Os Amigos de Alex em versão amante português

A vistosa internacionalização de Nuno Lopes continua e já está nos cinemas com a comédia Sem Filtros, um blockbuster francês onde compõe uma ideia de amante latino para balzaquiana...

A aventura de Nuno Lopes no cinema francês tem tido episódios curiosos. Em Cannes foi visto no tocante Une Fille Facile, de Rebecca Zlotowski e em Locarno em Le Vent Tourne, melodrama de Betina Oberli. Eram interpretações seguras, papéis não de protagonista mas com centralidade nas histórias. Agora, em esta semana chega aos ecrãs portugueses em Sem Filtros, comédia com laivos dramáticos de Éric Lavaine, onde apenas tem um papel secundário.

Trata-se de um luso-francês que seduz a protagonista do filme, uma mulher nos cinquenta que tenta encontrar um escape na vida depois de o marido ter perdido a vista e a potência sexual. Por outras palavras, o seu Bernard é uma ideia romantizada do amante lusitano. A dada altura, num jantar sensual em Biarritz fala português e promove o vinho Papa Figos. Em todos estes filmes há cenas de sexo com ele. Nuno Lopes para os franceses é o "l'amant portugais" quente...

Chamboultout, título original, assume o cola e emenda de filmes como Pequenas Mentiras entre Amigos, de Guillaume Canet, e Os Amigos de Alex, de Lawrence Kasdan. Tudo se passa durante uma reunião de amigos maduros em torno de um caso. O caso em questão é o lançamento do livro da protagonista que relata a forma como conta a cegueira do marido e de como todos os seus amigos reagiram ao trauma. Ao mesmo tempo, o marido está com problemas de memória e os seus comportamentos têm uma particularidade: apenas diz a verdade sem qualquer filtro, pondo em causa segredos da família e dos amigos.

Aliás, a fórmula das reuniões de amigos e das dissecações de um certo comportamento geracional parece ser um ficheiro recorrente das comédias burguesas do cinema comercial europeu. Uma fórmula que funciona nos multiplexes: este filme foi lançado em França em massa e é pensado para um público que faz de Amigos, Amigos, Telemóveis à Parte, de Paolo Genovese, um fenómeno de popularidade.

Mas Sem Filtros é feito sem alma. Não passa a química de humor entre os amigos, as cumplicidades de muitos anos nem os equívocos das confissões no calor de uma noitada com copos e excessos. Cinema industrial excessivamente ligeiro, um pouco como a própria rotina "comercialona" do mercado francês dita. Eric Lavaine não tem decididamente unhas para cruzar componentes dramáticas com comédia pura num guião que pedia o equilíbrio certo para falar de família e de amigos na crise da meia-idade.

Descartável e com uma mensagem liberal que proclama bem à francesa que o adultério justificado é apenas um "fait-divers" (ainda para mais com uma atração lusitana com onda bonacheirona...), Sem Filtro talvez só chegue a Portugal por ter Nuno Lopes no elenco, por sinal, juntamente com Jose Garcia, os atores mais corretos no meio disto tudo...

** estrelas

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