O Padrinho: o clássico de Coppola celebra 50 anos

Meio século depois, O Padrinho persiste como uma grande metáfora sobre as contradições do poder e uma tragédia "shakespeareana" sobre uma família da Mafia - com o seu filme, Francis Ford Coppola mudou a história de Hollywood.

Foi a 14 de março de 1972 - faz hoje 50 anos - que O Padrinho se estreou no Lowe"s State Theater, a lendária sala de Times Square, Nova Iorque. A memória do filme realizado por Francis Ford Coppola relança-nos agora num misto de nostalgia e desencanto. Afinal de contas, o Lowe"s encerrou em 1987 e nada, mas mesmo nada, do atual cinema americano pode ser equiparado com o que estava a acontecer há meio século.

Nem sequer, entenda-se, no plano financeiro. Que aconteceu, então? Pois bem, a década estava a ser dominada por filmes bem diferentes. Em 1970, o grande sucesso tinha sido Love Story, um retorno feliz às regras do velho melodrama; em 1971, Um Violino no Telhado, um musical, liderara as bilheteiras dos EUA - as suas receitas tinham sido de 50 e 40 milhões de dólares, respectivamente. Chegou O Padrinho e as receitas chegaram aos 86 milhões, na altura um recorde na história de Hollywood.

São números absolutos que importa também relativizar. Porquê? Porque, quando ajustados em função da inflação verificada ao longo das décadas, as receitas de O Padrinho nas salas americanas correspondem a 722 milhões na moeda atual. Ou seja, um pouco mais, por exemplo, que Os Vingadores (2012), com os seus 703 milhões.

Não se trata de usar tais números para qualquer interpretação "competitiva". O que está em causa é a profunda transformação da grande indústria e a lógica dos seus investimentos. Assim, quando observamos as receitas finais de Os Vingadores em todo o mundo (cerca de 1.500 milhões), verificamos que correspondem a um valor que multiplica por 6,7 os gastos de produção (225 milhões). Por sua vez, O Padrinho acumulou no mercado global nada mais nada menos que 270 milhões - tendo em conta que custou 7 milhões, isso significa que multiplicou por 38,5 o respetivo orçamento.

Será preciso acrescentar que o triunfo artístico de O Padrinho decorre de uma visão artística em que o cinema, longe de uma mera ostentação tecnológica, existe como genuína arte de contar histórias? A tragédia "shakespeareana" da família Corleone está para lá de uma simples variação sobre as matrizes do clássico filme de gangsters, tal como tinha existido em décadas anteriores - através da subtil "mise en scène" de Coppola, o retrato dos bastidores mafiosos adquire o fôlego de uma saga existencial e política, realista e simbólica, sobre o poder e os seus fantasmas.

Paramount vs. Coppola

A imagem de Marlon Brando no papel do patriarca Vito Corleone está há muito inscrita no imaginário da cinefilia. O certo é que O Padrinho quase esteve para não acontecer. Ou, pelo menos, para não acontecer como o conhecemos. O filme tornou-se indissociável da marca autoral de Coppola, mas é um facto que, como frequentemente acontece no sistema de produção de Hollywood, o seu nome esteve longe de ser uma primeira escolha.

A origem do projecto não foi estranha à situação instável da tesouraria da Paramount. O sucesso de Love Story era uma exceção nas contas recentes do estúdio. Dois musicais de prestígio - Os Maridos de Elizabeth (1969), com Clint Eastwood, e Darling Lili (1970), com Julie Andrews - tinham corrido mal nas bilheteiras, sem esquecer que a superprodução Waterloo (1970), dirigida pelo soviético Sergei Bondarchuk, com a URSS como parceira, através da Mosfilm, redundara num desastre.

Publicado em 1969, O Padrinho, romance sobre a Mafia da autoria de Mario Puzo, surgiu como uma hipótese de voltar a construir um grande sucesso - e tanto mais quanto o livro estava a ser um invulgar fenómeno de vendas, tendo permanecido 67 semanas na lista de "best-sellers" de The New York Times. Robert Evans, chefe da Paramount, convencera o autor a vender-lhe os direitos de adaptação por um primeiro pagamento de apenas 12.500 dólares (a adaptação acabaria por custar um total de 100.000 dólares).

Tendo em conta as raízes italianas da Mafia, Evans considerava que a verdade cultural e dramática dos ambientes deveria ser garantida por um realizador italiano. Celebrizado pelos seus "western-spaghetti" com Clint Eastwood, incluindo O Bom, o Mau e o Vilão (1966), Sergio Leone foi a primeira escolha. E também a primeira recusa: Leone estava empenhado em trabalhar no seu próprio filme de gangsters, Era uma Vez na América (que só viria a concretizar em 1984).

Vários cineastas foram contactados - incluindo Peter Bogdanovich, Arthur Penn e até o veterano Otto Preminger -, mas nenhum se mostrou interessado. O nome de Coppola, símbolo da nova geração que se impusera ao longo da década de 60 (Martin Scorsese, Brian De Palma, etc.), surgiu, então, como uma solução de risco controlado: primeiro, pela sua ascendência italiana; depois, porque a sua aventura numa produção de maior fôlego - o musical O Vale do Arco-Íris (1968), com Fred Astaire - falhara comercialmente, nessa medida faltando-lhe poder para grandes reivindicações financeiras.

