Será o Guernica que conhecemos o quadro que Picasso pintou?

O DN faz hoje a pré-publicação do primeiro capítulo de Sabotagem, o fim da trilogia do anti-herói Falcó durante a Guerra Civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte investiga a criação de Guernica, uma das pinturas mais famosas de Picasso.

Nos últimos dois anos, Arturo Pérez-Reverte, um dos escritores espanhóis de maior sucesso, esteve por duas vezes em Lisboa. Não foi por acaso, é que Pérez-Reverte situa uma boa parte do segundo volume da trilogia Falcó na capital portuguesa.

Em 2017, Pérez-Reverte lamentava com alguma tristeza a Lisboa que conhecia e que estava a desaparecer com a invasão de turistas. Como disse, era uma situação que descobrira ao passear nos dias anteriores pelo Miradouro de Santa Luzia, pelos bairros populares, pela Calçada da Figueirinha". Não fora por acaso que dava como exemplo estes locais, é que o autor percorrera esse itinerário para situar o início de Eva, o livro dois da série Falcó.

Pérez-Reverte tirou então fotografias, fez anotações e sublinhou mapas. Como disse ao DN, "mais do que escrever um romance, dá-me prazer imaginá-lo e documentá-lo. Como estar aqui neste hotel a olhar para a rua como fazem as duas personagens logo nas primeiras páginas."

O escritor espanhol demonstrou ainda muito interesse na história de Portugal na conversa: "Quero fazer mais coisas com Portugal, pois há muitos acontecimentos que dariam bons livros: o atentado contra Salazar e a espionagem durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Até acho estranho que não haja uma boa literatura policial portuguesa porque não falta matéria-prima."

A série Falcó não é o habitual romance histórico, diz: "É um romance policial negro de espiões situado nos anos 1930-40 e com uma abordagem nova. Não se pode voltar a escrever o Grande Gatsby e Falcó é uma ideia original que, boa ou má, nunca foi tentada."

Esta terça-feira chega às livrarias portuguesa o terceiro volume da trilogia de espionagem protagonizada pelo anti-herói Falcó. Após Falcó e Eva é a vez de Sabotagem. Qual o enredo que continua a evocar a guerra civil espanhola?

O resumo divulgado ao DN revela o livro deste modo: "Na primavera de 1937, Lorenzo Falcó é conduzido a Paris para tentar evitar que o quadro que Picasso está a pintar seja exibido na Exposição Universal de Paris. Acostumado ao perigo e à ação, Falcó move-se agora num mundo em que a luta é ideológica. É um mundo que lhe é estranho e no qual terá de recorrer aos seus métodos muito próprios."

A grande questão que Arturo Pérez-Reverte pretende descodificar neste novo romance é se o quadro de Pablo Picasso, Guernica, é o verdadeiro quadro que o pintor fez?

Pré-publicação de Sabotagem

Capítulo I AS NOITES DE BIARRITZ


Sob a pérgula da esplanada viam‑se cinco manchas brancas e um ponto vermelho. As manchas correspondiam ao peito e ao colarinho de uma camisa, a dois punhos engomados e a um lenço que espreitava no bolso superior de um casaco de smoking. O ponto vermelho era a brasa de um cigarro nos lábios do homem que se mantinha imóvel na escuridão.

Do interior chegava um som apagado de vozes e de música. Havia uma lua já gasta, decrescente, que esmerilava o mar negro e prateado em frente à praia, por entre as cintilações do farol situado à direita e a parte alta da cidade velha, debilmente iluminada, à esquerda.

Estava uma noite serena e cálida, com pouca brisa. Quase em meados de maio.

Lorenzo Falcó apressou o cigarro antes de o deixar cair e de o esmagar sob a sola do sapato. Dirigiu mais um olhar ao mar e à praia em sombras e olhou para a zona em que esta era mais escura, onde naquele momento alguém acendia e apagava três vezes uma lanterna. Depois de confirmar o sinal, regressou ao interior atraves‑ sando o salão deserto, decorado a crómio e laca carmim, onde entre apliques art déco os grandes espelhos refletiam a passagem da sua figura magra, elegante e tranquila.

Havia ambiente na sala de jogo, e Falcó deu uma vista de olhos por aqueles que se agrupavam em volta das dezoito mesas. Nos últimos tempos, a clientela do casino municipal tinha mudado. Dos anos agitados de carros rápidos e frenesim de jazz, da gente importante de Espanha, dos milionários anglo‑saxónicos, cocottes de luxo e aristocratas no exílio, Biarritz não retinha grande coisa. Em França, era a Frente Popular que governava, os operários tinham férias pagas, e aqueles que mordiscavam um charuto ou esticavam o pescoço rodeado de pérolas, suspensos do chemin de fer ou do trente et quarante, eram classe média acomodada que lidava com restos de outra época. Já ninguém falava da temporada em Longchamp, do inverno em Saint‑Moritz ou da última loucura de Schiaparelli, mas sim da guerra de Espanha, das ameaças de Hitler à Checoslováquia, dos padrões para confeção caseira da Marie Claire ou da subida do preço da carne.

Falcó localizou facilmente o homem que procurava, pois este não se tinha mexido da mesa de bacará: corpulento, com abundante cabelo grisalho, vestia um smoking de muito bom corte. Continuava junto da mesma mulher - a sua esposa -, e inclinava‑se para ela a fim de conversar em voz baixa enquanto brincava com as fichas empilhadas no tapete verde. Parecia mais perder do que ganhar, mas Falcó sabia que aquele indivíduo podia permitir‑se isso. Na reali‑ dade, podia permitir‑se quase tudo, pois chamava‑se Tasio Sologas‑ túa e era um dos homens mais ricos de Neguri, o bairro seleto e endinheirado de Bilbau, coração da alta burguesia basca.

Desviou o olhar para a mesa contígua. Dali, de pé entre os curiosos, Malena Eizaguirre vigiava o casal de longe. O olhar de Falcó encontrou‑se com o dela, ele fez o gesto discreto de tocar no relógio do pulso esquerdo e ela assentiu levemente. Com ar casual, Falcó foi situar‑se ao seu lado. Cabelo curto ondulado à moda, olhos negros e grandes, Malena era atraente sem excessos: um pouco rechonchuda, trinta anos e feições corretas, embora o seu vestido de noite, um Madame Grès de chiffon branco drapeado, lhe desse um agradável ar clássico de reminiscências gregas.

- Não se mexeram dali - disse ela.

- Estou a ver... A mulher perdeu muito?

- O habitual. Fichas de quinze mil francos, umas atrás das outras.

Falcão fez uma expressão divertida. Edurne Lambarri de Solo‑ gastúa gostava muito do bacará, assim como de joias, de casacos de vison e de tudo quanto exigisse gastar dinheiro. Tal como as suas duas filhas que àquela hora deviam estar a dançar no Miramar, como era seu costume: Izaskun e Arancha, duas lindas e frívolas pimpolhas bascas. Olhou novamente para o relógio. Eram 11h20.

- Não penso que demorem muito a ir‑se embora - concluiu.

- Está tudo pronto?

- Telefonei há bocado e acabo de ver o sinal - dirigiu um lento olhar em volta. - Viste os guarda‑costas?

Malena indicou com o queixo um fulano moreno, forte, com testa estreita e nariz de pugilista, enfiado num smoking demasiado apertado na cintura. Mantinha‑se um pouco afastado da mesa de bacará, com as costas apoiadas numa coluna e olhava para Sologas‑ túa com fidelidade de mastim.

- Só aquele. O outro deve estar lá fora, com o motorista.

- Dois carros, como sempre?

- Sim. - Melhor. Quantos mais formos, mais nos rimos.

Viu‑a sorrir levemente, controlando bem os nervos.

- És sempre assim tão gozão? Levas tudo na brincadeira?

- Nem sempre.

Malena acentuou o sorriso. Tenso, mas decidido. A morte do seu pai e do seu irmão, assassinados pelos vermelhos na matança de 25 de setembro a bordo do barco‑prisão Cabo Quilates, atracado na ria de Bilbau, tinha algo que ver com aquela firmeza. Proveniente de uma família bem colocada e de tradição carlista, durante a sublevação militar tinha trabalhado com muita coragem para o lado rebelde, levando mensagens ocultas do general Mola entre Pamplona e San Sebastián. Depois do que acontecera ao pai e ao irmão, tinha pedido para passar à ação direta. Agora ela e Falcó trabalhavam juntos há algum tempo, a montar a operação. Era uma boa rapariga, pensou ele. Mulher de confiança, séria e corajosa.

- Estão a levantar‑se - disse ela.

Falcó olhou para a mesa. Tasio Sologastúa e a sua mulher tinham‑se posto de pé, dirigindo‑se à caixa para trocarem as fichas. Chegava o momento em que o casal, depois do jantar habitual no Le Petit Vatel e um bocado no casino, costumava regressar à sua villa de Garakoitz. Desencostando‑se da coluna, descontraído, o guarda‑costas foi atrás deles. Falcó roçou com dois dedos, com suavidade, na mão de Malena.

- Vamos à nossa vida - disse ele. Ela deu‑lhe o braço e caminharam com naturalidade em dire‑ ção ao bengaleiro.

- São pontuais que nem um relógio - comentou Malena, pondo um xaile de lã grená por cima dos ombros nus. - Todas as noites à mesma hora.

Parecia satisfeita por tudo se desenrolar com a exatidão pre‑ vista. Quando Falcó regressara a Biarritz, depois de um breve parêntesis clandestino na Catalunha - uma missão de urgência ordenada pelo Almirante -, ela estava há um mês a vigiar os Solo‑ gastúa. O casal tinha passado a fronteira com as filhas no ano anterior, quando as tropas nacionalistas estavam prestes a tomar a passagem fronteiriça de Irún. Tasio Sologastúa, membro destacado do PNV - partido nacionalista basco, católico conservador, ainda que aliado, por razões de oportunidade, com a República -, era um dos principais apoios no exterior do governo autónomo de Eus‑ kadi. Daquele exílio dourado, onde um triste menu custava três vezes mais do que um com champanhe em qualquer bom restau‑ rante da Espanha franquista, a sua influência fazia‑se sentir nos círculos nacionalistas do sudoeste francês; e as suas contas bancá‑ rias situadas na Grã‑Bretanha e na Suíça financiavam importantes remessas de armas com destino a portos bascos. Segundo informações confirmadas por Falcó, graças aos seus velhos contactos de contrabandista - o passado nunca se apagava de todo -, Sologastúa tinha equipado os gudaris euscaldunos com 8 canhões, 17 mortei‑ ros, 22 metralhadoras, 5800 espingardas e meio milhão de cartuchos, além de fretar dois pesqueiros armados para a marinha auxiliar basca. O que não era, precisamente, colecionar soldadinhos de chumbo. Em todo o caso, era motivo de sobra para que os serviços de informação franquistas tivessem muito interesse em sequestrá‑lo ou matá‑lo. Era essa a ordem de prioridades da missão encomendada a Lorenzo Falcó.

Pararam debaixo das luzes do grande alpendre da entrada enquanto o ajudante do porteiro lhes trazia o carro. Viram dali como um dos automóveis de Sologastúa, um elegante Lincoln Zephyr, se aproximava do parque de estacionamento ao mesmo tempo que o outro, um Ford de aparência mais modesta, esperava no terreiro com os faróis acesos e o motor a trabalhar. O casal instalou‑se no banco de trás do primeiro, e o guarda‑costas vestido de smoking, depois de os ajudar a fechar as portas com o motorista, encaminhou‑se para o Ford. Arrancaram um a seguir ao outro, fazendo ranger a gravilha debaixo dos pneus, com o Lincoln a abrir caminho, no momento em que o empregado parava o Peugeot 301 de Falcó e Malena: um sedan espaçoso e potente, especialmente escolhido para a operação. Com toda a naturalidade, Malena pôs‑se ao volante enquanto Falcó dava gorjetas ao rapaz e ao porteiro, ocupava o lugar ao lado do condutor e fechava a porta.

- Preparada para a ação? - perguntou.

Ela tinha uma mão no volante e já metia a primeira velocidade. Com a claridade exterior do alpendre, Falcó observou que ela tinha tirado os sapatos e puxado o vestido comprido até às coxas, para conduzir mais comodamente.

- Absolutamente preparada - respondeu ela. Falcó olhou mais uns momentos para as pernas dela antes de concordar, divertido.

- Então vamos à caça.

Arrancaram, e ainda teve tempo de ver Malena a sorrir, tensa, antes de as luzes do casino ficarem para trás. Seguiam de longe a luz de presença do Ford, que escoltava o Lincoln iluminando‑o nas esquinas com o brilho dos faróis. Subiram assim pelas ruas desertas e pouco iluminadas até à Atalaya e à praça Clemenceau, e desceram depois para a estrada da costa em direção a Saint‑Jean‑de‑Luz.

- Perfeito - comentou Falcó. - Como todas as noites.

- Sim. - O perfil de Malena definia‑se na sombra quando os faróis do Peugeot incidiam nalguma parede próxima. - Nós, os bas‑ cos, não somos amigos de alterar rotinas.

- Pois, mas as rotinas matam.

- Sim. - Ela riu‑se em voz baixa. - É o que parece.

A sua voz, verificou Falcó, parecia serena. Conduzia com segurança e perícia, mantinha a distância suficiente para não perder a presa de vista e procurava não se aproximar demasiado para não a pôr de sobreaviso. Tinham deixado para trás a povoação e cor‑ riam pela estrada reta ladeada de pinheiros, com o mar iluminado pela lua à direita. - Estamos a dois quilómetros - anunciou Malena. Falcó abriu o porta‑luvas e tirou de lá um embrulho pesado. Ao abri‑lo tocou no metal frio da Browning FN de 9 mm e no tubo alongado do silenciador Heissefeldt. Às apalpadelas, em cima dos joelhos, extraiu o carregador da pistola, verificou que estava cheio, voltou a introduzi‑lo com um estalido e meteu uma bala na câmara, deixando‑a travada. Depois enroscou o silenciador na boca do cano.

- Ali está o desvio à direita, e depois a ponte de Garakoitz - disse a mulher.

Desta vez, sim, havia tensão na sua voz. Levantara o pé do acelerador e agora o Peugeot ia mais devagar. À frente, a uns cem metros, as luzes dos outros dois automóveis tinham parado.

- Controlo da polícia - comentou Falcó, com a arma no colo. - Reduz devagar.

Aproximaram‑se lentamente dos carros até se colocarem atrás. As luzes do primeiro iluminavam uma barreira móvel, posta sobre uns cavaletes diante de uma ponte de pedra, com a palavra Gendarmerie num círculo branco, azul e vermelho. Havia dois agentes fardados de escuro junto do Lincoln, um alto e outro baixo, um de cada lado do carro. O mais baixo inclinava‑se para a janela do con‑ dutor. Sobre o brilho dos faróis, as silhuetas dos guarda‑costas recortavam‑se nos bancos da frente do Ford estacionado atrás.

- Não desligues o motor - disse Falcó.

Abriu a porta. Depois saiu empunhando a pistola, mas com o braço caído ao longo do corpo, para a disfarçar. Respirou fundo três vezes enquanto a destravava com o polegar. Atravessou sem pressa entre os dois carros para a outra berma da estrada, diri‑ gindo‑se para o lado do condutor do Ford, atento a ele e ao seu companheiro, mas vigiando pelo canto do olho os dois gendarmes. Quando chegou junto da janela, bateu suavemente com os nós dos dedos da mão esquerda. Sorria com a naturalidade de quem vai perguntar alguma coisa. O condutor baixou o vidro e então Falcó disparou‑lhe na cara.

A Browning não era uma arma de muito recuo, mas saltou‑lhe na mão como uma serpente que acabasse de morder. Por isso teve de a baixar outra vez para apontar ao segundo guarda‑costas, o do nariz achatado, que se remexia desesperado - o companheiro tinha caído em cima do seu ombro -, à procura de qualquer coisa, certa‑ mente uma arma, debaixo do casaco de smoking.

- Não!... - ouviu‑o suplicar. - Não!

Na luminosidade dos faróis, ainda teve tempo de ver os olhos dele muito abertos, olhando espantados para o cilindro metálico do silenciador antes de a pistola saltar de novo na mão de Falcó, abrindo uma laceração do tamanho de uma moeda no colarinho da camisa do outro. Este ainda se remexeu, a tentar abrir a porta. Acabava de o conseguir quando Falcó premiu outra vez o gatilho, e o guarda‑costas ficou pendurado do banco com meio corpo de fora.

Quando olhou para o Lincoln, a situação tinha mudado um pouco. A porta dianteira esquerda estava aberta e o mais baixo dos gendarmes arrastava o corpo do motorista para fora do carro. O outro, com uma lanterna e uma pistola na mão, apontava para o banco de trás, onde Tasio Sologastúa e a sua mulher, abraçados, olhavam com horror para a cena. Falcó foi até lá, abriu uma das portas de trás e apoiou a boca do silenciador na cabeça do marido.

- Saia do carro... Só você. Ela fica.

A lanterna do gendarme alto iluminava tudo muito bem: o rosto crispado do executivo basco, a expressão aterrorizada da sua mulher. De repente, esta pôs‑se a gritar. Um gritinho agudo, poderoso. Vibrante. Sem deixar de apontar para o marido, inclinando‑se sobre este, Falcó deu‑lhe um murro com a mão esquerda, na têmpora, que a atirou sem sentidos contra a janela oposta.

- Saia - repetiu ele a Sologastúa, com calma. - Ou também a matamos a ela.

