O esquilo de Bordalo II em Dublin destruído para dar lugar a um hotel

A obra foi criada há dois anos a partir de lixo recolhido nas ruas da capital irlandesa, parte da série de animais urbanos que tem espalhados por várias cidades.

O esquilo vermelho que o artista português Bordalo II criou há dois anos em Dublin, com o lixo recolhido das ruas da capital irlandesa, foi destruído esta sexta-feira. No seu lugar vai nascer um hotel.

Estava previsto que a obra, parte da série de animais urbanos que o artista criou em várias cidades, fosse retirada da esquina de Tara Street e do Georges Quay na próxima semana. Mas Bordalo II disse esta sexta-feira ao DN que a demolição foi antecipada.

"Estava combinado com eles retirar só a dia 6, mas eles anteciparam as coisas para não haver manifestações e pessoas chateadas", contou Artur Bordalo, que assina as obras Bordalo II (é neto do pinto Real Bordalo, conhecido sobretudo pela sua obra em aguarela e óleo, mas que foi também desenhador do Diário de Notícias).

No change.org havia uma petição para travar a retirada do esquilo vermelho. "O mural não é apenas lindo, mas também altamente simbólico. É adorado por turistas e pelos locais e chama a atenção para os problemas ambientais. Tirá-lo seria uma grande perda", lê-se no texto. Pediam-se 2500 assinaturas e já ultrapassava, esta sexta-feira, as duas mil.

Só que a demolição avançou. "A ideia era ter levado a peça para outro sítio, porque era uma peça icónica, mas eles como estavam cheios de 'pressinha', retiraram a peça antes do tempo para não haver conversa e ficar já resolvido à maneira deles", disse o artista ao DN. "Cortaram a peça toda e mandaram tudo para o chão", explicou.

"Se tivesse sido planeado com tempo, se eles tivessem tido essa abertura, nós mandávamos alguém da nossa equipa desmontar com calma e montar noutro sítio. Agora não há nada a fazer", acrescentou.

Nas redes sociais há imagens que mostram a destruição da obra.

"Nada dura para sempre", lembrou o artista português. "Acho que o facto de o lixo passar a ser alguma coisa durante um tempo e depois passar a ser "lixo" outra vez, acho que faz sentido", indicou. "Esta é uma situação mais pontual porque havia a possibilidade de se transferir a peça, uma coisa que não tinha sido feita antes e que até era engraçado de fazer. Mas pronto, já está, já está."

Bordalo II explicou ainda que não é contra o progresso. "Era um sítio que estava abandonado e faz sentido que seja alguma coisa, seja um hotel ou o que for. É melhor do que não ser nada", disse. Mas ainda assim não disfarça o desagrado com a situação: "O único problema foi o pisar o lado cultural, em vez de se fazer a coisa de uma forma mais planeada. Era só uma questão de bom senso."

Partes de carros, televisores, bicicletas, arame farpado ou material de escritório foram usadas na criação do esquilo vermelho, ao longo de cinco dias em abril de 2017.

Em 2017, explicava numa entrevista ao DN: "A ideia que eu tenho é de criar imagens das vítimas da poluição e da ação do homem exatamente com aquilo que os destrói, com aquilo que os mata. O mundo está a ser destruído e eu estou a criar imagens com aquilo que o destrói, com aquilo que destrói a natureza, que a vai degradando."

A criação do esquilo vermelho foi acompanhada pelos realizadores irlandeses Trevor Whelan e Rua Meegan, que fizeram o documentário "Bordalo II:A Life of Waste".

Rua Meegan partilhou esta sexta-feira no seu Instagram uma imagem do esquilo destruído, denunciando mais um exemplo da cultura de Dublin a ser destruída para dar lugar a mais um hotel genérico. "O Grupo Ronan arrancou o Esquilo Vermelho esta manhã sem aviso, apesar do facto de termos, numa reunião na semana passada, concordado que seria tirado com cuidado a 6 de agosto, para podermos tentar encontrar uma nova casa e filmar a ser retirado. Foi cortado hoje, numa hora, e atirado para o entulho da construção", escreveu.

"A arte urbana não é suposto durar para sempre, é parte da sua beleza, mas uma peça como esta tinha-se tornado tão popular com as pessoas da cidade, e os turistas, que merecia mais respeito do que aquele que teve hoje", indicou.

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