Morreu Fernanda Lapa, a atriz e encenadora que lutou pela voz das mulheres

A atriz e encenadora Fernanda Lapa morreu esta quinta-feira, aos 77 anos, em Cascais, onde estava hospitalizada, anunciou a Escola de Mulheres, companhia que dirigiu desde a sua fundação, em 1995.

Um vozeirão, uma presença imponente no palco ou fora dele, a atriz e encenadora Fernanda Lapa era tão conhecida pela sua carreira como pela sua determinação. "Desde cedo que Fernanda Lapa soube que o teatro seria a sua vida. Começou a encenar muito nova, num meio dominado por homens e tem um vasto currículo nos palcos, na televisão e no cinema", recorda o comunicado enviado às redações pela Escola das Mulheres, a companhia que fundou em 1995 com Isabel Medina, Cucha Carvalheiro, Cristina Carvalhal, Aida Soutullo, Conceição Cabrita e Marta Lapa e da qual era diretora artística.

Fernanda Lapa fez o curso de assistente social no Instituto Superior de Serviço Social e trabalhou durante uma década na reabilitação de cegos na Fundação Sain, onde conheceu o médico e psicólogo António Martinho do Rosário, que ficou na história com o pseudónimo literário Bernardo Santareno - um autor ao qual ficaria sempre ligada.

No ano passado, Fernanda Lapa aceitou coordenar as comemorações do centenário de Bernardo Santareno, que se assinala este ano. "Em 2020, Fernanda Lapa quis voltar a celebrar o Autor e o seu carinho enorme pelos marginalizados, categoria em que ele próprio se inseria. Cumprindo a sua vontade, a Escola de Mulheres estreará a 19 de novembro a versão cénica de Fernanda Lapa da obra O Punho", revela a companhia.

Um palco para as mulheres

O percurso artístico de Fernanda Lapa iniciou-se no T.A.U.L. (Teatro dos Alunos Universitários de Lisboa) em 1962. Foi fundadora, com Fernando Amado, da Casa da Comédia, onde se estreou como atriz na peça de Almada Negreiros Deseja-se Mulher, em 1963. E foi com essa mesma peça que se estreou como encenadora, também na Casa da Comédia, em 1972.

Em 1979 obteve uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura, que a levou a frequentar a Escola Superior de Encenação de Varsóvia. Nesta escola diplomou-se em Encenação, realizando em seguida estágios no Teatro Laboratório de Grotowski, no Teatro Contemporâneo de Wroclaw e no Teatro Stary de Cracóvia.

"Desde então dirigiu espetáculos de teatro, teatro-dança e ópera tornando-se numa das encenadoras mais conceituadas do país. Desenvolveu, ao longo da sua carreira, ações pedagógicas na área do teatro e do cinema e trabalhou como atriz em teatro, televisão e cinema", recorda o comunicado da Escola de Mulheres.

A Escola de Mulheres - Oficina de Teatro, cujo nome foi beber inspiração à peça de Molière L'École des Femmes - foi apresentada a 8 de março (dia da Mulher) em 1995 "por um conjunto de mulheres de gerações diferentes e experiências diversas e reconhecidas mas com o sentimento comum do papel de subalternidade a que a mulher tem sido reduzida no teatro português, quer na condução dos processos criativos, na política de repertórios ou no relacionamento com os poderes instituídos, bem como, de um modo geral, nas tarefas que envolvam poder de decisão", lê-se no manifesto da companhia.

"Não há muitos textos e papéis interessantes para mulheres de uma certa idade", explicava a atriz numa entrevista ao DN em 2014. "Estávamos um bocadinho fartas de estar à espera de sermos convidadas para fazer alguma coisa, queríamos ser nós a escolher." A par disto, já agora, queria-se privilegiar o trabalho e os textos das mulheres. "Na altura, não havia mulheres em funções técnicas. Na encenação havia muito poucas. Na direção de companhia havia duas ou três, mas acompanhadas, ou seja, dirigindo com um homem. Felizmente, passados 20 anos, já há mais raparigas a encenar, embora não de forma regular e em condições financeiras muito periclitantes." Não se trata de ser feminista, dizia, trata-se de achar que "uma democracia em que as mulheres não são reconhecidas em qualquer área é uma democracia pobre. Não é uma atitude política, é cívica".

