O napolitano d'Os Maias renasce num romance da napolitana de Lisboa

O Tancredo de Eça ganha uma nova vida como Tancredi no mais recente livro de Paola D'Agostino, italiana que há mais de duas décadas se deixou encantar pela língua portuguesa e depois por Portugal, com Lisboa a tornar-se a sua casa, embora nunca deixando de visitar a Sapri natal, vizinha da Nápoles onde se formou. Tancredi, o Napolitano surpreende e é mais do que uma mera revisitação d'Os Maias, obra-prima que homenageia.

Sem Tancredo, o napolitano por quem Maria Monforte troca Pedro da Maia e foge de Portugal com a filha deixando o outro filho pequeno para trás, não teria havido a brusca separação dos irmãos, os futuros amantes incestuosos centrais n'Os Maias. Ora Tancredo ganhou uma vida para além da obra-prima de Eça de Queiroz através da imaginação de Paola D'Agostino, italiana que chegou a Lisboa em 1998 para um Erasmus, confirmou a paixão pela língua portuguesa que começara a estudar em Nápoles e agora, após mais de duas décadas a viver por cá, publicou o seu Tancredi, o Napolitano, já editado em Itália.

Paola trabalha na embaixada italiana, no belíssimo Palácio Pombeiro, e a nossa conversa é perto, no Jardim do Campo dos Mártires da Pátria. Nem de propósito, um restaurante italiano, o La Villa, acaba de abrir neste recanto de tranquilidade da capital portuguesa e sentamo-nos na esplanada, enquanto ouço o percurso tanto da escritora como do livro.

"Se o Tancredo do Eça é credível como italiano? Sim, claro. O Tancredo do Eça é incrivelmente credível! Sobretudo fiquei fascinada com a extraordinária capacidade de síntese de um romancista genial, que concentra num esboço fugaz como a figura do napolitano um enorme conhecimento sobre a história da Itália e da Europa. O personagem de Eça era a síntese do Ressurgimento italiano, do revolucionário exilado que passa por Lisboa a caminho da Inglaterra, com a ajuda da Carbonária espanhola, como já outros liberais italianos tinham feito. O Guilherme Pepe, por exemplo. E a chegada do napolitano n'Os Maias é introduzida por um presságio: Pedro e Maria, no início do namoro, partem para Itália, atravessam o país com destino a Nápoles ("o mole país de romanza", diz Eça) mas quando chegam a Roma, Maria resolve mudar o rumo da viagem e ir ver Paris...", afirma Paola, enquanto bebe um limoncello, tal como eu. Aproveito para explicar que a trato por Paola por a conhecer há muitos anos, basta dizer que ao serviço da embaixada já me serviu de tradutora para figuras como o diretor dos museus de Florença, pois o meu italiano é limitado, apesar das incursões ocasionais pelos cursos do Instituto Italiano de Cultura.

Para entrar n'Os Maias e revelar algo que Eça não mostrou aos leitores Paola teve de ter coragem. Até pela necessidade de compreender uma época e um país diferentes, uma Lisboa também com geografia e toponímia bem distintas das atuais. "No início foi um instinto compulsivo, parti para uma viagem atrás do Tancredi - o meu é com i - que me consentiu viver na Lisboa do século XIX. O Chiado era outra coisa, a Almirante Reis também. Há uma camada secreta da cidade que é o lugar da literatura. Nesse espaço, a vida tem outras dinâmicas, outro ritmo. Viver na cidade da literatura é ser estrangeiro, sempre, e ao mesmo tempo habitar os lugares com mais força, mais intensidade", confessa Paola. Para logo acrescentar: "Também foi uma viagem pela história de Itália, de um momento e de um lugar precisos que afinal podiam constituir uma paisagem exemplar da história coletiva. Mergulhei num mundo em revolta, a escrita era o meu escafandro."

A forma como Os Maias entraram na vida de Paola merece destaque, até porque na explicação entra um grande jornalista já falecido, que então trabalhava na NS, revista de sábado do Diário de Notícias: "Em 2006 a Fenda publicou o meu primeiro livro, Largo das Necessidades, e fui entrevistada por Torcato Sepúlveda. A dada altura o Torcato pergunta-me "Já leu Os Maias?" Nesse tempo só me interessavam os autores contemporâneos e não, ainda não lera Os Maias. Tanto que quando a reportagem saiu, com o título "A nossa napolitana", nem percebi a citação. Mais tarde, quando ia sair o meu segundo livro, Este Frio e Outras Histórias de Amor (Fenda, sempre), quis chegar preparada ao encontro com a crítica e fui ler Os Maias, finalmente. Logo no início do romance, encontrei o napolitano. Entretanto o Torcato falecera. Achei que lhe devia uma resposta, mas agora só podia ser pela escrita, o único universo onde podemos dialogar com os mortos, encontrá-los num plano paralelo ao da cidade real. Por isso o livro é dedicado à pergunta do Torcato Sepúlveda."

