'The Comey Rule': sei o que fizeste nas eleições passadas

De olhos postos na atuação do ex-diretor do FBI James Comey durante as presidenciais americanas, a minissérie The Comey Rule dá-nos a primeira "personagem" de Donald Trump num drama televisivo, com interpretação de Brendan Gleeson. Disponível a partir desta segunda-feira na HBO Portugal.

Em tempos de campanha eleitoral americana, estrear uma minissérie que vem expor tudo o que correu mal nas eleições de 2016 não é um ato inocente - talvez possa ser visto como necessário. Foi nesse ano que, para muitos americanos, o nome de James Comey, então diretor do FBI, ganhou uma aura negativa: a investigação que ele ordenou, e tornou pública em plena fase de campanha, sobre os e-mails de Hillary Clinton e as suas possíveis violações de segurança, que afinal, poucos dias antes da corrida às urnas, revelaram não conter nenhum delito, acabou por marcar irremediavelmente a imagem da candidata democrata e favorecer o republicano Donald Trump. Este, por sinal, também debaixo de olho pela descoberta de indícios da tentativa de sabotar a campanha de Hillary com ajuda russa. Algo que, vá-se lá saber porquê, não veio a público na mesma altura.

Resumindo, o líder do FBI converteu-se num alvo de ódio por parte dos democratas, indignados com a sua infeliz decisão, que fez lançar suspeitas escusadas sobre Hillary, e por parte dos republicanos, porque a dita investigação não a incriminou. Nos termos em que o pôs o comediante Stephen Colbert, não dá para perceber bem se Comey é o good guy ou o bad guy. Será mais complexo do que isso...

The Comey Rule entra nos bastidores da história para descrever com minúcia o papel de Comey (Jeff Daniels) nos meses anteriores às eleições e nos dias que se seguiram à tomada de posse de Trump, até à sua demissão ordenada pelo novo presidente. Baseando-se no livro do próprio James Comey, A Higher Loyalty, o realizador e argumentista Billy Ray, que assina as duas partes desta minissérie, procurou o máximo distanciamento do retrato "heroico" do protagonista - mesmo não hesitando em mostrar o lado do bom marido e pai de família, para além de profissional humano e atento aos seus subalternos - com o intuito de analisar friamente as suas decisões e aquilo que definiu o seu percurso em momentos cruciais da narrativa política americana.

Assim, estamos perante um "refrescar da memória" que, no formato de dois episódios (cada um com a duração normal de um filme), começa por deter-se sobre a cronologia dos pequenos grandes acontecimentos de gabinete, e as análises e erros de um homem norteado pelo sentido de integridade, mas sem qualquer tato ou razoável instinto político para as situações com que se deparou - apesar do aconselhamento de membros da sua equipa. Já na segunda parte, que corresponde ao início do mandato de Trump, é Brendan Gleeson, na pele do atual presidente dos Estados Unidos, quem assume as rédeas do espetáculo incorporando os seus maneirismos, a postura e o tom de voz, mas tentando não cair na caricatura redonda. Para esse efeito existe a performance de Alec Baldwin no Saturday Night Live.

Neste contexto do presidente eleito, Comey é visto, à partida, como um possível aliado da nova administração, daí que tenha convivido durante um tempo com o assédio de Trump, que tentou fazê-lo jurar lealdade à sua pessoa e, de forma mais assertiva, proibir que o FBI o investigasse na questão russa. O resultado desse ataque cerrado é conhecido: Trump demitiu Comey por lhe parecer que ele não estava a colaborar com a sua vontade, e Comey, por sua vez, publicou um livro que não só relata a sua "aventura" com a Casa Branca como inclui expressões usadas pelo presidente que foi registando à medida dos encontros e chamadas telefónicas.

Se nos lembrarmos de que Billy Ray é o realizador de filmes como Verdade ou Mentira (2003), que aborda a ética jornalística, e Quebra de Confiança (2007), centrado num agente do FBI que se tornou informador russo, além de argumentista do recente O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood, The Comey Rule revela-se uma nova entrada muito coerente no tipo de matéria que se habituou a trabalhar. Nesse sentido, o melhor que se retira desta minissérie é uma espécie de "sei o que fizeste nas eleições passadas", ou seja, uma atenção cuidadosa aos procedimentos internos e públicos que mexeram com a realidade americana e o conceito de verdade.

Como diz alguém a certa altura, "os factos estão mortos". Mas talvez ainda valha a pena tentar ressuscitá-los. Até porque os serviços secretos americanos reafirmaram há poucos dias que a Rússia continua a interferir com as atuais eleições, tal como em 2016... The Comey Rule mostra-nos como é imperativo não repetir a história.

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