Ser mulher na Arábia Saudita 

Um filme que tira a fotografia a uma das sociedades mais misóginas. A Candidata Perfeita, de Haifaa Al-Mansour, serve para recordar que as mulheres sauditas não estão de braços cruzados face à estrutura patriarcal.

Desde a primeira longa-metragem, O Sonho de Wadjda (2012) - que é mesmo o primeiro filme escrito e realizado por uma mulher saudita - Haifaa Al-Mansour tem dedicado o seu cinema à representação do feminino. Depois dessa história de uma menina de 10 anos que se inscreve num concurso de récita do Alcorão para poder comprar uma bicicleta, contou a saga íntima da jovem autora de Frankenstein, em Mary Shelley (2017), com Elle Fanning. Agora, de regresso à Arábia Saudita, debruça-se sobre o caso de uma médica que se torna a primeira mulher candidata às eleições municipais da sua cidade, à partida, apenas com o objetivo de pavimentar um caminho de terra que está a dificultar o acesso à clínica onde trabalha. Mas o que começa por ser um ato de exasperação em resposta à burocracia de uma sociedade misógina, acaba por se transformar num projeto feminista mais sério e com significado - independentemente de uma vitória concreta.

A Candidata Perfeita é um filme que se fica pela força do seu tema e uma mirada nas tradições. No fundo, um retrato que nos faz chegar uma realidade distante. E embora se valorize uma certa despretensão da abordagem, desde logo, manifesta no desempenho dos atores, não deixa de ser frustrante que a realizadora não tenha procurado na linguagem cinematográfica o rasgo e o sentido de observação que poderiam elevar o propósito ilustrativo. Ou seja, acrescentar o molde de uma visão para além do óbvio.

Através da protagonista, Maryam, acompanhamos os sinais de uma vivência sufocante. Se é verdade que ela conduz o seu próprio carro até à clínica (algo que só é possível desde 2018), uma vez lá, recebe insultos de um velho paciente que não quer ser tratado por uma mulher, mesmo que seja uma médica talentosa, preferindo que o ponham nas mãos de um enfermeiro qualquer. É apenas uma de várias situações, que se torna ainda mais ridícula quando um colega pede a Maryam que não perturbe o paciente... Outra: quando ela tenta apanhar o avião para ir ao Dubai, a uma conferência de medicina, com a intenção de se candidatar a um cargo melhor, a falta da assinatura do seu pai (que é músico e está fora em concertos) num documento de autorização para viajar deixa-a humilhada e sem hipóteses no momento. Mas, num golpe do acaso, ao deparar-se com os formulários para as eleições municipais, e levada pelo pragmatismo, acaba por concorrer. Temos então uma candidata acidental que usa da serenidade e, quando necessário, de uma expressão de indignação, para refrescar as perspetivas à sua volta. Como quem agita um bocadinho as águas contra o cinismo patriarcal.

Há em tudo isto um inequívoco desejo de trazer para a linha da frente a importante narrativa feminina de um país que se fecha aos olhares exteriores. E essa audácia merece o nosso elogio, mesmo que Haifaa Al-Mansour se tenha ficado pelos mínimos da espessura dramática, tratando-se de um "drama político". A Candidata Perfeita não aquece nem arrefece, apenas dá uma noção de como as coisas se passam. Um exemplo interessante, mas menor, do cinema feito por mulheres que tem chegado às nossas salas nas últimas semanas.

dnot@dn.pt

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