O documentário é uma arte do tempo

Eis uma grande revelação: Time, de Garrett Bradley, aborda a vida de uma mulher que tenta libertar o marido da prisão e está nomeado para o Óscar de melhor documentário.

Há um valor da actualidade cinematográfica que importa não menosprezar: a possibilidade de acedermos a obras documentais em destaque na corrida dos Óscares que, há poucos anos, estavam quase sempre ausentes dos circuitos tradicionais. Refiro-me, concretamente, a uma espantosa descoberta, disponível no Prime Video: Time, de Garrett Bradley, nomeado para melhor documentário (outro dos nomeados na mesma categoria, A Sabedoria do Polvo, é também comentado nestas páginas).

Não se trata de atrair qualquer maniqueísmo que agrave a "guerra" entre salas escuras e plataformas de streaming - creio que não será necessário insistir no facto de haver muitas e muito sérias razões (comerciais e culturais) para aguardarmos com expectativa a reabertura das salas.

A questão é outra, coloca-se no plano da linguagem. Ou melhor, das linguagens com que passámos a construir a perceção do mundo à nossa volta. Porquê? Porque Time é, justamente, um filme sobre o modo como - através das imagens - lidamos com os eventos que, de forma consciente ou não, na intimidade ou à distância, definem a nossa existência.
100 horas de vídeo

Qualquer sinopse de Time é insuficiente, porventura equívoca. Este é o retrato de Sibil Fox Richardson, uma mulher empenhada em sensibilizar as instituições da justiça no sentido de libertarem o marido, Rob, preso na penitenciária do estado de Louisiana. Sibil e Rob, com seis filhos, foram julgados pelo assalto a um banco - ela cumpriu uma pena de três anos e meio, ele foi condenado a 60 anos de prisão.

Há todo um enquadramento económico, social e político que ecoa nos dados apresentados. Ainda que sem procurar a nossa piedade, Sibil recorda que o assalto, saldado pelo roubo de cinco mil dólares (cerca de 4.300 euros), foi feito em momento de absoluto desespero familiar, agravado pelo falhanço de um negócio em que tinham investido as suas economias. Ao mesmo tempo, a sua militância vai apontado os sinais de indiferença de alguns responsáveis do sistema judicial e, sobretudo, o tratamento desigual a que, em muitas situações deste género, são votados reclusos e agregados familiares afro-americanos (como é o caso).

Ainda assim, tudo isso não basta para compreendermos a especificidade da realização de Bradley. Ela demarca-se, ponto por ponto, do dispositivo "televisivo" que consistiria em colocar pessoas à frente de um microfone que, com maior ou menor pertinência, nos explicariam a complexidade do que está em jogo, eventualmente aplicando materiais de arquivo para "ilustrar" os temas em debate.

Não que tal dispositivo não possa produzir resultados interessantes - escusado será lembrar que a história do documentário (cinematográfico & televisivo) está cheia de muitos e sedutores contrastes. Acontece que, desta vez, os materiais de arquivo não são "jornalísticos", uma vez que provêm do interior do próprio universo familiar do casal Richardson: são fragmentos de vídeos caseiros que, ao longo de 18 anos, Sibil registou com os filhos para ir enviando ao marido.

Na prática, Bradley teve acesso a cerca de 100 horas de vídeo. Estava a preparar uma curta-metragem sobre o caso de Rob Richardson, sendo a própria Sibil que, um dia, de modo casual, lhe passou um saco com dezenas de vídeos em formato mini-DV: "Foi qualquer coisa do género: "Oh, isto pode ser-lhe útil"...", explicou Bradley (em declarações a The Wall Street Journal, 1 out. 2020). Tomada a decisão de tratar tudo em imagens a preto e branco, a curta transformou-se em longa-metragem e, em janeiro de 2020, arrebatou o prémio de realização na secção de documentários do Festival de Sundance - foi a primeira vez que tal distinção foi atribuída a uma mulher afro-americana.
Contra o Big Brother.

O trabalho que gera um filme como Time é o oposto da obscenidade corrente do Big Brother televisivo. Não se trata de transformar as pessoas em símbolos compulsivos da "intimidade", mas sim de dar conta da complexa articulação do privado e do público, ou melhor, nestas circunstâncias, do espaço familiar dos indivíduos e do sistema legal de cidadania. Daí também o facto de o título celebrar o "tempo": a saga de Sibil, os momentos registados nas suas imagens, tudo envolve uma duração, ora emocional, ora institucional, sempre política.

Na trajetória da realizadora, Time surge como um prolongamento de títulos anteriores como Alone (2017) e America (2019), também apostados em refletir as convulsões da identidade afro-americana no passado e presente da história dos EUA. O primeiro faz o retrato de uma jovem que, mesmo com a oposição da mãe e da avó, quer casar com um homem que está preso: foi produzido pelo New York Times (que também participou na produção de Time) e pode ser visto, em streaming gratuito, na secção de vídeo do site do jornal; o segundo, já exibido entre nós (no Curtas Vila do Conde), é uma espantosa montagem de documentos audiovisuais sobre a história dos negros dos EUA. Exemplos, afinal, de uma renovada inteligência do olhar documental.


dnot@dn.pt

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