Como se lê no site da Escola de Mulheres: "Pretende-se privilegiar a criação e o trabalho feminino no Teatro e promover e divulgar uma nova dramaturgia de temática e escrita femininas, quer nacional, quer estrangeira, na medida em que o repertório habitualmente representado nos nossos palcos não reflete, em nosso entender, o papel que nas últimas décadas a Mulher tem vindo a desempenhar, assim como as novas contradições que daí advêm, vinculando quase sempre pontos de vista masculinos sobre as mulheres e reproduzindo universos tipicamente masculinos".

Lutar pelo teatro até ao fim

Fernanda Lapa sabia que, no teatro, "para se ter uma vida economicamente viável tinha de se aceitar fazer muita porcaria" e ela "não estava disposta a isso". "O teatro para mim é algo tão sagrado que não me permito fazer coisas abaixo de um determinado nível", declarava. "Para isso, prefiro ir à televisão, onde se ganha mais. Se consigo estar aqui a fazer esta peça [referia-se a Marleni] é porque no ano passado fiz uma novela. E tenho a minha reforma. Do teatro não tenho ordenado, porque não temos condições para isso. Aqui faço trabalho voluntário."

Nunca deixou de criticar quem achava que deveria ser criticado: "O orçamento para a cultura é vergonhoso. Neste momento, a nossa companhia recebe menos do que recebia há 20 anos. Sou tratada pela Direção-Geral das Artes como se estivesse a começar", queixava-se em 2014. A Escola de Mulheres, com um espaço pequeno na Estefânia, em Lisboa, mantém a sua atividade mas vive em permanente "luta pela sobrevivência". "É um ponto de honra, não deixar morrer esta companhia", dizia a atriz. "Qualquer companhia que morre em Portugal é empobrecer o espetro teatral. Eu e as minhas sócias estamos nesta luta."

Autora da mensagem do Dia Mundial do Teatro deste ano, a convite da Sociedade Portuguesa de Autores, Lapa defendeu um plano de desenvolvimento teatral com futuro e uma aposta na força do teatro para as transformações que a atualidade exige. "Viva o teatro, os seus agentes e o seu público", escreveu a atriz, encenadora e diretora da Escola de Mulheres, num texto em que explicava por que motivo se escolhe ser dramaturgo. "Esta opção traz implícitas muitas consequências e uma delas é que o homem de teatro necessita do público de uma maneira carnal, pois o teatro é, em si mesmo, a expressão artística mais carnal de todas, uma expressão em que o verbo ou a sugestão ou a situação emocional elaborada pelo autor, tem de ser encarnada por um ator, que cada vez que a peça está no palco a diz ao vivo para um público vivo", sustentava

Entre os prémios que recebeu, destacam-se o "Sete de Ouro" para a melhor encenação em 1992 e o Prémio da Crítica para a Encenação em 1992 com Medeia é Bom Rapaz; o Globo de Ouro - Melhor Espetáculo para A Mais Velha Profissão e a Medalha de Ouro de Mérito Cultural no mesmo ano.

"Um exemplo de integridade"

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou a morte da atriz Fernanda Lapa, enaltecendo a sua "voz interventiva nas questões do teatro, da cultura e da intervenção cívica". Numa mensagem publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa recordou a artista que teve uma "longa e ativa carreira como atriz, encenadora, professora e militante teatral, inconformada" com o, citando palavras da própria, "'papel de subalternidade a que a mulher tem sido reduzida no teatro português'".

Também a ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou a morte da atriz e encenadora, que classificou como uma "figura ímpar da história do teatro português nos últimos 50 anos". Numa publicação na rede social Twitter, o Ministério da Cultura salientou que Fernanda Lapa deu, através do seu trabalho, "oportunidade, palco e voz às mulheres na representação"

Na nota de pesar da ministra da Cultura, Graça Fonseca afirma que Lapa foi "um exemplo de abertura e cidadania, trilhando caminhos novos e transformando o teatro português com o seu rigor e com o seu empenho incansável". E declara ainda: "Na cultura portuguesa deixa um legado de paixão e dedicação, que deve sempre ser continuado, porque essa é a homenagem que merece e que lhe devemos: olhar e ver sempre os horizontes imensos que ela, para todos nós, abriu".

Nas redes sociais, vários profissionais do espetáculo estão a prestar a sua homenagem a Fernanda Lapa e a partilhar memórias da atriz e encenadora.

"Perdemos uma extraordinária artista e um exemplo de integridade", disse Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II:

O encenador Jorge Silva Melo:

A atriz Joana Manuel:

O ator Ruy de Carvalho:

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