Quem se lembra de Jean Seberg?

Atriz americana consagrada pela Nova Vaga francesa, Jean Seberg surge agora interpretada por Kristen Stewart num filme evocativo do período em que foi objeto de apertada vigilância pelo FBI: o resultado é um filme fora de moda, de tocante verdade humana.

Saudemos um ovni cinematográfico. De facto, num tempo em que as gerações mais jovens são (des)educadas para pensar que o cinema começou quando os estúdios Marvel começaram a contratar técnicos de efeitos especiais, há um evidente risco comercial em produzir e difundir um filme como Seberg - Contra Todos os Inimigos, realizado por Benedict Andrews, sobre uma atriz tão esquecida como a americana Jean Seberg (1938-1979).

Afinal, quem se lembra de Jean Seberg? De forma breve, mas sugestiva, o começo do filme coloca-a no contexto em que nasceu a sua carreira, e também a sua mitologia. Descobrimo-la, assim, a interpretar Joana d'Arc, estreante, aos 19 anos, em Santa Joana (1957), sob a direção de Otto Preminger. Depois, são evocadas outras referências fundamentais da sua filmografia, incluindo, claro, o filme-farol da Nova Vaga francesa: À Bout de Souffle/O Acossado (1959), de Jean-Luc Godard (citado pelo título inglês: Breathless).

Em qualquer caso, não estamos perante um banal inventário filmográfico: trata-se de expor as convulsões de uma personagem que, num misto de voluntarismo e ingenuidade, se envolveu na agitação política de um tempo dramático da sociedade norte-americana, em plenos anos 60, com a guerra do Vietname como perturbante pano de fundo.

No centro dos acontecimentos narrados pelo filme está o facto de Jean Seberg, na sequência das suas tomadas de posição em defesa dos direitos dos afro-americanos - e, em particular, do seu apoio ao partido Panteras Negras -, ter sido sistematicamente vigiada pelo FBI. Mais do que isso: a agência de investigação e segurança dos EUA difundiu informações no sentido de desacreditar a sua personalidade, facto que levaria mesmo o marido de Seberg, o escritor Roman Gary (interpretado no filme por Yvan Attal), a considerar que a ação do FBI terá sido um fator decisivo na eclosão dos muitos problemas psicológicos da atriz e, por fim, na sua morte prematura (provável suicídio, nunca esclarecido), contava 40 anos.

O filme, entenda-se, não é uma "tese" sobre esta coleção de factos (as referidas declarações de Gary nem sequer são citadas). Aquilo que lhe confere uma especial qualidade evocativa, a que talvez possamos chamar "psicológica", é o facto de lançar pistas sobre esta complexa teia de personagens, sem santificar umas ou demonizar outras. Nesta perspetiva, o infeliz subtítulo português (Contra Todos os Inimigos) ignora os contrastes afetivos e emocionais que são, em boa verdade, a matéria principal do filme, a ponto de personagens como o militante Hakim Jamal (Anthony Mackie) ou o investigador do FBI Jack Solomon (Jack O'Connell) serem tratadas muito para lá de qualquer cliché dramático ou ideológico.

Tudo isto passa, como é óbvio, pela composição de Kristen Stewart, assumindo a figura de Jean Seberg muito para lá de qualquer mimetismo simplista (mesmo se o cabelo curto ou o vestido às riscas de O Acossado são inevitáveis referências iconográficas). É também um labor de risco, já que se trata de encontrar uma verdade humana que ilumine a herança mitológica de Seberg, sem a remeter para uma abstração sem espessura histórica. Enfim, são elementos que confirmam o estatuto de Seberg - Contra Todos os Inimigos como um peculiar objeto fora de moda.

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