"Slow and loud". Os Sigur Rós voltaram a Portugal e encantaram o Campo Pequeno

Banda islandesa voltou a Portugal seis anos depois da última passagem. Desta feita em Lisboa, no Campo Pequeno que, cheio, se rendeu às sonoridade melancólicas do grupo.

Precisamente um mês depois de atuarem pela última vez, os Sigur Rós aterraram em Lisboa para inaugurar a parte europeia da digressão mundial. E não podia ter começado melhor, com o Campo Pequeno cheio a receber a banda islandesa em solo luso pela primeira vez desde 2016 - então, atuaram no Primavera Sound, no Porto.

Minutos depois da hora marcada (21.00), e ainda com público a entrar no recinto, o trio (que ao vivo passa a quarteto) liderado por Jónsi subiu ao palco, recuando até ao disco (), de 2002, para abrir as hostes com Vaka, à qual se seguiram Fyrsta e Samskeyti. Mas foi com Svefn-G-Englar - que se diria ser o maior êxito dos islandeses, se é que tal existe - que os aplausos mais efusivos surgiram.

Até final da primeira parte do espetáculo houve ainda espaço para mostrar música retirada do próximo disco da banda (planeado para 2023), caso de Gold 2, e para se ouvir uma versão mais compacta de Rafmagnið búið, do EP Ný batterí, de 2000.

Sempre discreto mas munido de um falsete desconcertante e quase angelical, Jónsi ia alternando entre a guitarra (tocada a maior parte do tempo com um arco de violoncelo) e as teclas, enquanto os restantes músicos se dividiam entre o baixo, a bateria, as teclas e até mesmo trombone e trompete. Na reta final da primeira metade do espetáculo, houve espaço ainda para, num momento quase etéreo, o vocalista puxar pela sua voz continuamente durante longos períodos (em momentos, até, a roçar a roquidão propositada) e entrar em comunhão com o público.

Tal como no caso da compatriota Björk, podia dizer-se que as sonoridades dos Sigur Rós são tudo menos convencionais - e seria verdade - mas, a julgar pelos aplausos e apoio do público no Campo Pequeno, também se podia dizer que, se o concerto terminasse no final das primeiras 11 músicas antes da pausa de cerca de 15 minutos, não se sairia defraudado. Muito pelo contrário.

Segunda metade mais rápida e banda mais extrovertida

Já com uma configuração de palco diferente (também ela muito pouco convencional, com luzes em forma de lâmpada um pouco por todo o lado, uma espécie de cordas verticais e um ecrã gigante, ao fundo) o regresso fez-se com Glósóli, muito aplaudida logo nas primeiras notas. Seguiu-se E-Bow, um regresso a (), antes de se dar um saltinho ao muito aclamado Valtari (2012), com a melancólica Ekki Múkk. Mas foi com todos os membros a começarem juntos num dos cantos do palco (como já tinha acontecido na primeira parte do espetáculo, nomeadamente em Samskeyti) para Sæglópur que os aplausos mais pronunciados desde o intervalo surgiram. No entanto, devido à pouca acústica do Campo Pequeno, o som não era o melhor, com os sons mais distorcidos a abafarem os pequenos detalhes da canção.

Seguiu-se outra viagem no tempo com Gong, de 2005, mais mexida, eletrónica e com um som mais acessível, que casou na perfeição com a sucessora, Andvari, com as luzes do cenário a vermelho e rostos de crianças projetados no ecrã, antes de todos os membros da banda abandonarem o palco no final da canção, com a luz a iluminar o público, antes de regressar a território novo, com Gold 4, tocada praticamente à luz da vela. No final desta, momento de silêncio propositado, com o palco praticamente às escuras. Não sendo respeitado, ouviu-se de imediato um veemente "cala-te!" algures no meio da plateia - porque o silêncio é, também ele, parte integrante do som dos Sigur Rós.

Mas foi já perto do final, com Festival, que se viu um Jónsi mais extrovertido - e público a saltar e a bater palmas ao ritmo da música -, com a figura de proa dos Sigur Rós a dirigir-se várias vezes à beira do palco para puxar pela plateia. Saiu, tal como a sucessora Kveikur, prejudicada pela pouca acústica da sala, com as teclas a serem praticamente abafadas pelo resto dos instrumentos. Depois do som mais agressivo, pesado e agitado da faixa homónima do disco de 2013, a primeira e única interação de Jónsi com o público. Com um sotaque bastante carregado, dirigiu-se ao público lisboeta: "Obrigado por terem vindo esta noite. É sempre um prazer vir a Lisboa".

A acabar como a começar: com uma viagem até (), para fechar a noite com Popplagid depois do ataque de Kveikur, havendo até lugar ao Kjartan Sveinsson (maioritariamente teclista) ficar lado a lado com Jónsi, para fazer coros e tocar guitarra, antes de voltar a afastar-se para o (longo) crescendo final pautado pelo baixo de Georg Holm acompanhado pelas palmas do público, pelo falsete característico dos Sigur Rós e pela bateria de Ólafur Oláfsson, antes do ataque final, com baixo e guitarra a ficarem no chão e Jónsi a derrubar dois microfones, num momento a roçar o punk, antes de o quarteto abandonar o palco e voltar a entrar para a vénia final.

No fim de praticamente três horas de espetáculo, uma certeza: não há razão para os Sigur Rós estarem tanto tempo sem regressarem a Portugal, e a plateia desta quinta-feira no Campo Pequeno mostrou bem isso.

Se há frase que define aquilo que os islandeses são é aquela estampada nas t-shirts da digressão - "Slow and loud" ("Lento e barulhento"), e que assim continuem porque, a julgar pela receção desta noite, sempre bem-vindos.

Alinhamento
1.ª parte:
Untitled #1 - Vaka
Untitled #2 - Fyrsta
Untitled #3 - Samskeyti
Svefn-g-englar
Rafmagnið búið
Ný batterí
Gold 2
Fljótavík
Heysátan
Untitled #7 - Dauðalagið
Smáskifa

2.ª parte:
Glósóli
Untitled #6 - E-Bow
Ekki Múkk
Sæglópur

Gong
Andvari
Gold 4
Festival
Kveikur
Untitled #8 - Popplagið

rui.godinho@dn.pt

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