Pearl Jam. Um banquete de grandes canções

Foi um verdadeiro desfilar de clássicos, este último dia de festival, com um variado menu composto por Alice in Chains, Franz Ferdinand e Jack White, que serviu de aperitivo para o opíparo prato principal, cozinhado pelos Pearl Jam

Sentia-se desde cedo que este sábado era um dia diferente no Nos Alive. Ainda não batiam as seis da tarde e, à entrada, as filas quase dobravam as de quinta e sexta. Vivia-se um ambiente parecido ao de antigamente, quando as grandes bandas por cá raramente passavam e cada concerto era todo um acontecimento, precedido de diversos rituais de festa. Mal comparado, era como se o festival tivesse sido transplantado para um daqueles velhinhos concertos de estádio, aguardados meses a fio, tal como o foi esta última noite, a primeira a esgotar, logo em dezembro, mal foi divulgado o nome dos Pearl Jam.

Afinal, mesmo parecendo que foi ontem, já tinham passado oito anos desde que o grupo de Seattle se apresentara pela última vez em Portugal, neste mesmo palco. "Demasiado tempo para uma banda como esta", comentava-se num grupo de fãs, identificáveis pelas t-shirts, à volta de uma mesa cheia de copos de cerveja.

Os fiéis de há 20 anos vinham acompanhados de uma nova geração, alguns deles envergando camisolas porventura já herdadas dos pais, de antigas digressões da banda que passaram por Portugal, ostentadas como verdadeiros troféus de guerra. Foi por isso bonito ver gente de todas as idades a receber tão bem os Alice in Chains, conterrâneos, contemporâneos e antigos companheiros de estrada dos cabeças-de-cartaz da noite, hoje em posições tão opostas.

É certo que Layne Staley só houve um, mas William DuVall, o vocalista que o substituiu, após a sua morte, em 2002, revelou-se um herdeiro à altura, na missão de manter eternas estas canções, elas sim imortais, como o são Them Bones, No Excuses, ou Would?, que ainda assim não serão a banda sonora mais indicada para um fim de tarde radioso à beira mar. Mesmo assim sorriu-se, brindou-se, cantou-se e tudo isso fez sentido ali, àquela hora.

Cabia aos escoceses Franz Ferdinand continuar a embalar o público, agora já noite adentro. Uma tarefa exemplarmente cumprida, ainda que não seja muto complicado fazê-lo, para quem tem canções do calibre de Walk Away, Take Me Out ou This Fire, com qual encerraram em grande o concerto.

Quando Jack White começou a atuar, já a multidão era muito maior, deixando quase desertos a maioria dos outros palcos do festival, embora mais por causa do que vinha a seguir.

Mesmo assim, quem lá estava não se arrependeu, pois assistiu a um excelente concerto do músico americano, que apresentou um alinhamento composto essencialmente por momentos da carreira a solo e dos White Stripes, mas também com passagens por temas dos Raconteurs e Dead Weather. E acabou a despedir-se em total apoteose, ao som de Seven Nation Army, uma canção já muito maior que o seu próprio criador - voltaria a ser ouvida nessa noite, entoada espontaneamente pelo público durante o concerto dos Pearl Jam.

À medida que se aproximava a hora mais desejada tornava-se cada vez mais difícil vaguear pelo recinto. Com a plateia cada vez mais compacta, ainda eram muitos os que tentavam furar, para reencontrar os amigos ou simplesmente ver os ídolos um bocadinho mais de perto. Por todo o lado viam-se lanternas de telemóveis acesas, tentando dar orientações aos tresmalhados, mas mal os Pearl Jam subiram ao palco, cerca de 15 minutos depois da hora marcada, ninguém mais se mexeu do lugar onde estava.

Noite histórica, que mais parecia "uma daquelas, de antigamente"

O arranque ao som de Low Light foi o normal, mas logo no tema seguinte, quando o publico cantou em coro, antes do próprio Eddie Vedder, a letra de Betterman, logo se percebeu que algo de especial poderia acontecer esta noite. Tal como "há 22 anos, em Cascas", como o próprio vocalista recordou, antes de se atirar a Even Flow, um dos temas mais amados do álbum de estreia Ten.

Momentos depois, em Daughter, outro clássico, parte do refrão é improvisado para um muito português "está tudo bem". Depois, seguiu-se o que todos esperavam e desejavam, com uma sucessão de hinos como Jeremy, Black ou Rearviewmirror, quando a imagem de Chris Cornell, vocalista dos Soundgarden, falecido no ano passado, apareceu nos ecrãs gigantes, estampada na T-shirt do baterista Matt Cameron.

Pelo meio, Eddie Vedder puxou dos galões de ativista social e dedicou Can't Deny Me "a todas as mulheres e aos homens que as apoiam". Já perto do final, voltaria a os seus dotes de pregador, ao exortar as novas gerações a tornarem-se numa "força para o bem", antes de interpretar uma sentida versão de Imagine, de John Lennon, acompanhada em uníssono por todos - vendedores de cerveja incluídos.

O encore continuaria com uma outra versão, de Comfortably Numb, dos Pink Floyd, para terminar ao som de Porch e a catártica Alive. Seria o final perfeito, mas ainda havia mais e o que se seguiu é que ninguém esperava, quando Jack White se juntou aos Pearl Jam para uma versão selvagem de Rockin' In The Free World, o hino de Neil Young (também ele já passou por este festival), devidamente interpretado com toda a urgência que merece. Agora sim, era o final de sonho para uma noite histórica, que mais parecia "uma daquelas, de antigamente".

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