"Os livro de terror são muito populares em tempos como os do Brexit"

A inglesa C.J. Tudor está de volta com um novo thriller psicológico após o sucesso de O Homem de Giz, que teve direito a seis edições em Portugal. Desta vez, há uma menina que desaparece e regressa assustadora.

Ao primeiro romance policial, a autora C.J. Tudor conquistou um já difícil sucesso num género em muito saturado com edições em que as iniciais e a ignorância sobre o sexo do autor são uma marca registada. Após O Homem de Giz, Tudor lança Levaram Annie Thorne e a crítica não torceu o nariz ao segundo livro. Pelo contrário, a opinião é que resultou melhor.

A biografia de C.J. Tudor é explícita: "O seu amor pela escrita, em especial pelo macabro e pelo sinistro, manifestou-se desde cedo." Tanto que em adolescente um dos autores preferidos era o mestre do terror Stephen King. À biografia acrescenta profissões inesperadas: dog-walker, empregada de mesa, redatora publicitária, situações que a prepararam para descrever personalidades e situações estranhas em 300 páginas novas e deixar os leitores enervados.

Tudo começa com o desaparecimento da menina que dá nome ao livro, Annie. Teme-se o pior, mas C.J. Tudor é benevolente e fá-la reaparecer 48 horas depois. Se o leitor acha que pode estar descansado desengane-se, afinal o seu regresso vai tornar-se num pesadelo. Ou seja, para quem gosta do género, Levaram Annie Thorne é um prato bem servido.

C.J. Tudor esteve em Portugal, país que lhe tem sido muito favorável, ou não esteja O Homem de Giz na sexta edição, para promover no novo livro. O Brexit dominou a conversa e foi preciso interromper o discurso irritado para a obrigar a falar do novo livro. Que resulta de uma vez estar num engarrafamento e ver uma criança no vidro de trás. Depois pensou: e se ela desaparecesse? E foi mais longe: e se fosse minha filha?

Dentro de três décadas o Brexit será um ótimo cenário para um romance de terror?

Muito possivelmente e se for o meu caso talvez seja o livro mais terrível que eu escreverei. O pesadelo que está a acontecer no meu país é mais assustador do que este thriller. Não sei onde iremos parar nem o que está a acontecer. Acho que são tempos interessantes, que já vivemos na década de 1980 [a greve dos mineiros] ou durante a Guerra Fria. De qualquer modo, é bom para um certo género de literatura pois os livros de terror são muito populares em tempos de incerteza como estes do Brexit, talvez porque seja uma forma de escapar à vida real

Porque localiza uma parte importante do livro durante o tempo da greve dos mineiros nos anos 1980?

Tal como os personagens do livro eu vivia numa vila mineira, ia à escola e a maioria dos alunos tinham familiares na greve. Eram uns tempos em que a população estava muito dividida e nessas comunidades muito pequenas havia vizinhos que não falavam uns com os outros; quando as minas fecharam, essas povoações ficaram isoladas, como se vivessem em cidades fantasmas. Eu lembro-me disso. Essas localidades são o melhor cenário para uma história como a minha. Começa aí e o resto veio a seguir facilmente. Ou seja, tal como nesta época do Brexit, eram tempos de grande conflito e que ninguém esquece facilmente. Voltar a eles para este livro foi importante para mim, mesmo que haja um sentimento de morte no livro: das cidades, da indústria, do povo. E coloca-se a pergunta: será que as coisas alguma vez voltarão ao mesmo?

Refere que todas as localidades têm uma história oficial. Esta do livro é inspirada na sua terra?

Mais ou menos, pois utilizei também outras que conheço na região e combinei-as. Cada comunidade tem as suas histórias, lendas, folclores e tradições, que vão passando de umas gerações para as outras. A história do livro não é verdadeira, mas baseada em mitos dessas terras. Como os túneis das minas! Acho fascinante colocar essa parte no livro porque quando eu era dog-walker costumava pensar nessas histórias antigas, nos corredorres subterrâneos e no que as crianças podem fazer dentro deles, mesmo quando acabam assustados com alguma surpresa. Isso era perfeito para o romance.

Pequenas cidades, grandes mistérios...

Sim, uma pequena comunidade é o local perfeito para um livro destes, porque está tudo contido e há regras que nem todos apreciam. Numa cidade grande perdem-se todas essas realidades. Precisava de uma atmosfera claustrofóbica, de famílias que crescem sem sair da povoação mesmo que a 20 quilómetros haja uma grande cidade. Esse comportamento leva a atitudes estranhas, como a de guardar de segredos. E aí cai muito bem um mistério.

Este é o segundo livro...

... sim, e o primeiro foi um grande sucesso, publicado em 40 países...

Foi difícil escrever o segundo livro após o sucesso do primeiro?

Creio que o segundo livro dá mais medo. Eu tive sorte porque já tinha uma parte dele pronto, que escrevera antes de O Homem de Giz, cerca de 20 páginas, mas depois emperrei e não sabia para onde continuar. Então, a ideia do Giz surgiu e fui apanhada por ela e pus este de lado. Quando chegou a hora do segundo livro, o meu agente perguntou se sabia o que ia fazer, disse que queria voltar ao rascunho e mostrei-lhe o que tinha. Como já sabia o que iria fazer em seguida, tive menos stress e pressão da página em branco. Senão, poderia ter sido muito mais difícil. O maior problema é o da pressão sobre as expetativas, se não há um contrato elas são muito menores. A maior pressão foi mesmo a de eu não querer que resultasse num fracasso e desiludir editores e leitores.

Mudou muito o rascunho inicial?

Não, aproveitei muito do que escrevi e o problema de como iria continuar o livro ficou logo resolvido. Pude seguir em frente e as mudanças que fiz foram mais para acertar os pormenores do que quaisquer outros.

Está satisfeita com o livro?

Sim, até porque muitas das críticas disseram que era melhor que o anterior. Isso foi muito bom. Mesmo assim, tenho sempre medo de abrir o livro já impresso e encontrar um parágrafo ou mesmo um capítulo quer poderiam ter ficado melhor se o tivesse feito de outro modo. Mas não foi isso que aconteceu, portanto estou muito satisfeita com a forma como o livro tem sido recebido.

Prefere o primeiro ou o segundo livro?

Gosto do segundo, mas o primeiro tem a vantagem de ser o que me abriu as portas e por isso é especial. Creio que o segundo é mais negro, com muitos volte-face e assustador. Foi bom conseguir isso.

A propósito de volte-faces, este livro tem muitos. Quer enervar o leitor?

Como leitora gosto dessa situação, espero sempre que o fim me surpreenda e gosto de escrever desse jeito. Até surpreender-me a mim própria pois não faço planos. Os thrillers estão cada vez mais sofisticados e é muito difícil sermos bem sucedidos. Mesmo assim, divirto-me a escrever.

Este livro é muito mais sobre Joe Thorne e não a rapariga. Porque o fez assim?

Muitas vezes temos uma personagem na cabeça que não nos larga e queria impor-lhe o regresso da irmã, sem saber o que lhe aconteceu. Mas também queria ter uma criança assustadora e escrever sobre coisas que regressam e nos assustam. Joe era um bom personagem e a sua voz era fundamental, porque é um mentiroso e não é de confiança. Mas não é mau de todo!

Faz uma menina desaparecer mas depois surpreende com o seu reaparecimento. Porquê?

Esperamos sempre que tenha acontecido o pior e essa era a minha primeira ideia, mas depois optei pelo regresso da criança e sem dar explicações para isso. Essa é uma situação que assusta o leitor.

Levaram Annie Thorne

C.J. Tudor

Editora Planeta, 335 páginas