Recuperando materiais de arquivo sobre o gueto de Varsóvia

Quem Escreverá a Nossa História evoca o trabalho de Emanuel Ringelblum no sentido de preservar as memórias da agressão nazi contra os judeus de Varsóvia - o seu principal valor está nos impressionantes materiais de arquivo que revela.

Desde o clássico Noite e Nevoeiro (1956), de Alain Resnais, até títulos recentes como A Noite Cairá (2014), de André Singer, passando pelos filmes fundamentais de Claude Lanzmann (1925-2018), com destaque para Shoah (1985), são muitos, felizmente, os documentários que têm revisitado memórias da Segunda Guerra Mundial, em particular do extermínio de milhões de judeus pelos nazis. E com o passar das décadas, o conhecimento político e moral do Holocausto tem sido acompanhado e, de alguma maneira, potenciado pela revelação regular de importantes materiais de arquivo.

Quem Escreverá a Nossa História, documentário escrito, produzido e realizado por Roberta Grossman, é mais um exemplo dessa vaga de filmes. A sua importância informativa é tanto maior quanto nele podemos descobrir uma vasta coleção de imagens de arquivo, documentando a repressão nazi na Polónia e, mais concretamente, as trágicas condições de vida dos judeus no gueto de Varsóvia.

O título remete-nos para as memórias do gueto, aludindo a um projeto de arquivo liderado por Emanuel Ringelblum (1900-1944). Para ele, historiador e político polaco, tratou-se de preservar e organizar essas memórias a partir de novembro de 1940, quando os nazis fecharam quase meio milhão de judeus no gueto. Mobilizando várias personalidades ligadas à investigação histórica, mas também à política e ao jornalismo, Ringelblum organizou um coletivo clandestino (nome de código: Oyneg Shabes) com tarefas muito concretas: reunir a maior diversidade possível de testemunhos, escritos e imagens, que pudessem esclarecer as gerações futuras sobre os crimes perpetrados pelo regime de Adolf Hitler.

O filme produz um efeito paradoxal. Assim, por um lado, os materiais coligidos - incluindo muitas fotografias e fragmentos de filme que dão conta da progressiva decomposição das condições de vida no gueto - impressionam pelo seu fortíssimo efeito de verdade. Por outro lado, uma parte considerável de Quem Escreverá a Nossa História aplica uma vulgar retórica televisiva de "reconstituição", com atores, de situações vividas durante a guerra.

É bem verdade que os meios de produção aplicados em tais "encenações" são francamente invulgares em produções deste género. E não será menos verdade que há nelas um considerável cuidado na "reprodução" dos mais variados elementos, desde o guarda-roupa até à crescente degradação dos espaços da cidade.

Claro que pode ser interessante, e intelectualmente estimulante, combinar memórias de arquivo com cenas concebidas na atualidade. Ainda assim, neste caso particular, a fragmentação de tais cenas, para mais acompanhadas por uma música redundante, tende a secundarizar a genuína vibração (informativa e emocional) dos documentos do passado, quase sempre tratados de forma "acelerada", sem que seja dado ao espectador o tempo suficiente para absorver a sua intensidade. Em resumo: ainda que cinematograficamente menor, Quem Escreverá a Nossa História possui um valor informativo que importa sublinhar.

* * Com interesse

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG