O vestido cor de morte

Um vestido vermelho que mata. Proposta insana de Peter Strickland, cineasta de culto do Reino Unido. Maldito Vestido é uma fábula divertida que chega aos clubes de vídeo virtuais sem passar nos cinemas.

Uma pitada de humor britânico, alguma molhada de terror italiano à Mario Bava e Dario Argento e uma comentário seco e cru ao absurdo do mundo da moda. Assim vai o cinema de Peter Strickland, nome de culto de uma nova vaga que tem tido exposição em festivais internacionais do género do fantástico mas também de lista A, como Toronto ou San Sebastián, como foi o caso deste In Fabric - Maldito Vestido, conto de horror sobre um vestido amaldiçoado e pronto a provocar estragos numa sociedade consumista e onde nos movemos pela vaidade mais frívola.

O filme não teve estreia comercial em Portugal mesmo após uma receção entusiástica da crítica internacional e aparece agora nos diversos clubes de vídeos da operadoras televisivas. Triste sina de um cineasta que começa a impor-se por uma criação de universos surrealistas e uma reverência cinéfila a códigos muito concretos.

Em In Fabric, Strickland acompanha os estranhos acontecimentos de um armazém de roupa inglês que tem à venda um vestido sexy de senhora. A cor é um vermelho de artéria e está em saldos, coisa que atrai uma empregada bancária tristonha. O vestido assenta-lhe como uma luva mas não tarda muito percebe-se que os seus atributos são perigosamente amaldiçoados. Daí até a um festival de sangue é aquele momento em que o diabo esfrega o olho.

Mais tarde, o mesmo vestido vai fazer estragos num casal meio pateta que o usa para uma brincadeira numa despedida de solteiro. Às duas por três, o espetador descobre que existem rituais maléficos no armazém de roupa onde o dito "maldito vestido" veio...

Através de uma visão em jeito de pesadelo diletante, Peter Strickland coreografa um mundo onde há vestidos assassinos e no qual se encobre uma sugestão de poder corporativo. É tão ridículo como assustador, mas capaz de nos desconcertar. Maldito Vestido é para ser visto a tremer mas sem perder o sorriso nos lábios. É o caso de um cineasta em pleno controlo dos silêncios, do ritmo ensonado e do delírio plástico. Sai-se do filme algo zombie, algo que permite uma gratificação daquelas que todos já experimentámos em alguns dos filmes de David Lynch ou dos primeiros tempos de Peter Greenaway.

Maldito Vestido é talvez o melhor dos trabalhos deste provocador, uma sátira de terror com um carinho muito truculento às memórias "retro" de uma estética publicitária de outros tempos. O consumismo "fashion" encontrou um elegante objeto onde no absurdo está o ganho. Estarmos na "moda" pode ser uma praga sangrenta. O cinema britânico precisa deste olhar "kinky" de Strickland...

*** Bom

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