Em qualquer caso, Coppola não assumiu as suas responsabilidades como um mero tarefeiro. Assim, para os executivos da Paramount, a ação do filme deveria ser "transferida" para a atualidade, evitando "reconstituições" e concentrando em estúdio grande parte da rodagem. No pólo oposto, estava o realizador: desde que começou a trabalhar no projeto - a sua contratação foi oficialmente anunciada a 28 de setembro de 1970 (Coppola tinha 31 anos) - insistiu em preservar as datas do livro, isto é, os cenários das décadas de 1940/50, tratando-os de modo tão realista quanto possível. Resultado prático: cerca de 90% das filmagens de O Padrinho tiveram lugar em mais de 120 localizações diferentes da região de Nova Iorque (incluindo a cena de um assassinato filmada na escadaria do Supremo Tribunal, em Manhattan).

Brando & Pacino

O continuado sucesso do livro de Puzo ia "legitimando" as exigências de Coppola. Os maiores conflitos envolveram a escolha dos actores para os papéis principais, em particular o de Michael, o filho de Vito Corleone que, por fim, e apesar da sua candura inicial, se impõe como herdeiro de um império do crime.

Tudo começou com a escolha de Brando. Num certo sentido, o respetivo "casting" foi iniciado pelo próprio Puzo, através de uma carta que lhe escreveu, considerando-o o "único ator capaz de interpretar o Padrinho". Mas Brando já não era o símbolo de Hollywood gerado por filmes como Um Elétrico Chamado Desejo (1951) e Há Lodo no Cais (1954), ambos sob a direção de Elia Kazan (outro mestre clássico que recusou o convite para realizar O Padrinho). O seu comportamento errático em várias produções da década anterior, a começar por Revolta na Bounty (1962), levava qualquer estúdio a hesitar na sua contratação. Por imposição da Paramount, acabou por fazer um teste como qualquer principiante...

Com Brando já contratado para interpretar Vito Corleone, os executivos da Paramount continuavam a querer um ator popular para a personagem de Michael. Do seu lado, Coppola não desistia de um ilustre desconhecido chamado... Al Pacino. Robert Reford e Ryan O"Neal (Love Story) eram os favoritos de Evans, tendo sido considerados nomes como Jack Nicholson, Warren Beatty e Dustin Hoffman; até mesmo James Caan fez um teste como Michael (Caan viria a interpretar Sonny, o irmão mais velho de Michael).

Para o estúdio, o problema de fundo era o facto de Pacino ser, realmente, um desconhecido, com um prestígio consolidado nos palcos da Broadway, mas sem qualquer fama cinematográfica: a sua notável interpretação no filme Pânico em Needle Park (1971), de Jerry Schatzberg, uma invulgar crónica realista sobre um grupo de viciados em heroína, estava longe de o definir como um valor seguro nas bilheteiras. Pacino também fez testes, enquanto Evans, para provocar Coppola, dizia que não queria aquele "anão" (Pacino tem 1,65m de altura)... até que Coppola lhe mostrou o filme de Schatzberg e Pacino obteve o papel de Michael.

Cinquenta anos depois, se O Padrinho existe e resiste como um clássico absoluto, isso deve-se, antes de tudo o mais, à capacidade de superar a tradição do filme de gangsters que teve em atores como James Cagney ou Humphrey Bogart as suas figuras mais míticas. Mesmo a perversa metáfora do poder capitalista, inerente ao livro de Puzo, está longe de esgotar o seu espetacular impacto. Acima de tudo, e sem nunca atenuar a teia de crimes dos Corleone, Coppola fez um filme sobre a família, o seu espírito, os seus amores, desamores e infindáveis contradições. Nesta perspetiva, as Partes II e III de O Padrinho (lançadas em 1974 e 1990) definem um longo filme de cerca de 9 horas de duração sobre as convulsões mais íntimas do imaginário social e político dos EUA.

De um ponto de vista industrial, O Padrinho - consagrado com o Óscar de melhor filme de 1972 - serviu também de abertura do sistema de Hollywood a essa nova geração de autores apostada em relançar a energia dos clássicos. Sem os copiar, estavam a criar novas formas de espetáculo para um tempo em que o poder crescente da televisão ameaçava desertificar o mercado das salas.

Num certo sentido, pode dizer-se que filmes como Tubarão (1975), de Steven Spielberg, ou A Guerra das Estrelas (1977), de George Lucas, não existiriam sem a ousadia criativa e o impacto nas bilheteiras de O Padrinho. Num documentário de Kim Aubry produzido para a edição em DVD comemorativa dos 35 anos de O Padrinho, Robert Evans deixou uma pequena lição moral sobre as atribulações desses tempos cinematograficamente fascinantes: "Francis é alguém totalmente individualista e totalmente original. Discordámos muitas vezes, mas são as discordâncias que fazem as coisas funcionar."

dnot@dn.pt

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