Quando Bannon achava que Trump era um Archie Bunker

A investigação do jornalista Bob Woodward chega a Portugal amanhã. O DN antecipa o primeiro capítulo do livro Medo - Trump na Casa Branca, o retrato mais íntimo e devastador de um Presidente americano em exercício.

Medo - Trump na Casa Branca, de Bob Woodward

Chega esta terça-feira às livrarias portuguesas o best-seller de Bob Woodward sobre a administração Trump que já vendeu nas últimas semanas milhões de exemplares nos EUA : Medo - Trump na Casa Branca. O jornalista que acompanhou as últimas oito presidências norte-americanas, desde Richard Nixon, e que revela nesta investigação os piores receios sobre o chefe de Estado mais poderoso do mundo.

Para este relato da intimidade da administração Trump, Woodward recolheu centenas de horas de depoimentos e conversas com fontes privilegiadas sobre o que se passa na Sala Oval a nível nacional e na política internacional. O DN publica o primeiro capítulo, onde o futuro braço direito de Trump e já despedido, Steve Bannon recusa conversar com o então empresário por achar que ele nunca seria eleito.

Pré-publicação do primeiro capítulo

"Em agosto de 2010, seis anos antes de assumir o comando da campanha presidencial vencedora de Donald Trump, Steve Bannon, na altura com 57 anos e produtor de filmes políticos de direita, atendeu o telefone.

«O que faz amanhã?», perguntou David Bossie, investigador de longa data da Câmara Republicana e ativista conservador que perseguira os escândalos de Bill e Hillary Clinton durante quase duas décadas.

«Ó pá», respondeu Bannon, «vou montar a porcaria dos filmes que estou a fazer para si.»

Aproximavam-se as eleições intermédias de 2010 para o Congresso. O movimento Tea Party estava no auge e os republicanos mostravam pujança.

«Estamos, literalmente, a acabar mais dois filmes, Dave. Estou a montá-los. Ando a trabalhar vinte horas por dia» na Citizens United, a comissão de ação política conservadora dirigida por Bossie para produzir os seus filmes anti-Clinton.

«Pode vir comigo a Nova Iorque?»

«Para quê?»

«Para falar com o Donald Trump», respondeu Bossie.

«Sobre quê?» «Ele está a pensar candidatar-se à presidência», disse Bossie.

«De que país?», perguntou Bannon.

«Não, a sério», insistiu Bossie. Ele andava a encontrar-se e a trabalhar com Trump há meses. Trump pedira uma reunião.

«Ó pá, tenho mais que fazer», retorquiu Bannon. «Donald Trump nunca vai concorrer à presidência. Esqueça. Contra o Obama? Esqueça. Não tenho tempo para perder com disparates.»

«Não quer conhecê-lo?» «Não, não estou interessado em conhecê-lo.» Trump já dera a Bannon uma entrevista de 30 minutos para o seu programa de rádio das tardes de domingo chamado The Victory Sessions, que Bannon fazia a partir de Los Angeles e anunciava como «o programa de rádio da gente que pensa».

«Esse tipo não é sério», declarou Bannon.

«Pois eu acho que é», replicou Bossie. Trump era uma celebridade da televisão e tinha um programa famoso, The Apprentice, que era o programa mais visto na NBC há várias semanas. «Não vejo nenhum inconveniente em irmos falar com ele.»

Por fim, Bannon concordou em ir a Nova Iorque, à Trump Tower.

Subiram à sala de reuniões do vigésimo sexto andar. Trump cumprimentou-os calorosamente e Bossie disse que tinha uma apresentação detalhada. Era um tutorial.

«A primeira parte», disse, «mostra como concorrer às primárias do Partido Republicano e vencer. A segunda parte explica como candidatar-se à presidência dos Estados Unidos contra Barack Obama.» Descreveu estratégias básicas de sondagens e discutiu processos e questões. Bossie era um conservador tradicional, adepto de um governo limitado, e fora apanhado de surpresa pelo movimento Tea Party.

Bossie disse que era um momento importante na política americana, e que o populismo do Tea Party estava a tomar conta do país. O cidadão comum estava a ter voz. O populismo era um movimento que visava perturbar o statu quo político a favor das pessoas comuns.

«Eu sou um homem de negócios», recordou-lhes Trump. «Não sou um trepador profissional na política.» «Se vai candidatar-se ao cargo de presidente», disse Bossie, «terá de saber imensas pequenas coisas e imensas coisas importantes.» As pequenas coisas eram prazos de inscrição, as regras estaduais para as eleições primárias... pormenores. «Terá de conhecer o sentido da política e de aprender a conquistar delegados. Mas primeiro tem de compreender o movimento conservador.»

Trump acenou com a cabeça.

