Não é bem Shakespeare, não é bem A Guerra dos Tronos, mas The King fascina

The King já está no menu da Netflix após ter sido lançado com estrondo no Festival de Veneza. Mais um filme que deveria fazer cinema e só chega por streaming. Timothée Chalamet é um rei trágico e triste numa obra a polarizar...

Desde que passou no Festival de Veneza que o novo filme do australiano David Michôd não para de dividir opiniões. Todo o cinema deste cineasta tem tido este efeito, sobretudo após esse inesquecível The Rover - A Caçada, de 2014. Agora, pega em factos históricos e mistura tudo bem regadinho com a peça Henry V, de Shakespeare, e apresenta este The King, com Timothée Chalamet e Robert Pattinson, um piscar de olho valente a um público que ficou formatado por batalhas com armaduras de lata depois de A Guerra dos Tronos.

A Netflix tinha esperanças infundadas de que pudesse estar na temporada dos prémios, mas toda essa polarização cedo fez perceber que este épico histórico não conseguirá poder sonhar com Óscares e afins, mesmo quando nas redes sociais há quem defenda com unhas e dentes o filme. Na verdade, Michôd conseguiu um tratamento visual com uma opulência excêntrica que se entranha, cruzando uma austeridade moderna com uma ambição negra estrondosa.

A narrativa começa precisamente quando o jovem Príncipe Hal assiste à morte de Henrique IV, o seu pai tirano, um rei impopular. Mais tarde, já com a coroa, Henrique V lança-se à guerra contra a França depois de intrigas supostamente arquitetadas pela própria corte britânica. O guião de Michôd e do ator Joel Edgerton (um Falstaff diferente de tudo o que se viu) faz pela vida por desrespeitar factos históricos, criar um ritmo de linguagem shakespereana acessível e surpreender com desvios, o maior deles a própria função de Falstaff, que a dada altura passa de fanfarrão a brilhante estratega militar. Os eruditos do Bardo vão aos arames mas a ousadia tem um efeito provocador que condescende com a mistura desejada: comédia negra e o tal peso gótico.

The King tem ainda uma relação intrinsecamente cinematográfica com os elementos: do aproveitar dos cenários pesados, onde tudo parece ser cinzento e opressivo, às benesses de uma escala de produção que permite cenas de batalha que metem respeito. Fá-lo com uma cadência de planos onde não há pressas no ritmo e onde as sequências parecem ter uma força gravitacional mais do que simpática. Quem não entrar com o pé atrás, The King consegue sempre chamar a atenção. É claro que está consciente de que quer chegar ao público da moda, aqueles que veneraram a estética de A Guerra dos Tronos, porém nunca cai no comprometimento popularucho.

Se formos frios na análise, The King é ainda um objeto muito eficaz dos nossos dias: é linear do ponto de vista narrativo, tem a violência estetizada da ordem e é sempre generoso na firmeza do espetro da odisseia. Infelizmente, falta apenas ser uma obra de arte para tanta pompa e coragem na "traição" a Shakespeare. Depois, muito importante, David Michôd é novamente perito a tirar o melhor aos seus atores: o Delfim de Robert Pattinson choca com um sotaque que é explicado e gozado no próprio argumento, Joel Edgerton subtil no folclore do seu Falstaff e Sean Harris perfeito na frieza do seu vilão.

Mas os nossos olhos não saem do jogo de contenção de Timothée Chalamet, o novo menino querido de Hollywood, um ator que não engana: mesmo sem fazer nada... prende a câmara! Uma interpretação que assume o risco da fragilidade total, mais uma para confirmar o seu estatuto de ídolo. E não há cabelinho à tigela que o destrua.

*** Bom

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