Retrato de um sórdido serial killer

Na plataforma Filmin já amanhã, O Bar Luva Dourada, obra que tinha estreado no começo do
flagelo da epidemia Coronavírus. Viagem aos horrores de um assassino de série que aterrorizou a
Alemanha.

No cinema do turco-germânico Fatih Akin há que ter cuidado: na escolha do humor, há um ato político. Já era assim nos seus melhores filmes, em especial Head-On- A Esposa Turca (2004) e Soul Kitchen (2009), mas talvez seja mais neste seu novo O Bar Luva Dourada (2019), presente o ano passado no Festival de Berlim a competir para o Urso de Ouro. Akin chamou-lhe de "o meu filme nojento" e houve quem se tenha exaltado com os níveis gráficos da violência, mas talvez seja preciso contextualizar: esta história verídica sobre a natureza íntima de um assassino em série da Hamburgo dos anos 1970 é pretexto para filmar uma Alemanha marginal, o "bas-fond" de um país que tem vergonha do seu passado sujo e onde as prostitutas velhotas têm o baton borrado e um olhar tristíssimo. Pensa-se em Fassbinder, pensa-se numa encenação de decadência com respiração de palco, mas Akin não quer mesmo apenas documentar ou descrever. Por isso, aposta tudo numa coreografia do grotesco que convoca um humor truculento.

Este "serial killer" que exala mau cheiro, um feio, porco e mau em tom de excesso, é coisa de criação cinematográfica, não é composição do "real", apesar de ser fiel às façanhas macabras que o verdadeiro Fritz Honka concretizou. Honka, habitué do bar Luva Dourada , era um alcoólico que executou e
desmembrou prostitutas envelhecidas no infame bairro St. Pauli no começo dos 70. No centro de tudo, está precisamente esse bar, o Luva Dourada, antro imundo onde Honka conhecia as suas vítimas e onde Akin retira o som das velhas melodias alemãs alimentadas a álcool numa noite podre e atroz. Não há
sombra de poema ou de humanização do monstro, apenas um vislumbre de um país adormecido numa saudade dos falhados. Gente que não suspeitava que aquele bêbado a cair para o chão matava sem dó...


O Bar Luva Dourada é então isso que promete: pesadelo abissal com um sorriso diabólico. Obviamente que choca na sua violência, mas choca mais no seu despojamento: está do lado da loucura. Cineasta que aponta a câmara sempre com uma ferocidade indomável, Fatih Akin filma com convicção um ato de
impotência de um homem e de uma sociedade. Os detratores são capazes de apontar o dedo a todo esse fascínio, mas o realizador nunca recua no jogo gráfico das mortes. Nesse quadro, nunca tinha ido tão longe. Mas nessa masterclasse de truculência e de exposição do grotesco tem sempre uma
sustentabilidade que não deixa de ser íntima. O espetador terá de saber ao que vem: uma experiência de horror arriscada. Um filme difícil e quase no limite. Indecente? Só se considerarmos indecente toda esta tristeza carrancuda que é o interior do bar em questão. O brinde chega como se fosse uma pintura
borrada...
*** Bom

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