mim se pusessem a mexer.

É coisa geracional?

R. G- Sim, por completo! Essa foi a ideia de base, queria dizer algo sobre esta minha geração. Paralelamente, falar de como eles estão perante a sociedade e o trabalho. Ao mesmo tempo, há o lugar do pai que vai morrer. Com ele, morrem valores antigos e uma sociedade do passado. Perdem-se valores fraternais, costumes tradicionais...Quando os filhos voltam encontram um pai a morrer e que já nem consegue falar. O pai nem pode ter o poder da palavra...Neste filme quis ainda filmar uma comunidade que deixa de ficar sozinha. Estes homens e mulheres daquele lugar têm de levar com cada vez mais visitantes, mas nestes dias não são apenas turistas, mas sobretudo pessoas mais desfavorecidas do que eles. Chegou um novo mundo de pobres! Àquela casa junta ao mar chega algo bastante global.

A Ariane nunca fica implicada na criação das histórias dos seu marido?

Ariane Ascaride- Não, nada! Nem quero. Diverte-me estar numa posição igual àquela que estou em relação aos outros realizadores... Gosto de receber o texto e, depois, eventualmente, poder fazer mudanças com o realizador. Com o Robert é igual. Não me interessa nada estar a trabalhar com ele em casa, isso não pode ser. Qualquer dúvida pergunto-lhe na altura da pré-produção. A minha primeira reação ao argumento de A Casa junto ao Mar foi toda direcionada à minha personagem. Mas houve uma versão do argumento que não incluía as crianças refugiadas, focava-se mais no tempo suspenso desta família. Seja como for, a questão da relação desta mulher com os irmãos fascinou-me muito. Mas este filme é realmente um diário íntimo do Robert. É ele a dizer "eu sou assim". Tiveste muita coragem, Robert...

Robert Guédiguian- ...

Mas ainda se surpreende com elementos que ele possa trazer ao plateau?

A.A- Não...Nós já temos surpresas um com o outro constantemente! Não correspondemos à imagem do casal de cinema que todos pensam. Aliás, essa coisa do casal de cinema não existe. O que surpreende a quem nos visita no plateau é a nossa escala. Somos muito poucos e há uma imensa doçura nos bastidores.

Fala-se que o Robert preza uma tranquilidade total na rodagem ...

A.A- A tranquilidade é realmente enorme! Claro que também nos rimos, sobretudo porque nos conhecemos muito bem. O Robert nunca faz demonstrações da sua liderança. Nos seus filmes, essas relações de poder não existem e, no geral, nunca servem para nada. Perde-se tempo com essas coisas...Nós os atores esquecemos o estatuto de ator, só queremos saber das personagens.

R.G.- Isso é o que é importante.

A.A.- Mas surpresas no plateau só à noite, quando a cozinheiras nos prepara coisas deliciosas.

Há quem fale que o catering num pleateau é fundamental.

A.A.- É muito importante!

Mas em toda a sua obra talvez nunca tenha visto a Ariane com uma personagem tão desenvolvida. Estarei a delirar?

R.G.- Talvez não esteja. E isso é porque o ponto de partida o permitiu, não foi algo imposto. Escute, diverti-me imenso a fazer jogos com coisas que vinham dos outros filmes, mesmo pedaços de diálogo. Gosto de meter coisas repetidas. Ao mesmo tempo, o filme permitia esse jogo.

Há uma mensagem de esperança neste filme sobre este mundo de hoje. Para alguém de esquerda como o senhor, não deixa de ser um manifesto, não?

R.G.- Sim! Mas causas e combates são coisas que nunca desaparecem. Neste momento tão delicado com os refugiados, tenho uma enorme admiração pelas associações e pessoas que ajudam estas pessoas. Mas não quis que o filme tivesse um lado de panfleto, caso contrário não precisamos de ir ao cinema, basta comprar o jornal e ler as notícias.

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