O executivo obedeceu. Quando Falcó o apoiou contra o carro para lhe revistar os bolsos, a fim de verificar se ele levava alguma arma, sentiu‑o tremer. Naquele momento, o automóvel conduzido por Malena fazia a manobra de se situar no sentido oposto. À luz dos faróis do Peugeot, Falcó viu por instantes o cadáver do motorista, que se esvaía em sangue no passeio, degolado de orelha a orelha.

- O que é que está a acontecer? - conseguiu Sologastúa perguntar por fim.

- O senhor é prisioneiro dos nacionalistas.

O outro demorou uns momentos a digerir aquilo. Quando conseguiu, a sua indignação quase superou o medo.

- Isto é um atropelo - disse ele.

- Estamos em França.

- Em Iparralde, sim - admitiu Falcó.

- Euzkadi norte.

- O que é que querem de mim?

- Que faça uma pequena viagem.

- Aonde?

- Ah... Surpresa.

Agarrou‑o pela gola do casaco e, sem afastar a arma da sua cabeça, empurrou‑o para o Peugeot. Atrás dele, ao volante dos outros automóveis, os gendarmes retiravam‑nos da estrada, metendo‑os no meio dos pinheiros.

- E a minha esposa? - perguntou Sologastúa.

- Não se preocupe com ela. Ninguém lhe fará mal. Aturdido, o outro deixava‑se levar. Mas ao ver o porta‑bagagens do Peugeot - Malena acabava de o abrir - parou bruscamente.

- Filhos da puta - disse ele.

Falcó obrigou‑o a avançar com um empurrão violento. Malena tinha tirado um rolo de fita adesiva larga. Com ela ataram as mãos de Sologastúa atrás das costas e imobilizaram‑lhe as pernas. Este a princípio debatia‑se, de modo que Falcó lhe bateu no plexo solar, sem raiva, fazendo‑o cair de joelhos.

- Se é uma questão de dinheiro, posso... - começou a dizer o executivo quando recuperou o fôlego.

Malena interrompeu‑lhe a frase com duas voltas de fita ade‑ siva que lhe taparam a boca. Falcó e ela pegaram nele e mete‑ ram‑no no porta‑bagagens. Malena foi então ao banco da frente e regressou com um frasco de clorofórmio e um bocado grande de algodão, que encharcou enquanto continha a respiração, com a cara virada para o lado, e aplicou‑o no nariz do prisioneiro. Meio minuto depois, Sologastúa deixou de se mexer. Quando Falcó ocultou o corpo com mantas, uma mala pequena e um cesto de piquenique, e fechou o porta‑bagagens, Malena já estava novamente ao volante. Então Falcó virou‑se para os gendarmes, que tinham retirado os cadáveres da valeta e ocultado a barreira de controlo.

- Como é que está a dona Ricaça? - perguntou em espanhol.

Na penumbra, à luz de uma lua reduzida, Falcó viu que os gendarmes se despojavam das roupas de uniforme, atirando‑as para o meio dos arbustos.

- Continua inconsciente - disse o mais baixo.

Falcó assentiu, satisfeito.

- Quando ela acordar, se não souber conduzir, espera‑a um bom passeio.

Ouviu‑se o riso do outro.

- Terá de andar de qualquer forma, porque inutilizámos o motor e furámos os pneus dos carros... Achas bem?

- Colossal.

- Quando ela chegar a casa ou a um telefone, vocês já estarão em Irún. Falcó tirou a cigarreira e o Parker Beacon de prata e acendeu um cigarro.

- Foi um bom trabalho - comentou ele, exalando o fumo.

O outro pareceu estar de acordo.

- Essa tua rapariga portou‑se bem - disse ele.

- Sim.

- Até mesmo muito bem.

Com a ajuda do isqueiro, Falcó viu as horas no relógio de pulso. Fazia‑se tarde.

- Temos de ir andando - comentou ele.

- Precisam de alguma coisa?

- Não. Está tudo em ordem.

- Então boa viagem.

- Eu digo o mesmo, meu encanto.

Antes de apagar a chama e de se encaminhar para o Peugeot, Falcó teve tempo de ver os olhos de batráquio e o sorriso cruel de Paquito Araña.

Até à fronteira eram doze quilómetros. Depois de Saint‑ ‑Jean‑de‑Luz, a estrada seguia sinuosa entre pinhais e escarpas, sob as quais o mar escuro e prateado brilhava como azeviche. Falcó e Malena Eizaguirre não tinham falado desde a ponte. Ele acendeu um Players e colocou‑o na boca da mulher. Depois tirou outro para si.

- Queres que eu conduza um bocado?

- Não. Estou bem.

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