Património de todos

Decorre até domingo a Bienal Ibérica de Património Cultural em Loulé. Catarina Valença Gonçalves fala sobre a importância de ativar os valores patrimoniais do país

"Existem muitas ideias preconceituosas que é imperativo desconstruir, porque é falso de que não exista vida social e cultural nos meios rurais. As pessoas que trocaram a cidade pelo campo como forma nova de vida passam a ver um filme diferente" da realidade campestre. Era já fim de conversa, num final de tarde passado na pastelaria Versailles, em Lisboa, quando Catarina Valença Gonçalves disparou o carimbo que viria a selar tudo o que havia dito antes acerca da importância do património cultural e da bienal dedicada ao tema que está a decorrer este fim de semana em Loulé, da qual é organizadora. Isso e o facto de o caminho, tanto para o património como para o turismo, não passar pelo mainstream.

Com um percurso académico ligado à História de Arte e um trajeto profissional ligado à ativação de valores patrimoniais, Catarina Valença Gonçalves considera Portugal um país particularmente conservador na área da gestão patrimonial e museológica. "Portugal era o único país que não tinha uma feira profissional do setor do património cultural, a nível europeu", refere acerca deste evento que decorre até domingo em vários locais de Loulé. O projeto começou em 2013 enquanto feira de património e vai na sua terceira edição enquanto bienal. É sempre itinerante. "A particularidade é que nos outros países as iniciativas nascem normalmente do setor público. Portugal, sendo um país particularmente conservador na área da gestão patrimonial e museológica, vive ainda muito um monopólio estatal", acrescenta. "É também um setor em que as pessoas trabalham de uma forma muito isolada, e não devia ser assim. Ironicamente, acaba por ser tudo muito compartimentado e as pessoas são muito desconfiadas umas das outras. É fundamental esbater fronteiras no setor."

Catarina Valença Lopes defende uma política que chegue ao maior número de pessoas, que deixe de fora o menor número de pessoas possível. "Era muito importante que houvesse uma política pública, e aí só o Estado é que pode fazê-lo, que chegasse a todos. A escola é um veículo para fazê-lo. E que conseguíssemos taxas de consumo de património cultural pelos nacionais, como sucede nos outros países europeus. Temos das mais baixas taxas de consumo do património por parte dos portugueses, porque os portugueses são sabem - porque ninguém lhes disse - que aqueles bens são deles. Eles são detentores dos 35 mil monumentos que existem em Portugal." Para fazer essa aproximação dos portugueses ao seu património cultural, Catarina Valença Lopes diz que deveria haver mais eventos como esta bienal.

A bienal

A bienal, ibérica, acontece todos os anos: nos ímpares em Portugal e nos pares em Espanha. A itinerância, diz Catarina Valença Gonçalves, deve-se ao facto de Portugal ser um país muito pequeno mas muito rico em termos de património cultural, não só em termos de quantidade e variedade mas também pela forma harmoniosa com que está espalhado pelo país. "Património cultural não são bens, são pessoas", confessa esta historiadora de arte. "Património é só um instrumento para chegar às pessoas, quer sejam as pessoas que construíram o castelo de São Jorge e porque é que elas o fizeram, quer sejam as pessoas que em 1940 reconverteram o castelo de São Jorge naquilo que é hoje - não é um edifício do século XII mas um edifício do século XX, apesar de as pessoas não o saberem -, quer sejam os turistas que o visitam hoje, quer seja a população que vive em torno do castelo", exemplifica. "Património é a vivência que as pessoas fazem dos monumentos e da cultura, e é necessário haver a convicção de que todas as pessoas são capazes de se maravilhar com o património cultural, independentemente da sua condição social, económica, da sua formação ou da sua geografia. A senhora da mercearia de Vila Nova da Baronia [concelho de Alvito] é tão capaz de se maravilhar com uma igreja com frescos do século XV quanto o professor universitário da Faculdade de Letras", considera. "A questão é que sentem coisas diferentes e de formas diferentes, porque têm instrumentos diferentes para fazê-lo. Se a mediação for adequada a si, qualquer pessoa pode maravilhar-se. A chave é a mediação."

