O triunfo do Aposento da Moita

Miguel Ortega Cláudio faz a crítica da corrida de ontem, nas festas da Moita.

Existem, em cada temporada, para o inquieto e simples aficionado português, cinco cumes, tirando Lisboa, a que não se deve faltar: Vila Franca de Xira, Évora, Angra do Heroísmo, Alcochete e Moita! Todos eles com diferentes motivos de interesse. Vila Franca de Xira com o seu Colete Encarnado e Feira de Outubro; Évora com o Concurso de Ganadarias e São Pedro; Angra com as Sanjoaninas; Alcochete com as Festas do Barrete Verde; Moita com a Feira mais importante da temporada lusa.

Fiquemos hoje pelas margens do Tejo e pela Feira da Nossa Senhora da Boa Viagem, na tradicional quinta-feira noturna da Moita, onde o Forcado é o protagonista maior, onde se presta homenagem à jaqueta das ramagens do forcado moiteiro e onde ontem foram os triunfadores incontestados da corrida realizada na Praça Daniel Nascimento.

O Zé Maria, o Marcos, o João, o Leonardo, o Bernardo, o Martin, o João e tenho que acrescentar mais dois nomes - Zé Maria Ferreira e Luís Fera -, estiveram enormes, monumentais, cheios de arte e valor a pegar, a ajudar e a rabejar toiros, enaltecendo o nome e a história do forcado amador. Um olé grande para eles.

Foram lidados seis toiros e um novilho da ganadaria Passanha, de exemplar apresentação e de comportamento nobre, mas sem romperem no seu todo. Não deixaram, por isso, de proporcionar boas lides e grandes pegas, entusiasmando o público que quase enchia a monumental da Moita.

Abriu praça João Moura, lidando um toiro que veio de menos a mais tal e qual como a sua lide, com ferros marca da casa, deixando três curtos de boa nota, em noite em que a sociedade moitense lhe prestou homenagem pelos seus 40 anos de alternativa.

António Ribeiro Telles também andou intermitente de princípio, para depois se encontrar e cravar dois grandes ferros como mandam as regras e arrancado as ovações acaloradas do público.

Luís Rouxinol foi protagonista da lide mais redonda da noite, bem nos compridos, senhor de uma brega consistente, dando a volta a um difícil Passanha, cravando bons ferros e rematando com o tradicional palmo e par a duas mãos.

Francisco Palha é o cavaleiro triunfador da temporada. Os ferros de parar corações e de chegar com força às bancadas, mais uma vez, foram o timbre da sua atuação na Praça Daniel Nascimento. Com um toiro que por diante era franco, mas que a perseguir o cavalo foi reservado, o Francisco voltou a marcar pontos e a dizer o porquê da vindoura figura "taquillera" das praças portuguesas.

Miguel Moura quis marcar pontos, mas a sorte gaiola com que quis começar a sua atuação não resultou, condicionando o resto da atuação intermitente. Não escutou música por decisão do diretor de corrida, rematando a sua atuação com um grande ferro de palmo.

Fechou a noite dos cavaleiros de alternativa, Luís Rouxinol Jr. Andou disposto, agradou ao público, deixando bons ferros e rematando também, já como é costume, com um par de bandarilhas de boa nota.

Da Torrinha veio o novo Ribeiro Telles para fechar a noite. O António é um toureiro cheio de intuição, graça e valor e isso ficou patente na passada noite. Os curtos e compridos tiveram preparações cuidadas, cravou com desembaraço e rematou com arte uma boa atuação em que meteu o conclave no "bolso".

Se há trinta anos havia 10, 15 grupos de forcados em Portugal, hoje há quase 50 e isso reflete-se em grupos como o do Aposento da Moita que, não se sabe bem porquê, tem tido poucas corridas para as quais são convidados. Se a temporada não lhes corria de feição, tanto em número de atuações ou com o desempenho em praça, ontem mandaram a "crise" para trás das costas e foram os grandes e incontestados triunfadores da corrida.

Abriu praça o cabo José Maria Bettencourt que, à primeira, se fechou na cara do Passanha com arte e firmeza, mostrando aos seus "pupilos" como se faz.

O segundo foi para um amigo, Marcos Prata, e nisto da escrita é difícil valorizar e falar dos amigos. Fazia a estreia a pegar de caras pelo Aposento da Moita e arrancou um pegão que levantou a praça. Pena a fratura da perna, que uma investida do toiro por baixo lhe provocou!

João Ventura, forcado que já travou mil batalhas diante dos toiros, esteve simplesmente exemplar na arte de receber um toiro de caras. Olé!

Para a cara do quarto foi Leonardo Matias que, à segunda corretamente e com o grupo a ajudar, bem se fechou na cara do toiro.

Fazia a despedida de Forcado, Bernardo Cardoso que teve como primeiro ajuda o José Maria Ferreira, também ele a dizer adeus às arenas. Ambos protagonizaram um bonito momento... Ambos estiveram excelentes tanto a pegar como a ajudar, recebendo o carinho e o reconhecer do público que não regateou em ovações.

Martim Carvalho pegou o sexto de lide ordinária, arrancando outra grande pega ao primeiro intento.

Fechou a noite o João Gomes jovem valor da "cantera" dos forcados do Aposento, que se fechou com alma e raça ao terceiro intento.

Dirigiu a corrida o diretor Tiago Tavares, assessorado pelo médico veterinário Moreira da Silva.

Síntese da corrida:

Toiros: Ganadaria Passanha: muito bem apresentados, com pesos entre os 515kg e os 585kg, de jogo desigual com destaque pela positiva para o quinto.

Artistas: Cavaleiros João Moura (Volta); António Ribeiro Telles (Volta) ; Luís Rouxinol (Volta); Francisco Palha (Volta); Miguel Moura (Volta); Luís Rouxinol Jr (Volta). Cavaleiro Amador António Ribeiro Telles filho (Volta)

Forcados: Amadores do Aposento da Moita: José Maria Bettencourt (Volta); Marcos Pratas (Grande ovação ao grupo, tendo o forcado saído lesionado); João Ventura (Volta); Leonardo Matias (Volta); Bernardo Cardoso (Volta com o primeiro ajuda José Maria Ferreira com chamada aos médios); Martim Carvalho (Volta); João Gomes (Volta).

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