Mulheres no campo de batalha

Mulheres curdas a combater os extremistas islâmicos: esta é a imagem robusta que As Filhas do Sol quer deixar. Mas além dela, o filme de Eva Husson é pouco mais do que boas intenções.

Com duas atrizes de calibre como o são Golshifteh Farahani e Emmanuelle Bercot, esperava-se que As Filhas do Sol fosse mais do que um discurso bem apresentado, com potencial mediático. Este drama de guerra com assinatura da francesa Eva Husson, que esteve em competição no Festival de Cannes de 2018, parte dos rostos endurecidos de ambas para contar a história de um valente batalhão de mulheres curdas que se juntaram no combate ao ISIS, depois de passarem por trágicas circunstâncias, desde a morte violenta de familiares ao rapto e escravatura sexual (de resto, o argumento do filme baseia-se em factos verídicos de 2015).

A personagem em primeiro plano, Bahar (Farahani), outrora advogada, é a líder natural desse batalhão, a figura feminina mítica que se impõe na paisagem como uma pintura de mágoa humana agarrada à sua arma; a outra, Mathilde (Bercot), é uma repórter de guerra veterana, que também tem as suas dores de alma familiares, mas que está ali para fotografar e registar a narrativa de quem passou a dedicar-se a uma causa comum - tão nacionalista quanto íntima -, manifestamente com mais coragem dos que os soldados homens. As duas vão estreitando laços à medida que o estado permanente de vigilância e ataque se torna a convivência "normal" dos dias, mas, apesar de as vermos tão munidas de um quadro psicológico, temos dúvidas até que ponto a lente de Husson se concentra nestas mulheres enquanto gente de carne e osso. Os clichés dão conta do recado.

Há várias coisas que afastam este As Filhas do Sol do valor concreto do seu discurso político e feminista. Desde logo, uma tendência para puxar a frontalidade dramática ao extremo, forçando a barreira que separa a franqueza do artifício "cinematográfico". Um grande equívoco. Depois, embrulhado numa intrusiva banda sonora, o filme vai acumulando a desgraça das mulheres e, de tempos a tempos, intercalando-a com os seus gritos de guerra e palavras de ordem, como que a erguer um monumento de bravura feminina... sem um pingo de subtileza.

O busílis da questão reside aí: nada disto contribui para o que parecem ser as boas intenções da realizadora, a saber, homenagear e destacar o papel destas mulheres, mostrando ao mundo a sua dignidade no mais inóspito dos lugares e conjunturas. Pelo contrário, a ideia de força implícita na narrativa está minada a cada momento - mesmo que Farahani e Bercot tenham uma presença segura e, por vezes, bastante impressiva.

* Medíocre

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