O estardalhaço de Rocketman/Elton John marcou o arranque de Cannes

A 72ª edição de Cannes ainda está a "ressacar" com o impacto da estreia de Rocketman, o musical sobre a vida de Elton John. Passou fora-de-competição e foi aplaudido com emoção.

A vida de sexo, drogas e rock n' roll de Freddy Mercury deu um filme para a família, Bohemian Rhapsody, um dos maiores êxitos de sempre em Portugal. Este Rocketman, fantasia musical sobre a vida de sexo, drogas e rock n' roll de Elton John, é realizado por Dexter Fletcher, um dos realizadores de Bohemian Rhapsody, mas é tudo menos para a família - tem sexo gay e evita o playback. Uma espécie de aproximação anti-karooke que documenta a ascensão, queda e ascensão outra vez de Elton. Usando as canções de Taupin & John como pretexto (não cronológico) para contar a sua biografia, o filme foca-se na infância do cantor e a forma como o divórcio dos pais o marcou, bem como a amizade com Bernie Taupin, o autor da letras das suas músicas, não esquecendo como a sua carreira arrancou após um concerto em Los Angeles.

Depois, Dexter Fletcher inventa números musicais que põem o espetador na cabeça de Elton: a relação com as drogas, o modo como não se sentia amado pelos pais, a fama e o mergulho na homossexualidade. Mas o que é curioso nesta extravagância é a sua imaculada vontade de entrar pela música adentro em números de musical da Broadway onde os atores cantam e dançam. Para o bem e para o mal, a fórmula "kitsch" do processo consegue um efeito de "delírio". Às tantas, a câmara abraça o lado emocional desalmado da coisa e é difícil não ser contagiado por toda aquela espampanância, mesmo quando Taron Egerton exagera numa composição sempre em "esforço".

Em Cannes, o filme teve a habitual ovação de pé, ao qual não terá sido alheia a presença de Elton John, um dos produtores do filme. Talvez por isso, é lícito pensar-se que Rocketman, mais do que um filme desta moda dos "biopics" comerciais, é um objeto que cruza as vontades da indústria musical e realça uma hipótese de celebração lucrativa da marca Elton John. Igualmente, não foi por acaso que na praia do Hotel Carlton, o próprio Elton John e Taron Egerton fizeram questão de atuar na festa do filme.

Dê por onde der, Rocketman será sempre um acontecimento deste festival, tendo dividido as opiniões. Apesar dos seus defeitos, é um musical com uma complexidade surpreendente e alguns valores coreográficos notáveis. Chega a Portugal já para a semana.

E foi também numa praia de Cannes que a indústria celebrou o "cash rebate" que o ICA e o governo português propõem a quem quer filmar em Portugal. Tratou-se de um cocktail que juntou uma considerável multidão de produtores e investidores estrangeiros. Os 30% de "cash rebate" estão realmente a atrair muitas produções internacionais e a Millennium já anunciou que The Legend of Sindbad, "blockbuster" sem estrelas de renome, será filmado em território português muito em breve.

Curiosamente, a mesma Millennium que tem em Cannes o novo Rambo (será só mostrado um excerto na homenagem que o festival tem prevista para Stallone), não foi muito generosa com o distribuidor português do filme, tendo pedido um valor exorbitante para a entrevista com o próprio Stallone. O valor foi tão alto que Portugal ficou de fora das entrevistas com o lendário ator.

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