O conto de Mia Couto que antecipava a tragédia do ciclone Idai

De como o velho Jossias foi salvo das águas é um conto do primeiro livro do escritor moçambicano Mia Couto, Vozes Anoitecidas. Um texto onde se fala da "chuva está a chover até os poços começaram cuspir".

De como o velho Jossias foi salvo das águas

I. Lembrança do tempo de antigamente

A terra estava a conversar com agosto e o velho Jossias, parado, escutava. Os meses estão todos no ventre uns dos outros, pensava ele. E adivinhava a chegada dos dias, suas roupas e cores. Sabia da chegada da chuva, pressentia as suas gotas timbilando a areia.

- A água vai andar ler o chão. Vai lamber as feridas da terra, parece um cão vadio - dizia o velho.

E voltava ao silêncio, os olhos no alto a medir as nuvens, por precaução.

- Parece é só metade da chuva. Há de caber bem na terra.

Enquanto profetizava, amoleciam-lhe os olhos de promessas, uma procissão de verde a tomar-lhe conta dos sonhos.

- O milho vai-me tratar por senhor.

E era já gente grande, sorrindo do gozo antecipado da fartura. Assaltou-o a recordação da grande fome de há vinte anos. Foi-se rendendo ao sono, agora que o pensamento se deitara na sombra daquela lembrança.

Recordava-se bem: as cerimónias para pedir chuva sucediam-se em casa do régulo. As rezas eram palavras sem mais além: nem uma gota se convencera a descer. Durante mais três anos os velhos insistiram, conversando com os mortos que mandam na vontade da chuva.

Naquela manhã, logo cedo mataram o boi. As mulheres prepararam a aguardente do milho, o ngovo.

No cemitério os velhos pediam aos defuntos a licença da chuva. Depois das rezas, dariam de beber aos mortos deitando aguardente sobre as campas.

- Sou eu que vou levar as panelas do ngovo - ofereceu-se Jossias.

Deram-lhe a vaidade daquela entrega. Com respeito, ele partiu pela areia quente dos trilhos. No caminho, parou com pena do cansaço dos braços. Pesavam as panelas. O calor e a sede sopravam-lhe maus conselhos, barulhando convites.

Bebeu, fechando os olhos à voz da aguardente. Repetiu mais três vezes. Certeiro, o álcool começou a cacimbar a razão. As panelas sorriam-lhe, mornas e gordas. Parecem a Armanda quando dança a provocação que ela sabe, murmurava.

- Vocês? Vocês estão-me sacudir o sangue!

Falava devagarmente, enrolando as palavras sem que a cabeça entrasse naquele pensamento. A voz de Armanda avisava-o do castigo, endireitando-lhe o juízo que faltava. E ele, outra vez para as panelas:

- Meninas, vocês estão desgraçar minha vida. Provocar-me da maneira como assim? É melhor marrar mais outra vez as capulanas. Vou acabar o serviço que fui mandado.

Quis-se levantar mas era um peso. Bebeu mas era só metade: o outro tanto entornava-se pelo peito. Quando reparou, a aguardente tinha quase desaparecido. Restava um quase nada lá no fundo dos potes. Entrou em pânico: como explicar aos velhos? Como contar à aldeia que o ngovo se desviara do seu destino? Tinha que encontrar maneira de emendar a boca, fechar a desgraça que ela destapara.

Passou por um poço abandonado e meteu-se por dentro do escuro. Lá em baixo, havia uma réstia de água estagnada, à espera da sua esperteza. Acrescentada daquela água malcheirosa a bebida do milho voltaria a encher os potes de barro. Os mortos não notariam a diferença, o paladar deles está já esquecido dos saborosos pecados.

Moda os mineiros, pensou enquanto descia pelas paredes do velho poço. Estava suspenso pelas mãos, os pés a procurarem o fundo, quando, de repente, as paredes desabaram. Caíram pareciam o céu inteiro a desfazer-se em areia e pó, o peso do mundo a pisar-lhe no peito. Mãe, vou ficar aqui em baixo de embaixo, ninguém que me vai encontrar, chorava Jossias.

E ali ficou imóvel, soterrado, dormindo no subúrbio da morte, expulso da luz e do ar. Horas de tempo, pensou no nunca mais. A lembrança de Armanda veio socorrê-lo. Agarrou-se à frescura da recordação, aquele rosto era a sua última crença.

E os outros quando viessem procurá-lo? Haviam de o adivinhar subterrâneo, toupeirando a réstia de vida que lhe faltava? Aguentariam descascar a terra até lhe encontrar?

Mas mesmo a esperança dele já não tinha vontade. Ser salvo, para quê? Beber areia, afundar-se num poço, despedir-se do mundo, tudo isso, não era nada comparado com o que vinha a seguir. Todos lhe negariam desculpas. Mesmo Armanda.

Quando saísse ele havia de escolher o longe, viver na distância, envelhecer sem nome nem história.

II O azul todo das cheias


É o quê? Deus já desistiu dos homens? Não se importa da desgraça da terra?

A chuva está a chover até os poços começaram cuspir. Mesmo os sapos e as cobras já não têm casa. E o velho pergunta:

- Por que não descansas sofrimento? Depois de depois voltas mais outra vez...

