Por amor dos livros e da escrita

A atriz Lina Roessler assina Best Sellers, a sua primeira realização, conferindo especial importância ao trabalho dos seus intérpretes principais: Michael Caine e Aubrey Plaza.

Subitamente, nestes tempos de super-heróis especializados em comunicar (?) por monossílabos, chega-nos um filme tocado pelo amor dos livros. E também pela celebração do trabalho da escrita. Sem discursos panfletários nem boas intenções piedosas, antes colocando em cena personagens e situações envolvidas na vida dos livros, escrevendo-os, fabricando-os, entregando-os ao turbilhão do mundo.

Best Sellers, título de estreia na realização da atriz Lina Roessler, é esse filme despretensioso, mas rigoroso, que não confunde simplicidade com pitoresco. Quanto mais não seja porque o argumento, assinado por Anthony Grieco, coloca em cena duas personagens, não apenas humanamente complexas, mas também unidas por laços enigmáticos que irão ser descobertos através da sua atribulada convivência.

Em termos esquemáticos, este começa por ser o retrato de Lucy Stanbridge, herdeira da editora do pai: o prestígio de que desfruta está longe de bastar para resolver os respetivos problemas financeiros... Até que Lucy descobre que Harris Shaw, o escritor que, muitos anos antes, foi decisivo no lançamento da empresa, assinou um contrato para escrever um livro que nunca entregou - será que essa figura eremita, cuja dependência do álcool se confunde com a sua lenda, poderá trazer-lhe o best seller de que tanto necessita?

O know how de Lina Roessler como atriz terá sido decisivo para o facto de o filme depender, e muito, da prestação dos intérpretes principais. Aubrey Plaza compõe uma Lucy que nunca se esgota num qualquer estereótipo moralista: afinal de contas, o idealismo que a leva a não desistir de preservar a herança paterna nunca é estranho ao pragmatismo com que vai gerindo o marketing do novo livro, em particular lançando-se numa agitada digressão promocional do "renascido" autor. Quanto a Harris Shaw, chega-nos através de mais uma elaborada e subtil composição do veterano Michael Caine (à beira do 89.º aniversário), contornando o óbvio cliché do escritor que afoga as suas mágoas no álcool, oferecendo-nos antes uma personagem a viver um processo de metódica revelação emocional - o humor que circula por tudo isso é tanto mais apelativo quanto não esconde a sua pulsão trágica.

Resultando de uma coprodução EUA/Canadá (a rodagem decorreu em Montreal), Best Sellers é um daqueles objetos "bizarros", alheios a qualquer relação com a BD ou os videojogos, que as lógicas do mercado global foram secundarizando. Estamos mesmo perante uma tradicional "comédia dramática" que vai envolvendo o espectador através de um cálculo de peripécias, surpresas e silêncios, em última instância resistindo a "fechar" as personagens em qualquer simbologia fácil. Mais do que isso: circula pelo filme a nitidez de uma perda - Elizabeth, a mulher do escritor, que ele recorda sempre com um misto de contenção e intensidade - que nos faz sentir a fragilidade do viver e a paradoxal energia que o escrever pode adquirir nas relações humanas.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG