Shakespeare em paisagens japonesas de Kurosawa

Ran - Os Senhores da Guerra retrata os conflitos no Japão do século XVI. É um dos títulos mais célebres da filmografia de Akira Kurosawa e está de volta ao mercado cinematográfico: reposição em cópia restaurada em 4K.

A reposição de Ran - Os Senhores da Guerra (1985), de Akira Kurosawa, é um daqueles acontecimentos que envolve uma inevitável nostalgia. De facto, as reposições de filmes "antigos" não desapareceram por completo dos circuitos de exibição. O certo é que, não há muitas décadas, o retorno desses filmes às salas escuras era um acontecimento regular (em especial na chamada temporada de Verão), não a manifestação de uma matriz de programação que, entretanto, foi metodicamente secundarizada pelas "modernas" formas

Ao celebrar a singularidade desta reposição não posso deixar de acrescentar que Ran - Os Senhores da Guerra sempre me pareceu um objeto menor na filmografia de Kurosawa. Quando o descobri, no momento da sua estreia, encarei-o mesmo como um filme que, de alguma maneira, se "colava" a uma certa lógica de super-produção que, com resultados muito variados, ia marcando a atualidade do grande espectáculo.

Com o passar dos anos, reconheço que passei um pouco ao lado da proposta narrativa de Kurosawa, apostando em recuperar alguns elementos dramáticos de O Rei Lear, de William Shakespeare, para revisitar os conflitos do Japão do século XVI. Seja como for, há na sua encenação uma dimensão "decorativa" cujo impacto visual (lembremos o célebre jogo de cores, vermelho e amarelo, dos exércitos em confronto) não me parece estar ao nível da densidade trágica de clássicos que assinou em décadas anteriores como Às Portas do Inferno (1950), Os Sete Samurais (1954) ou mesmo o quase sempre esquecido Yojimbo, o Invencível (1960).

Tais dúvidas não diminuem, de modo algum, a importância do evento. O regresso de Ran - Os Senhores da Guerra, para mais em cópia restaurada em 4K, volta a sublinhar as imensas potencialidades de uma relação do mercado com as memórias cinéfilas.

Infelizmente, tal relação tem vindo a ser enfraquecida e secundarizada por opções de difusão e marketing ligadas, sobretudo, à produção dos EUA (por vezes com filmes admiráveis, é verdade...). São opções comandadas por uma estratégia "acelerada" de distribuição/exibição em que aquilo que mais conta é a procura do novo "blockbuster" que, em poucas semanas, será substituído pelo "blockbuster" que se segue...

O que, enfim, nos confronta com uma ironia cruel: à sua maneira, Ran - Os Senhores da Guerra foi um "blockbuster" dos anos 80, convocando os espectadores para uma experiência apostada em celebrar o cinema como um acontecimento realmente maior que a vida.

* * * Bom

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