Toda a gente tem medo, até o Lobo Mau

"Abre carta, Lobo Mau" é o espetáculo para crianças dos 3 aos 5 anos que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em lisboa.

E se, em vez daquele encontro em casa da avó, que acabou tão mal, o Lobo Mau e a Menina do Casaco Vermelho se tivessem cruzado na floresta e ficado amigos? Era a partir desta ideia que se desenrolava a história de Mau, mau, Lobo Mau e que agora surge o espetáculo Abre a carta, Lobo Mau: já velhinho, o Lobo vive na sua casa no meio da floresta e entretém-se, na sua cadeira de baloiço, a fazer tricot e a fazer as palavras cruzadas enquanto espera pelas quintas-feiras, dia em que recebe a vista da Menina do Casaco Vermelho que lhe traz bolinhos de amora e as cartas que estão no correio.

"Eu já fui um lobo tão mau, uma carantonha de fazer modo", conta o Lobo aos meninos pequeninos que se sentam em almofadas no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. "Fiquem saber que não havia na floresta quem não fosse para a cama horas, só de pensar na minha bocarra aberta." Mas, entretanto, já ninguém tem medo do Lobo Mau. "Os meninos e as meninas arranjaram outros medos, coisas novas", lamenta-se.

Por isso, em vez de meter medo, o Lobo dedica-se agora a curar os medos dos outros. É o "professor doutor dos medos". Os meninos escrevem-lhe e dizem quais são os seus medos - do escuro, do primo, dos trovões, dos pesadelos, das baratas... - e ele aconselha-lhes remédios. "Todas as pessoas têm medo de alguma coisa", explica ele. A Menina do Casaco Vermelho, por exemplo, tem medo do cuco do relógio. E até ele, Lobo Mau, tem medo das cartas que recebe e que se recusa a abrir - são cartas de despejo e o Lobo tem medo porque não sabe para onde há de ir morar.

Abre a carta, Lobo Mau é espetáculo novo do programa Boca Aberta do Teatro Nacional D. Maria II, que se estreou na semana passada, para crianças dos 3 aos 5 anos. O texto foi escrito por Inês Fonseca Santos e Maria João Cruz e a encenação é de Catarina Requeijo. Além das sessões para escolas, há sessões para famílias ao fim de semana nos dias 7, 14 e 15 de dezembro e ainda a 11 de janeiro.

Uma "Boca Aberta" para as escolas de Lisboa

Este é já o quinto ano do programa Boca Aberta. "Começou com um projeto de parceria com a Câmara de Lisboa só com dez jardins de infância e no primeiro ano fizemos quatro espetáculos", conta a encenadora. "No final desse ano refletimos e percebemos que quatro espetáculos era demais, seria melhor fazer só dois, mas manter o modelo com a vinda das crianças ao D. Maria e a ida dos espetáculos à escola. Há sempre esses dois momentos e nenhum deles é mais importante do que o outro." Assim, este ano letivo, depois de Abre a Carta, Lobo Mau, que acontece na sala do Rossio, em março, o espetáculo Onde é a Guerra? será apresentado nas escolas.

No Salão Nobre, é possível "arriscar em espetáculos mais calmos, com silêncios mais estendidos", explica Catarina Requeijo. "Nas escolas têm de ser espetáculos todo-o-terreno, que aguentem ruído sonoro, ruído visual, porque há desenhos pendurados nas paredes ou é feito na cantina, e eles estão muito mais à vontade, estão no espaço deles, somos nós que entramos em casa deles."

Entretanto, o Boca Aberta passou a chegar a cada vez mais públicos, com uma parceria com a escola do Hospital Dona Estefânia e também com a Santa Casa da Misericórdia (num programa que junta público composto por idosos dos centros de dia misturados com os jardins-de-infância). "Mantivemos sempre aquele núcleo daquelas primeiras escolas e fomos acrescentando outras. Neste momento já estamos com 120 salas e queremos chegar a toda a rede pública da cidade de Lisboa, portanto a 240 salas de jardim-de-infância", anuncia Catarina Requeijo.

Para a encenadora a continuidade desde projeto é uma das suas mais-valias, porque permite ir estabelecendo um contacto muito próximo com as escolas e com as crianças. "Em cada triénio, o espetáculo que está no Salão Nobre tem uma sequência narrativa. Já tivemos o escaravelho e agora temos o lobo mau. Este é o segundo espetáculo. Assim, algumas das crianças que vêm reconhecem não só o cenário mas também as personagens e acompanham a história", conta Catarina Requeijo.

"Fazemos sempre uma visita à escola antes e fazemos um trabalho de observação, queremos saber quem são eles, as características sociais, se há carências económicas, as várias proveniências, se há crianças com necessidades educativas. Depois, fazemos um trabalho com as educadoras que estejam interessadas em ter uma formação proporcionada pelo Teatro D. Maria II. Trabalhamos ferramentas como a expressão dramática, o contar histórias, utilização da voz e do corpo. E isso também nos permite conversar com as educadoras e recolher informações."

Tudo isso, embora seja um trabalho paralelo, contribui para a criação: "Já conhecemos bem o público alvo, vamos percebendo a sua capacidade de atenção, a quem é que podemos pedir um esforço maior, subir um bocadinho a fasquia". Os mini-espectadores têm 3 a 5 anos, mas vêm misturados porque é esse o modelo da escola pública, portanto, há sempre várias camadas de atenção e de compreensão num espetáculo. De qualquer forma, "o à-vontade com este espaço, eles estarem aqui, entrarem neste edifício imponente, conhecerem as escadas, já é uma conquista".

Todos temos medos

Desta vez o principal tema do espetáculo é o medo. E as crianças identificam-se imediatamente. "Queríamos legitimar o medo para que não houvesse vergonha de ter medo, toda a gente tem medos", explica a encenadora. "Há medos que estão neste espetáculo que nos foram propostos pelos miúdos que viram o espetáculo do ano passado. Este ano pedimos às educadoras para falarem com eles sobre os bons remédios para os medos, se o mesmo remédio serve para toda a gente. Ontem já nos disseram que crescer é um remédio. Dormir também pode ser um remédio para o medo."

Mas há outros assuntos que também são abordados, como a questão das cartas que os adultos não querem abrir. Ou o problema da habitação. "Provavelmente muitos dos meninos têm avós ou conhecem alguém que pode estar a passar por uma situação semelhante."

No próximo espetáculo, o tema será a guerra. "A situação de guerra interessava-nos principalmente para explorar esta ideia: como é que se pensa o outro, aquele que está do outro lado? Como é que imaginas o inimigo? Porque normalmente imaginamos o inimigo como uma criatura horrível. No texto, o inimigo cheira mal dos pés, não lava os dentes. E no final queremos chegar a uma situação em que ambos os soldados descubram que o inimigo afinal não é assim tão diferente deles. Há um sentimento de desconfiança em relação ao outro, que é diferente, e penso que era importante falar disso, sem ser de uma forma panfletária", explica Catarina Requeijo.

É impossível saber se aquelas crianças que vêm ao teatro com as escolas irão crescer para ser espectadores de teatro, se continuarão a vir, trazendo os seus pais. "Não conseguimos fazer futurologia", diz a encenadora. "Mas há uma coisa muito importante, que é o presente. O direito à fruição artística é fundamental para qualquer pessoa, de qualquer idade. O que se está a fazer com este tipo de projetos para a infância, ainda que fosse um fracasso em termos futuros, e eu penso que não será, é importante para estas crianças agora. A fruição estética é tão importante quanto a matemática ou as ciências ou outra disciplina qualquer."

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