"Durante três dias, temos uma concentração de locais que se pode visitar, gratuitamente. Pode visitar-se tudo mas sempre com alguém a mediar, com uma linguagem acessível a qualquer pessoa. Não há pré-requisitos nas inscrições. Muitas actividades são abertas a famílias. O que é fundamental para gerar conversa em casa e programar a vez seguinte." Além das rotas sempre ligadas ao património, vai haver concertos, exposições, video mapping, seminários, oficinas. O país convidado desta edição é Marrocos e o tema é o da sustentabilidade. "Escolhemos o tema da sustentabilidade porque é um tema muito em voga e sustentabilidade podia ser um sinónimo para património cultural. A sustentabilidade o que é? A boa gestão dos recursos endógenos, a sua reutilização se necessário, tendo em vista o prolongamento da sua vida útil e passar a próximos, se for o caso. O que é o castelo de São Jorge se não o edifício que foi construído com preocupações defensivas que teve depois uma série de funções e é hoje um equipamento para receber turistas?", desenvolve. "O património cultural não se pode excluir de como as pessoas vivem, circulam, consomem, recebem informação. Não pode haver esse preconceito. "Na bienal, temos mix ao nível de profundidade dos temas tratados. E isso é muito importante para as pessoas perceberem que há muitas formas de viver e de consumir o património cultural."

Catarina Valença Gonçalves advoga ser essencial criar mecânicas de aproximação aos diferentes públicos. "O que faz falta do ponto de vista político é uma inversão da responsabilidade. O ónus está do lado de quem detém conhecimento e não do lado do cidadão que não sabe ou não quer saber, ou diz que não quer consumir património cultural. Se a proposta for interessante, qualquer pessoa adere." E dá o exemplo do Mosteiro do Jerónimos e da possibilidade de abrir à noite. "Porque é que não é possível visitar o Mosteiro dos Jerónimos à noite? Porque as estruturas trabalham das nove às cinco. Mas o visitante não tem nada a ver com isso. A estrutura tem de encontrar uma forma, através de parcerias, de permitir visitas - porque, só o facto de ser à noite, vai chamar um conjunto de pessoas que eventualmente teriam alguma relutância em ir visitar os Jerónimos."

Saturação de turismo?

"Portugal não é Lisboa e Porto. Essa saturação turística que se sente nessas cidades não se sente no resto do país. O que faz falta em Portugal nessa matéria, e o Turismo de Portugal está muito ciente disso, é dar uso a duas grandes mais-valias que temos relativamente aos nossos vizinhos europeus: somos pequenos. Neste caso, é uma mais-valia", opina a curadora da bienal. "E, não querendo ser irónica, temos outra mais-valia que é estes quilómetros e quilómetros de autoestradas que andámos a construir e que agora finalmente podem ter um uso - que não é para os nacionais, continuamos a ser poucos e seremos cada vez menos; mas é para os turistas. Seria ótimo se tivéssemos uma via férrea competitiva, mas temos também os Expressos que funcionam muito bem. Isto para dizer que é muito fácil circular em Portugal. O que temos de fazer é escoar." Na opinião desta historiadora de arte, esta solução não foi ainda implementada porque existe pouca oferta no território interior e há pouca articulação entre a capital e a zona interior. "Há muito preconceito - da metrópole em relação ao interior e do interior em relação à metrópole. Como há do pessoal da cultura em relação ao pessoal do turismo e vice-versa."

Guimarães é, na opinião de Catarina Valença Gonçalves, um exemplo a seguir. "Se quem gere os territórios não tiver uma comunidade local forte, que saiba o que é o seu património, o que é a sua identidade, corre o risco de vir uma massa de gente de fora e rapidamente anular o pouco que existe e construir uma nova realidade", explana. "Um excelente exemplo disso não ter sucedido é Guimarães. E eu adoraria que Évora conseguisse fazer esse caminho. Guimarães fez todo um trabalho, nomeadamente com a qualificação do centro histórico, a cargo de Alexandra Gesta, que depois deu origem à sua classificação como Património da Humanidade. Fez todo um trabalho de valorização da comunidade local, nomeadamente a qualificação dos sítios onde as pessoas viviam". Foi esta medida que impediu, diz, a gentrificação do centro da cidade. "Foi essa qualificação que pôs todos os vimaranenses a defender Guimarães e a anular qualquer contaminação vinda de fora."

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