Sara Barros Leitão não consegue ser só atriz

Começou nos Morangos com Açúcar, agora traz ao Teatro Nacional D. Maria II o espetáculo que ela escreveu, encenou e interpreta: Teoria das Três Idades. E não vai ficar por aqui...

Quando era miúda, no Porto, Sara Barros Leitão não pensava em ser atriz: "Não pensava sequer nisso como uma profissão, não conhecia nenhum ator, n​​​​​​ão sabia como se chegava lá." Mas a representação surgiu-lhe naturalmente, nas brincadeiras em casa e depois em grupos de teatro na escola e na Junta de Freguesia. Aos 14 anos, quando foi para o 10º ano de escolaridade, optou por uma escola profissional de teatro, a Academia Contemporânea de Espetáculo. "Nunca me tinha sentido tão feliz. Percebi logo: eu quero fazer isto", conta Sara, de 28 anos. "Decidi: vou ser o melhor que eu puder. E ainda hoje é isso que tento fazer."

"Sempre fui muito medíocre na escola mas, de repente, a minha vida mudou completamente. O teatro era como respirar. Não tinha tempo para mais nada. Quando dei por mim a minha vida era toda organizada em volta do teatro", recorda. Os horários dos ensaios, os livros que lia, o tempo que perdia à procura dos sapatos para a personagem, o candeeiro que encontrava em casa da avó e que era mesmo aquilo que precisava para o cenário. "Estava sempre a pensar naquilo." Talvez por isso o seu sonho nunca tivesse sido realmente ser atriz mas, antes, fazer teatro. "No teatro amador as funções não são rígidas, toda a gente faz tudo", conta. Além disso, como acabou por perceber, não tinha feitio "para ser marioneta". "Sempre tive as minhas ideias. Mesmo como atriz trabalho muito do lado da criação do espetáculo".

Pouco depois, a direção da escola propôs-lhe uma aventura: ir a Lisboa fazer um workshop de interpretação para televisão. Tinha apenas 16 anos quando se mudou, sozinha, para Lisboa. Deveriam ter sido só alguns meses mas acabou por ficar três anos. "Tive logo um convite para participar numa série de televisão e depois outro e outro." Aprendeu imenso. Não só com o trabalho mas com toda a experiência. "Com o primeiro ordenado comprei um dicionário de língua portuguesa, porque nunca tinha tido nenhum, e um leitor de DVD para poder ver todos os filmes que nunca tinha visto", lembra. "Foram três anos em que me formei como indivíduo, fui ver muitos espetáculos e exposições." Ao mesmo tempo que gravava Morangos com Açúcar e novelas como Olhos nos Olhos.

Voltou ao Porto para terminar o 12º ano, como prometido. Mas, desde então, a sua vida é uma constante viagem de comboio entre o Porto e Lisboa. Imparável e sempre com o desejo de aprender mais. "Sou muito económica com o meu tempo", explica. Enquanto gravava telenovelas aproveitava todos os tempos livres para ler - foi assim que leu A Montanha Mágica, de Thomas Mann, toda a obra de Dostoievski, as tragédias gregas e outras obras que tinha de ler para o curso de Estudos Clássicos que começou a frequentar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. "Não consegui acabar o curso mas ainda vou acabá-lo", diz, determinada. Para ela, os livros são portas para o mundo, para os muitos mundos.

"Tudo o que fiz foi muito consciente e muito procurado. Nunca esperei que nada viesse ter comigo", afirma. Fez muitas novelas até 2018, participou em séries (ainda há pouco a vimos como uma atriz, Isabel de Castro, em 3 Mulheres), algum cinema e, cada vez mais, interessa-lhe o teatro. Tem trabalhado com o Teatro do Bolhão, o Meridional, o Teatro do Vestido, o Teatro Experimental do Porto (TEP), o Teatro Nacional de São João. E continua a fazer cursos de formação e a sonhar com tudo o que pode ainda aprender: figurinos, iluminação, produção, escrita, encenação, interpretação. "Quero saber fazer tudo no teatro para poder dominar todo o trabalho, sem estar limitada."

Este espetáculo, Teoria das Três Idades, que se estreou no ano passado no Porto e que agora traz ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, já é um primeiro passo. Foi ela que fez toda a pesquisa, que o escreveu e encenou, que interpreta, sozinha em palco. "Este espetáculo foi feito com grande sofrimento, quase visceral. Mas ao mesmo tempo esse sofrimento alimentou a criação", conta.

Sofrimento porque, por um lado, a criação coincidiu com o momento em que o TEP soube que tinha ficado excluído dos apoios das DG-Artes e não se sabia se o espetáculo iria sequer estrear, e, por outro lado, porque todo o processo de criar sozinha é muito intenso. "Sinto-me muitas vezes sozinha e aterrorizada porque não tenho com quem contracenar mas ao mesmo tempo tenho uma grande liberdade, o espetáculo é tudo meu. É uma luta constante comigo própria." Apesar do desafio superado, Sara acha que tão cedo não irá fazer outro monólogo.

Tudo começou com o encontro com Joaquim Portugal, um senhor de mais de 80 anos que é o arquivista do TEP: "É um arquivista amador e voluntário e vai lá duas tardes por semana porque tem uma paixão enorme por aquilo", conta Sara Barros Leitão. Foi ele que a guiou, ao longo de um ano, num "mergulho" às profundezas do arquivo do TEP, uma companhia com 65 anos de história e muitas histórias para contar: "Havia uma grande expectativa ao início, estavam todos à espera que eu fosse falar do António Pedro, da Dalila Rocha, aquelas grandes figuras todas... e no entanto quando comecei a trabalhar no arquivo aquilo que me fascinou foi o pormenor insignificante, foi a carta do sócio anónimo, o ensaio falhado, o aspirante a ator que pede um papel, o soldado que está em Angola e pede à companhia que vá lá." O trabalho sobre a memória e sobre o arquivo é algo que a fascina. "Fui percebendo que a história do TEP sempre foi de resistência. De muitas lutas", diz a atriz. Por isso, este espetáculo é também uma viagem pela história de Portugal.

Há três anos que Sara Barros Leitão se estabeleceu no Porto, embora esteja sempre com os olhos no mundo. Para a semana vai começar a ensaiar o espetáculo O Resto Já Devem Conhecer no Cinema, de Martin Crimp, com encenação de Nuno Carinhas (estreia a 27 de março no Teatro Nacional de São João, no Porto); depois vai dirigir um Rei Lear, com música original de Alexandre Delgado, para os Dias da Música (27 e 28 de abril, Centro Cultural de Belém, em Lisboa); e terminará o ano cocriando um espetáculo com a companhia Visões Úteis, a partir do espólio de Mário Moutinho. Ou seja, vai voltar a mergulhar num arquivo.

Teoria das Três Idades
de Sara Barros Leitão
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
23-27 de janeiro
sexta às 21:30, sábado às 19:30 e domingo às 16:30

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