Morreu Nicette Bruno, pioneira das novelas da Globo

A atriz, com 87 anos, vítima de covid-19, estava internada nos cuidados intensivos de uma unidade de saúde do Rio de Janeiro.

Foi pela novela Rainha da Sucata e pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo que a atriz Nicette Buno se tornou familiar para muitos portugueses.

Morreu neste domingo, numa clínica do Rio de Janeiro, vítima de covid-19. Com 87 anos, desaparece uma atriz que foi pioneira das telenovelas da Globo - mas que nunca deixou de fazer teatro ao longo da vida.

Teatro que fez inclusivamente em Portugal. Nicette Bruno e o seu marido, Paulo Goulart, estiveram em 2009 em Portugal numa peça da premiada autora francesa Yasmina Reza, O Homem Inesperado, no Tivoli, em Lisboa.

Nicette Xavier Miessa nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, no dia 7 de janeiro de 1933. Começou a carreira com apenas 4 anos, num programa da Rádio Guanabara.

Com 9 anos de idade, tomou definitivamente o gosto pelo teatro, ao ingressar no grupo da Associação Cristã de Moços (ACM). Depois disso, passou pelo Teatro Universitário e pelo Teatro do Estudante.

Aos 14 anos já era atriz profissional na Companhia Dulcina-Odilon, da atriz Dulcina de Morais, na qual estreou na peça A Filha de Iório. Pela atuação como Ornela recebeu um prémio de atriz revelação da Associação Brasileira de Críticas Teatrais.

Foi no teatro, aos 19 anos, que conheceu o amor da sua vida, o ator Paulo Goulart, com quem esteve casada durante quase 60 anos.

Conheceram-se num teatro de São Paulo, contracenando na peça Senhorita Minha Mãe, e casaram-se dois anos depois, vivendo juntos até 2014, quando a morte de Paulo os separou. Tiveram três filhos, todos fazendo carreira como atores: Paulo Goulart Filho, Bárbara Bruno e Beth Goulart.

"Eu e o Paulo tínhamos uma afinidade cénica muito grande. Tanto que nos conhecemos em cena, né?", explicou um dia a atriz. "Trabalharmos juntos era muito bom porque tínhamos a mesma seriedade, sabíamos separar a nossa relação. Quando estávamos em cena éramos personagens, não a nossa individualidade."

O casal fundou em 1953 a companhia Teatro Íntimo de Nicette Bruno, que teve participação de nomes como Tônia Carrero e Walmor Chagas. Pouco tempo antes, Nicette tinha começado a sua carreira na televisão, na estreia da TV Tupi, participando em recitais e teleteatros.

"Tudo isso era a época de televisão ao vivo, não havia ainda o vídeo. Fazíamos televisão como fazíamos teatro. Era um teatro televisionado", contou a atriz. "Com o vídeo, começou a criar-se uma nova linguagem de atuação em televisão."

Na emissora, atuou na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, exibida entre 1952 e 1962. Anos depois, seria, como Dona Benta, estrela uma segunda versão da obra de Monteiro Lobato, produzida pela Globo entre 2001 e 2004 (e que passou em Portugal).

Nicette explicou que o diretor Roberto Talma quis que Dona Benta tivesse "uma identificação com a criança de hoje mas preservando a essência da personagem".

"Achei muito interessante a ideia de ela se comunicar com o Pedrinho via internet, ao mesmo tempo dizendo ao neto: 'Olha, tem tempo que você não me escreve uma carta ou um bilhete. Não devemos nos comunicar só por meio do computador. A emoção da escrita é muito grande, e eu quero sentir essa sensação.' Fiquei conhecida pelo público como Dona Benta."

Foi em 1967, na TV Excelsior, que se estreou numa novela, Os Fantoches. Depois voltou à Tupi para grandes sucessos, como Meu Pé de Laranja Lima (1970) e Éramos Seis (1977).

Em 1981 foi para a Globo, por convite do diretor e ator Fábio Sabag, onde integraria o elenco da série Obrigado, Doutor, fazendo de freira Júlia, auxiliar do protagonista, interpretado por Francisco Cuoco. Nesta emissora a sua primeira novela foi Sétimo Sentido (1982), de Janete Clair, com Regina Duarte.

Depois participou em Louco Amor (1983), de Gilberto Braga, na qual interpretou uma cozinheira, Isolda. "Era uma personagem interessantíssima, que guardava o segredo da novela. Foi um trabalho muito contido. Só no fim é que a personagem tinha uma grande cena, na qual se esclarecia o grande mistério da história", contou.

Ao longo dos anos, integrou elencos de novelas como Selva de Pedra (1986), Rainha da Sucata (1990) e Mulheres de Areia (1993). Em 1997, interpretou a sua primeira vilã em novelas da Globo, Úrsula, em O Amor Está no Ar. Fez novelas até 2017 (Pega Pega).

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