Nicole Kidman: "Identifiquei-me muito com a Lucille, pela forma como o Aaron a criou"

Chega dia 21 à Prime Vídeo um dos filmes que está nomeado nos Critic Choice Awards e Golden Globes, o novo de Aaron Sorkin, Being The Ricardos, um olhar profundo sobre o casal que criou I Love Lucy, Lucille Ball e Desi Arnaz. O DN esteve virtualmente na conferência do filme e ouviu Nicole Kidman a explicar como conseguiu este milagre de transformação.

Há um contraste gritante na conferência de imprensa virtual de Being The Ricardos à qual o DN teve acesso: Javier Bardem ao lado de Nicole Kidman difere na pose. O ator espanhol está tranquilo, sereno, enquanto que a australiana convoca um brilho, uma energia assumida. São eles os protagonistas de Being The Ricardos, o já muito nomeado filme de Aaron Sorkin sobre o casal Desi Arnaz e Lucille Ball, estrelas de I Love Lucy, a sitcom que parou a América nos anos 1950 e que iniciou um star system no qual os atores se tornavam produtores do seu próprio material. Com uma estrutura que remete para o "falso documentário" assistimos à semana em que se prepara um episódio importante ao mesmo tempo que a comissão de atividades anti-comunistas acusa a atriz de ser membro do partido comunista.

À parte da polémica sobre a escolha de Kidman para dar vida a Ball, Sorkin consegue outra vez um filme todo ancorado no trabalho dos atores e no peso da palavra. Um filme de argumentista, claro, mesmo quando a fórmula não segue uma narrativa clássica: a intriga anda de trás para a frente e tem movimentos laterais que expressam um fascínio pelos bastidores de Hollywood numa das suas épocas de charneira. E é pelo quadradinho de vídeo deste Zoom que vemos Bardem a sublinhar a excelência do guião de Sorkin: "É empolgante a maneira como Sorkin conseguiu reunir diversas componentes da vida deste casal. Está lá o casal artista mas também o homem e a mulher... Enfim, eram colegas ainda para mais. Para um ator é muito entusiasmante essa abordagem e, acredito, para o público também. Os detalhes que Sorkin aplica dão-nos uma bela ideia sobre a verdadeira identidade destes artistas". Por seu lado, Nicole, que também está nomeada aqui para o Golden Globe de melhor atriz dramática, prefere salientar o poder de Lucille Ball em Hollywood: "Ela foi única e pioneira na época! Naquela altura nenhum ator tinha a sua produtora, mas ela e o Desi tinham a Desilu. O que é incrível em I Love Lucy foi a maneira como era feito! As pessoas não imaginam como esta atriz conseguia ser genial na conceção dessa sitcom!! Era importante contar a sua história de vida. Being the Ricardos não é o biopic típico, dispensa a fórmula do nascimento à morte. Enfim, é um filme do Aaron Sorkin... ele reúne uma série de coisas no espaço de uma semana, é a sua forma de contar histórias. E de trás para a frente consegue resumir a essência dela".

Nic não consegue parar os elogios em torno do seu realizador e argumentista: "Mal recebi o guião e comecei a folheá-lo não consegui parar! Trata-se de um argumento extraordinário! Toda a gente deveria ler este guião, proporciona uma leitura tão boa".

Bardem, que também está nomeado para melhor ator nos Globes, encarna um Desi Arnaz com um swag cubano imperial, cantando e dançando em clubes noturnos enquanto tentava salvar o casamento com Lucille. " Descobri, enquanto fazia a minha pesquisa, que era alguém que tinha absoluta confiança em si mas que também nunca deixou de apoiar a mulher. O Desi lutou muito por I Love Lucy e tentava sempre ultrapassar cada obstáculo através do humor - era um tipo que gozava com tudo. Apesar de se levar a sério, não ficava preso às dificuldades e ao drama", revela.

Quanto a Nicole Kidman, é a própria quem reforça o pavor que este papel lhe deu: "Inicialmente, quando aceitei este trabalho, nem percebi naquilo que me estava a meter. Aceitei logo porque era uma grande oportunidade e porque estava a dizer sim a um guião do Aaron Sorkin... Lembro-me que devido à pandemia o meu encontro com ele foi através do Zoom e isso deixou-me entusiasmada! Uma semana depois, bateu-me! Quando estava ainda a dar os primeiros passos nos detalhes, como a voz, percebi que não iria conseguir. Comecei a pensar porque razão tinha dito sim!? Fiquei a desejar ter o talento necessário para interpretar a Lucille Ball.. Dei-me então a gritar por socorro! Felizmente, devagar, comecei a trabalhar muito e ainda tinha dois meses até às filmagens... Trabalhei de forma meticulosa e metódica: ouvi muitas vezes o som da sua voz, vi e revi os episódios de I Love Lucy. Não costumo criar as personagens assim, trabalho-as em geral através do seu interior. Mas identifiquei-me muito com a Lucille, sobretudo pela forma como o Aaron a criou. O truque, dizia ele por email - odeia falar ao telefone - era ir dia-a-dia e que não queria que fizesse imitações. Em geral, não queria que eu entrasse em pânico, confiava em mim. Houve uma altura em que propus mudar o meu queixo e disse-me logo: não quero saber! Depois, percebi que ganhei a personagem mal entendi a Lucy Ricardo da televisão, embora sejam ambas bem diferentes. Lucille Ball criou a Lucy Ricardo".

dnot@dn.pt

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