O amor na cabeceira da morte

É preciso teste Covid para entrar nas salas para ver este grande filme francês? Que venha ele, Correu Tudo Bem, de François Ozon, merece tudo isso e muito mais. Um dos filmes maiores da seleção oficial de Cannes.

A morte em fora de campo. Desígnio natural para um filme que convoca uma reflexão sobre a nossa dignidade perante o último suspiro. Ou o suicídio assistido encenado com as convenções do mais elegante melodrama da tradição francesa, sempre palpitado segundo um humor que casa bem com momentos mais negros e trágicos. François Ozon encontrou nesta história verdadeira uma maneira de experimentar esse balanço delicado entre gravidade e ligeireza, entre o riso e o aperto no coração. Porque perante a perceção do fim pode haver espaço para o lugar da celebração da vida. Uma celebração que pede um distanciamento que envolve a aceitação do nosso próprio escárnio perante a morte.

Mais do que propor um debate sobre a eutanásia e o direito de cada um partir com dignidade, Correu Tudo Bem prefere explanar uma situação e com ela abrir a possibilidade de uma série de questões, partindo do princípio inabalável de que a condição humana perante a morte não é um paradigma geral mas sim um caso de convicção individual. Ou seja, é tudo menos militante, funcionando com uma simplicidade e sofisticação narrativa envolventes. Ozon pretende sobretudo estar ao serviço do livro que adapta, a autobiografia da escritora Emmanuèle Bernheim na questão do suicídio assistido ao seu pai, um idoso que depois de um AVC causador de deformação de metade do rosto e após severas limitações físicas decide pedir à filha que o ajude na concretização de um desejo: o suicídio assistido, algo só possível se atravessar a fronteira para a Suíça. Emmanuèle, muito relutantemente, com a ajuda da irmã, aceita aceder à vontade do pai como ato derradeiro de amor. E é partir daí que a adaptação ao cinema encontra um jogo lúdico (mas sempre sóbrio) nesse circo ou teatralidade das peripécias para levar o pai para a Suíça sem que as autoridades percebam e contra a vontade das primas ferozmente judias e do seu amante gay problemático.

Além de ser um daqueles filmes que vai crescendo ao longo da sua duração, Tous S"est Bien Passé consegue ser tudo ao mesmo tempo: sereno, profundo, leve e grave. Sem darmos por isso estamos ligados emocionalmente à relação desta filha e deste pai. E a masterclass da arte narrativa de Ozon consegue ainda proezas invisíveis: não só nos comove quando não estamos à espera, em especial a seguir a uma diabrura cómica do pai obstinado, como nos eleva como testemunhas de um caso da vida que de telefilme não tem nada mas do qual sobra uma transcendência inexplicável sobre o amor e a morte, neste caso sobre o amor e a...vida.

Depois, converte materiais de chantagem emocional em tratados de frieza muito prática para a história avançar, traduzindo as intenções de cinema para um rigor clássico muito santificado. Para isso, tem à disposição uma Sophie Marceau que se despe do seu glamour para servir a personagem - está de volta a atriz que era sempre, para o melhor e para o pior, vital no cinema do seu Andrzej Zulawski. E, ao seu lado, um gigante André Dussolier, o melhor veterano atual do cinema francês.

dnot@dn.pt

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