Mas o destino da morte é ser sempre muita. E chove mais, vão-se molhando as tardes de Novembro, o pilão e a esteira a pingarem juntos no pátio.

O velho está sentado na sombra dos gemidos, só os seus suspiros sonham. O resto é resignação que conspira. Pode-se assim tanto morrer?

Mas ele aprendera a espalhar na sua alma o remédio do há de vir. E consolava-se:

- A farinha há de me visitar, eu sei.

Lentamente, as chuvas iam pousando em todo o lado. Os rios agarravam-se com força ao céu e já nenhum xicuembo sabia desamarrar aquela água. Talvez que o sol, do quente que lhe sobrava, levasse com ele todo aquele azul. Mas não, o sol escorregava pelo zinco, sem beber quase nada. Passava com a cerimónia de um estranho.

- A boca que o sol tem já não chega - lamentava o velho.

III. O salvamento


A água crescia, as coisas e os bichos era só nadarem. Quando tudo em volta era só fumo da água apareceu um barco a motor que trazia dois pretos e um branco. Foi este que falou. As coisas que disse foi no respeito que nunca ouvira. Que palavras eram essas, afinal? Sempre foram asneiras a subirem-lhe no nome, a língua dos portugueses a disparar-lhe na família. Agora, essa língua não tinha maneira de patrão?

- Deve ser maneira de me levar longe da machamba, afastar-me das minhas coisas.

Ou parece não. Os homens queriam que ele subisse para o barco, vinham salvá-lo.

O velho coçou a cabeça, arrastando a mão de trás para a frente.

- Ir onde, se depois da água é só água? Não estão ver que Deus nos quer peixando?

Os pretos falaram atrás, mesma coisa, as pessoas que não viessem no barco haviam de morrer, era com certeza. O velho num sorriso incrédulo:

- Isto é salvar-me? Salvar de quê?

E o velho lembrava-se do desastre nas minas do John, o fogo a espalhar desgraça nas galerias, a devorar vidas e corpos, sim, aquilo era morrer. Quando veio a brigada de salvamento ele sentou-se como uma criança perdida, a chorar. Mas os homens da brigada não pararam para o socorrer, prosseguiram à procura de outras vidas mais valiosas. Um outro mineiro puxou-o pelos braços e gritou-lhe:

- Queres ser lenha, homem?

Lenha? A madeira é lenha antes mesmo de arder. Ser lenha, compreendeu, é morrer assim só, sem ninguém para nos chorar. Só o seu número seria riscado na lista dos contratados. Mas o fumo entrou-lhe pela tristeza e os pulmões ordenaram que procurasse outro lugar. Um homem salva-se se é vontade da sua vida. Os outros são só o alimento dessa vontade.

E assim ficou de estar vivo até hoje.

Salvaram Jossias por duas vezes. Salvaram-no da morte, não o salvaram da vida. Para os outros, para os que o tinham ajudado, foram prémios, fotos no jornal. Ninguém falou que ele, Jossias Damião Jossene, continuava igual como antes, encostado à miséria.

- Salvar um alguém deve ser serviço completo - concluíra. - Não é levantar a pessoa e depois abandonar sem querer saber o depois. Não chega ficar vivo. Palavra da minha honra. Viver é mais.

E assim se decidira Jossias sobre o assunto da morte, não-morte.

Agora, neste caso, mudar para onde? A seguir é só água, o lugar onde saiu esse barco também é água. Mesmo isso já não é barco, é uma ilha com motor. Se é para morrer então prefiro esta morte que veio nadar até à minha casa. Esta terra aqui em baixo já tem as minhas mãos, a minha vida está enterrada neste chão, só falta agora o meu corpo, só.

A equipa de salvamento impacientava-se com a conversa do velho. O gajo o que é que quer?, perguntava o branco. Os outros não traduziam, riam-se apenas. O velho é maluco, vamos carregá-lo à força. Não temos tempo, há outras pessoas para recolher, o velho já perdeu o juízo.

- Deixem-me ficar, não posso morrer longe da minha vida.

Puxaram-no pelas axilas, sentaram-no no banco traseiro do barco e cobriram-no com uma manta.

- Não tens família?

Era o branco. Família? Talvez vocês, agora, são a minha família, aguentaram esta maçada de salvar-me. Apeteceu-lhe responder mas estava a tremer de mais.

- Perguntem-lhe na vossa língua, se a família não está por aqui, nas redondezas.

Perguntaram-lhe. Demorou a responder, queria usar bom português. Agarrou-se com força à velha manta e pôs os olhos naquele mar em volta como se inquirisse pelas coisas que ele cobria.

- Dentro de água não está frio. Porquê não me deixam lá?

Os outros riram-se. Colocaram-lhe mais uma manta sobre os ombros e passaram-lhe uma chávena de chá bem quente. Pelos dedos magros, segurando trémulos a chávena de alumínio, subiu-lhe um estranho calor que não sabia traduzir. E veio-lhe a vontade de ficar para sempre quase naquele barco. Desejou que a viagem não tivesse fim como se o salvassem do tempo e não das águas, como se o tivessem liberto não da norte mas da sua terrível e solitária espera.

Com olhos de menino, fixou o escuro engolindo a terra, a tarde anoitecendo tudo.

A mentira da noite é matar o cansaço dos homens, pensou enquanto fechava os olhos.

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