O limoncello está ótimo e pede outro e entretanto Paola, curiosa sobre a receção em Portugal a Tancredi, o Napolitano, conta que, para surpresa sua, a edição original do livro em 2018 esgotou em Itália: "Foi publicada por uma editora independente que se dedica principalmente aos autores lusófonos, a Vittoria Iguazu Editora. Não estávamos à espera de que esgotasse, porque é a típica obra a que hoje se chama de livro literário, uma definição que por si é absurda. Mas um livro literário tem poucas hipóteses de ser lido, dizem os gurus do mercado. Portanto o livro teve boa receção. Foi lido, foi partilhado. E teve uma belíssima recensão do professor Manuel Simões, que realça a dialética entre distopia e utopia no romance."

A autora de Tancredi, il Napoletano (título original) nasceu em 1975 em Sapri, uma pequena cidade do sul de Itália, na costa de um parque natural chamado Cilento, descrito como "maravilhoso" pela própria, o que logo faz desejar a visita. "Portanto cresci na província, à beira-mar, contingência geográfica que considero um grande privilégio. No fundo, a primeira lotaria com que nos deparamos, ao nascer, é a geografia", sublinha Paola, cuja condição de napolitana, note-se, se explica não só por Sapri ficar na Campânia, região cuja capital é Nápoles, como pela vivência enquanto estudante nessa cidade Património da Humanidade e capital de um reino até ser anexada em 1861 à Itália unificada e até hoje com personalidade muito própria.

E foi em Nápoles que começou a a estudar Português, na Universidade L"Orientale. "Era um lugar cosmopolita onde se ensinavam as línguas de todo o mundo. No primeiro ano optei pela Literatura Russa, deu para ler os clássicos mas depois percebi que não me mudaria para Moscovo. Decidi então procurar outra língua, visitei várias aulas e quando cheguei ao português ouvi um som que me lembrava o dialeto do meu pai. Estava feita a escolha. A primeira experiência em Portugal foi o Erasmus. Fatal. Um dia vi exposto no corredor da Faculdade de Letras de Lisboa um poema do Alberto Pimenta chamado Alfa e Ómega. Acabei o curso e pedi logo uma bolsa de investigação para regressar a Lisboa estudar o Pimenta, orientada por Maria Lúcia Lepecki. E aqui estou!", conta a autora de um romance inspirado n'Os Maias e que tem tudo para cativar os apreciadores do escritor, mas que vale também por si só, fazendo-nos entrar numa atmosfera muito própria de meados do século XIX tanto portuguesa como italiana. E o próprio Tancredo, ou Tancredi (e não se trata de um pormenor isto da terminação em o ou em i, como descobrirão os leitores), é uma personagem à qual Paola dá uma forte densidade.

É numerosa a comunidade italiana em Portugal, alguns famosos como Carlo Greco, cientista na Fundação Champalimaud , ou Luciana Fina, realizadora. Muitos são fluentes em português, mas Paola sempre me impressionou com o à-vontade com que fala a língua que começou a aprender há 23 anos na L'Orientale. E por isso, sabendo que esta edição pela VS (a nova editora de Vasco Santos, da Fenda) tem tradução de Vasco Gato (excelente), pergunto-lhe para quando um romance escrito na língua que também tornou sua, mas a resposta é cautelosa: "Em português só tenho publicado contos, crónicas e alguma poesia, mas um romance seria um desafio enorme. Na língua portuguesa ando em bicos de pés, só escrevo quando faz sentido, quando acontece encontrar-me no meio de algo que nasce. Com os livrinhos de poesia que publiquei, aconteceu que os editores me convidaram e eu aceitei o convite. Foram coincidências felizes, editoras que amo como a Douda Correria e A Tua Mãe, já extinta. E depois essa sensação de passo incerto, como andar na neve, cria uma língua-sopro que é mais propícia à poesia do que à prosa. Talvez."

Para fim de conversa, neste 2021 em que se assinalam os 700 anos da morte de Dante Alighieri, autor de A Divina Comédia, obra magna da literatura italiana, procuro o conselho de Paola para um livro que, em Itália, seja de alguma forma comparável a Os Maias, como retrato quase intemporal da sociedade, e esta não hesita: "O nosso clássico intemporal é Os Noivos, de Alessandro Manzoni. A propósito do livro, Pasolini escreveu que os personagens d'Os Noivos, muito mais do que os de Dante ou de Ariosto, tornaram-se imagens codificadas como as cartas do baralho, figuras simbólicas a quem se atribui instintivamente um significado, um valor que é também ético, e fixadas para sempre na paisagem cultural italiana. Um grande fresco, com o destino de todos os livros de leitura obrigatória: ser odiado por muitos na adolescência, ser relido com entusiasmo e surpresa na idade adulta."

leonidio.ferreira@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG