Sofia Coppola regressa com uma espécie de 'Lost in translation'

O filme On the Rocks de Sofia Coppola, na Apple tv+, está a levar muita gente a subscrever este serviço de streaming. Depois de Tom Hanks, em Greyhound, outro título de peso para ver neste rival da Amazon Prime e da Netflix. Bill Murray no seu melhor...

Chegámos àquele momento em que uma nova reunião de Bill Murray com Sofia Coppola adquire contornos de celebração nostálgica. Em boa verdade, Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho tem 16 anos e há aqui realmente pontos de contacto afetivo entre ambas personagens do ator.

Em On the Rocks, filme com a chancela A24 comprado para servir como bandeira da nova pujança da Apple tv+, Murray é um pai extravagante que tenta descobrir se a filha está a ser enganada pelo seu marido. Às duas por três percebe-se que esta missão é sobretudo um pretexto para o chamado "tempo de qualidade" entre pai e filha. O que é mais bonito é que Sofia está a filmar uma ideia de "conto" de Nova Iorque (com paragem hilariante pelo México), tal como o pai Francis ergueu no seu segmento de Histórias de Nova Iorque, filme de pequenos contos feito a meias com Woody Allen e Martin Scorsese no ano de 1989.

Se aí era o pai a filmar o seu encanto pela filha numa cidade de luxos elegantes, aqui é a filha a cartografar o seu encanto pelo pai numa cidade de aventuras chiques a desdramatizar o tema do adultério. Uma comédia dramática feita com o habitual gesto de elegância e refinamento da cineasta, aqui de novo a suspender um princípio do naturalismo e a encenar um imaginário de conto de fadas de uma cidade onde é possível encontrar os melhores clubes privados, fugir das multas à polícia ou beber os melhores cocktails nos bares dos hotéis mais icónicos.

Uma Nova Iorque fábula que é a sua mas que também incorpora toda uma fantasia do lugar do pai e das projeções com o lugar da filha. Não é preciso ser um Sherlock Holmes para se perceber que a personagem da filha, interpretada com uma suavidade glaciar por Rachida Jones (filha precisamente de Quincy Jones) é uma espécie de versão da própria Sofia e que a personagem de Murray remete para o espelho do pai Francis Ford Coppola. O lado do conto está também na sinfonia ambulante entre o privado e o lúdico, sinfonia essa que descamba harmoniosamente para um agridoce convincente, em especial quando o olhar de Bill Murray sobra em dor e arrependimento - já há muito que o cinema americano não nos dava uma personagem com tantos defeitos e que se desmonta ao espetador em alguém tão adorável e próximo, quase em jeito de exercício da reconfiguração da ética e carácter de um homem branco misógino.

Se Bill Murray é um assombro de charme e nos deixa felizes e amargurados ao mesmo tempo, On The Rocks, movido pela música pop dos Phoenix tem também uma reverberação daquilo que Somewhere - Algures (Leão de Ouro, Veneza, 2010) já calcava: um espaço de perceção interdependente das emoções da paternidade. Mesmo que nem sempre esteja inspirado e traga vínculos narrativos já repetidos, consegue ser frequentemente um objeto à parte na paisagem do cinema americano atual.

E nunca podemos subestimar esta leveza de registo, uma leveza tão "cool" como casual", ainda que no final lhe falte uma estratégia de compreensão do tal remorso paternal. Não basta essa injeção de mediação estética com a envolvente do espontâneo. Aí, potencialmente apenas aí, a decoração da peripécia fica vazia. Tudo pode estar revestido de bom gosto, mas saímos da sessão a pensar que Lost in Translation é tão genial que tudo o resto que a cineasta venha a fazer será sempre uma tentativa de acumular variações menores...

*** Bom

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