O Falcão Manteiga de Amendoim ou a utopia de ser lutador de "wrestling"

Eis um título francamente desconcertante: O Falcão Manteiga de Amendoim encena uma aventura, entre o realismo e a fábula, centrada num jovem com síndrome de Down.

Um filme que se intitula O Falcão Manteiga de Amendoim (tradução literal do original: The Peanut Butter Falcon) não será, por certo, um objeto realista. Ao mesmo tempo, a sua história lida com uma anomalia genética muito real. Dito de outro modo: Zak, personagem central, é um jovem com síndrome de Down que alimenta o sonho de participar nos tradicionais combates de luta corpo a corpo ("wrestling") em que assumirá, precisamente, o cognome bélico de Falcão Manteiga de Amendoim.

Há que reconhecer que a dupla de realizadores, Tyler Nilson/Michael Schwartz, escolhe a via menos óbvia para tratar o argumento de que também são autores. Por um lado, a odisseia de Zak (Zak Gottsagen) possui as marcas de um inevitável desencanto: ele é um homem de 22 anos, sem família, que apesar dos esforços de Eleanor (Dakota Johnson), responsável pelo seu acompanhamento, não desiste de fugir da instituição que o acolheu, na demanda da sua utopia de lutador. Por outro lado, o encontro com Tyler (Shia LaBeouf), um pescador de espírito aventureiro envolvido em atribulações mais ou menos violentas, vai revelar-lhe um mundo cujas aparências parecem corresponder à satisfação do seu sonho.

As singularidades de O Falcão Manteiga de Amendoim levaram alguma crítica americana a evocar a referência do escritor Mark Twain (1835-1910), porventura justificada pelas semelhanças que podemos encontrar entre os cenários naturais do Mississippi, emblemáticos dos seus livros, e os locais da Carolina do Norte em que decorre a ação. Convenhamos que não há nada no filme que o aproxime das maravilhas da escrita de Twain. Em qualquer caso, há que reconhecer que Nilson/Schwartz têm o mérito de procurar uma dimensão poética da aventura que, em anos recentes, tem vindo a ser metodicamente dinamitada pela histeria técnica de muitos filmes de super-heróis.

Nunca seria fácil sustentar este ziguezague entre as questões afetivas e sociais que a personagem de Zak não pode deixar de suscitar e o espírito libertário de uma fábula que, com desarmante candura, só quer proclamar a velha máxima "tudo é possível". Seja como for, no plano narrativo, O Falcão Manteiga de Amendoim deixa a ideia simples, mas essencial, de que é possível tratar o síndrome de Down sem ceder a clichés dramáticos ou moralistas.

* * Com interesse

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