«O senhor tem alguns problemas com questões controversas», disse Bossie.

«Não tenho problema nenhum com questões controversas», declarou Trump. «De que está a falar?»

«Em primeiro lugar, uma pessoa que não é pró-vida nunca venceu as primárias republicanas», disse Bossie. «E, infelizmente, o senhor é muito pró-escolha.»

«O que significa isso?»

«Tem um historial de fazer donativos aos tipos do aborto, aos candidatos pró-escolha. Fez declarações. Tem de ser pró-vida, contra o aborto.»

«Eu sou contra o aborto», declarou Trump. «Sou pró-vida.»

«Bem, há um historial.»

«Isso pode ser mudado», declarou Trump. «Diga-me como posso remediar isso. Eu sou... como é que lhe chamou? Pró-vida. Sou pró-vida, garanto-lhe.»

Bannon ficou impressionado com a teatralidade e, à medida que Trump foi falando, o seu espanto aumentou. Trump era empenhado e rápido. Estava em excelente forma física. A sua presença era imponente e enchia o espaço, transmitia liderança. Ele tinha alguma coisa. Além disso, era um tipo com muito à-vontade a falar na televisão. Era astuto, de Queens. Na opinião de Bannon, Trump era Archie Bunker, mas um Archie Bunker verdadeiramente focado.

«A segunda coisa importante», disse Bossie, «é o seu historial de votação em eleições».

«O meu historial de votação? Como assim?»

«A frequência com que vota.»

«De que é que está a falar?» «Bem», explicou Bossie, «estamos a falar de eleições primárias republicanas.»

«Eu voto sempre», replicou Trump, confiante. «Votei sempre, desde os dezoito ou vinte anos.»

«Na verdade, isso não está correto. Sabe que há um registo público das suas votações.» Bossie, o investigador do Congresso, tinha uma pilha de registos.

«Eles não sabem como eu voto.»

«Não, não, não... não é o seu sentido de voto. É a frequência com que vota.»

Bannon percebeu que Trump não sabia os factos mais rudimentares da política.

«Votei sempre», insistiu Trump.

«Na verdade, só votou uma vez numa eleição primária em toda a sua vida», disse Bossie, analisando o registo.

«Isso é mentira», disse Trump. «É uma grande mentira. Sempre que tinha de votar, votei.»

«Só votou numa eleição primária», repetiu Bossie. «Foi em 1988, ou uma coisa assim, nas primárias republicanas.» «Tem razão», disse Trump, dando uma volta de 180 graus, sem a menor hesitação. «Votei no Rudy.» Giuliani concorreu ao cargo de presidente da Câmara numas eleições primárias em 1989. «Isso está aí?»

«Sim.»

«Eu supero isso», afirmou Trump.
«Talvez nenhuma destas coisas seja importante», declarou Bossie, «mas talvez seja. Se vai avançar, tem de ser metódico.»

Bannon falou a seguir. Concentrou-se no que estava a impulsionar o movimento Tea Party, que não gostava das elites. O populismo era para o homem comum, que sabe que o sistema está corrompido. Era contra o capitalismo de lóbis e os negócios com informações privilegiadas que estavam a prejudicar os trabalhadores.

«Adoro isso. É o que eu sou, um popularista», disse Trump, adulterando a palavra.

«Não, não», disse Bannon. «É populista.»

«Sim, sim», insistiu Trump. «Um popularista.»

Bannon desistiu. Num primeiro momento, pensou que Trump não tinha compreendido a palavra. No entanto, talvez tivesse um significado muito específico para ele - ser popular com as pessoas. Bannon sabia que «popularista» era uma forma britânica mais antiga de «populista» para o público em geral não intelectual.

Já estavam reunidos há uma hora quando Bossie disse: «Temos outra grande questão.»

«Qual é?», perguntou Trump, parecendo um pouco mais circunspecto.

«Bem», continuou ele, «80 por cento dos donativos que fez foram para democratas.» Embora não expressasse a sua opinião, Bossie estava convencido de que aquela era a maior desvantagem política de Trump.

«Que grande disparate!»

«Há registos públicos», declarou Bossie.

«Há registos públicos disso!», exclamou Trump, profundamente espantado.

«De todos os donativos que fez na vida.» A divulgação pública de todos os donativos políticos era obrigatória.

«Eu sou sempre equilibrado», referiu Trump. Disse que dividia os seus donativos entre candidatos dos dois partidos.

«Na verdade, doou bastante. Mas 80 por cento do dinheiro foi para os democratas. Chicago, Atlantic City...»

«Tenho de fazer isso», explicou Trump. «Os malditos democratas governam todas as cidades. É preciso construir hotéis. É preciso suborná-los. São pessoas que vieram ter comigo.»

«Escute», disse Bannon, «o que o Dave está a tentar dizer é... que deve concorrer como um tipo do Tea Party. O problema é que é disso que eles se queixam. Que são tipos como o senhor que são beneficiados nos negócios.»

«Eu supero isso», afirmou Trump. «Está tudo viciado. É um sistema corrupto. Esses tipos andam a extorquir-me há anos. Eu não quero dar. Todos vêm pedir. Se não passamos um cheque [...] Havia um político em Queens», continuou ele, «um velho com um taco de basebol. Vamos lá e temos de lhe dar alguma coisa - normalmente, em dinheiro vivo. Se não lhe dermos nada, nada é feito. Nada é construído. Mas se formos lá e lhe deixarmos um envelope, acontece. As coisas são assim. Mas eu posso remediar isso.»

Bossie disse que tinha um plano. «É o movimento conservador. O Tea Party vem e vai. O populismo vem e vai. O movimento conservador tem sido a base desde Goldwater. Depois», disse, «recomendo que se candidate como se estivesse a concorrer para o cargo de governador em três Estados... Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul.» Eram três dos primeiros Estados a realizar caucus ou eleições primárias. «Concorra e faça por parecer da terra, como se quisesse ser o seu governador.» Muitos candidatos cometiam o enorme erro de tentar candidatar-se em 27 Estados. «Faça três corridas para governador e terá uma boa hipótese. Concentre-se em três. E os outros virão.»

«Eu posso ser o nomeado», disse Trump. «Posso vencer aqueles tipos. Não me importa quem são. Isto está no papo. Eu posso resolver as outras coisas.» Cada posição podia ser revisitada, renegociada. «Eu sou pró-vida», declarou Trump. «Vou começar.»

«O que vai ter de fazer é o seguinte», disse Bossie. «Vai ter de passar cheques individuais num valor total entre 250 000 e 500 000 dólares para congressistas e senadores. Todos virão cá. Olhe-os nos olhos e aperte-lhes a mão. Vai dar-lhes um cheque. Porque precisamos de dar alguns sinais. Tem de se encontrar pessoalmente com estes tipos para que eles saibam. Porque, mais tarde, vai ser pelo menos uma prova de que está a construir relações.»

Bossie continuou: «Diga: "este cheque é para si. De 2400 dólares" - a quantia máxima. Têm de ser cheques individuais, dinheiro a sério, para a campanha deles, para que saibam que vem de si, a título pessoal. É assim que os republicanos sabem que vai estar a sério nisto.»

Bossie disse que todo o dinheiro era crucial para a arte da política presidencial. «Mais tarde, vai receber enormes dividendos.» Devia doá-lo a republicanos candidatos em alguns Estados decisivos como o Ohio, a Pensilvânia, a Virgínia e a Florida.

«Além disso», continuou Bossie, «vai ter de escrever um livro de política. Devia escrever um livro sobre o que pensa sobre a América e estas políticas.»

Bannon fez-lhe uma pormenorizada descrição da China e dos seus bem-sucedidos esforços para tirar empregos e dinheiro aos Estados Unidos. Ele estava obcecado com aquela ameaça.

«O que acha?», perguntaria Bossie mais tarde a Bannon.

«Estou bastante impressionado com o tipo», respondeu Bannon. «Quanto à candidatura à presidência: zero hipóteses. Em primeiro lugar, as duas coisas que lhe disse para fazer. O filho da mãe nunca vai passar um cheque. Ele não é um tipo que passa cheques. Só os endossa... quando os recebe como pagamento. Foi bom ter dito isso porque ele nunca vai passar um cheque.»

«E o livro sobre política?»

«Ele nunca vai escrever um livro sobre política. Não me lixe. Em primeiro lugar, ninguém vai comprá-lo. Seria uma perda de tempo, mas seria extremamente divertido.»

Bossie disse que estava a tentar preparar Trump, para o caso de decidir candidatar-se. Ele tinha uma mais-valia única: estava totalmente afastado do processo político.

Enquanto caminhavam, Bossie fez um exercício mental, o mesmo que a maioria dos americanos faria seis anos mais tarde. Ele nunca vai concorrer. Ele nunca vai apresentar a candidatura. Ele nunca vai anunciar. Ele nunca vai apresentar a declaração de rendimentos. Certo? Ele nunca vai fazer nenhuma dessas coisas. Ele nunca vai vencer.

«Acha que vai candidatar-se?», perguntou por fim Bossie a Bannon. «Não tem hipótese. Zero», repetiu Bannon. «Olhe para a merda da vida que ele tem, pá. Vá lá. Ele não vai fazer isto. Não vai querer ser massacrado.»"

Medo - Trump na Casa Branca

Bob Woodward

Editora D. Quixote

470 páginas

Chegha às livrarias amanhã, terça-feira

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