Mónica Calle: em busca da intimidade num lugar público

A partir das palavras de Henry Miller e das suas próprias reflexões sobre a sexualidade, Mónica Calle apresenta "Rosa Crucificação". Teatro íntimo para 15 espectadores de cada vez.

É difícil dizer onde tudo começou. Se na Virgem Doida , o espetáculo de 1992, em que Mónica Calle pegava em Rimbaud e se despia de roupa e de preconceitos em sessões contínuas, sem princípio nem fim, numa esquina do Cais do Sodré. Se na Rua de Sentido Único, de 2002, em que se fechava num quarto com um espectador, tocando-o com palavras sussurradas. Se no Quarto Escuro que em 2016 apresentou nas casas de banho da discoteca Lux-Frágil, com Mónica Garnel e Inês Vaz (que, embora nos bastidores, voltam a ser suas cúmplices aqui).

É difícil dizer onde tudo vai terminar. Talvez porque quando se pega nos textos de Henry Miller os caminhos são tantos que é difícil escolher só um. Rosa Crucificação é a trilogia composta por Sexus, Plexus e Nexus, publicada entre 1949 e 1959, em que o autor norte-americano cria uma ficção a partir da sua realidade, vivida entre Brooklyn e Paris, entre um casamento e outro. "A escrita de Henry Miller vai desde o quotidiano à arte, passando pelas descrições mais cruas da sexualidade, a relação com o corpo. Tudo se funde. As questões mais concretas da vida, como os problemas financeiros e as frustrações, e depois a busca do amor, a busca do afeto, a liberdade, toda a escrita do Miller tem a ver com a liberdade", explica a encenadora e atriz Monica Calle.

Quando decidiu fazer um espetáculo a partir de Rosa Crucificação, ela sabia, primeiro, que queria falar disso tudo, da experiência humana completa, do facto de sermos todos essa pessoa que é muitas pessoas. "O espetáculo, como o texto do Miller, transita entre uma parte mais crua ligada à sexualidade e uma parte mais onírica e trabalha a não-fragmentação, tanto das questões artísticas como da vida", explica. E sabia, também, que queria fazê-lo juntando-lhe algumas ideias suas. Queria falar da sexualidade feminina, da masturbação feminina, da pornografia feminina. Queria fazê-lo explicitamente, como Miller fez: "Eu transformo o texto do Miller de uma forma pessoal. Para uma mulher. Para mim. E crio uma ambiguidade sobre se as histórias são reais ou ficcionadas."

A primeira apresentação de Rosa Crucificação aconteceu em outubro passado, nas casas de banho do espaço Rua das Gaivotas 6 e Mónica Calle usou um dispositivo que conhece bem: cada sessão era feita para um único espectador, criando um espaço de intimidade e uma relação irrepetível "de um para um".

Para a segunda versão, em janeiro, mudou-se para o Mise en Scène e alargou as sessões a 15 espectadores. Foi uma mudança enorme. "Primeiro que tudo, vir para este espaço", diz. "Tenho alguma dificuldade em categorizar sem catalogar e sem criar uma imagem de clichés deste lugar." Situado numa cave, perto de Arroios, o Mise em Scêne é "um clube libertino", ou seja, um espaço onde adultos se encontram e onde podem fazer o que quiserem. É essa liberdade que define este espaço. "Liberdade de existires como desejares, sem rótulos, sem constrangimentos, sem medos de julgamentos", diz a atriz. "Este é um sítio aonde venho e obviamente há aqui uma componente de uma liberdade sexual. É, no fundo, um sitio onde se pode encontrar os outros eventualmente através do corpo."

Só o facto de estar neste espaço trouxe para o espetáculo, inevitavelmente, uma nova camada de sentidos. Mas a Calle interessava-lhe "não tanto trabalhar sobre os clichés do que é este espaço e do que é que vir aqui fazer um espetáculo sobre o Miller representa, mas também esta possibilidade do encontro com as pessoas através da interação". Sem entrar em detalhes (a ideia é que cada pessoa desfrute da experiência), Mónica procura estabelecer uma relação com cada espectador, acompanhando cada um deles individualmente até ao piso de baixo e procurando aquele "lugar secreto" que havia na primeira versão. E depois convida-os a, coletivamente, tomarem decisões sobre o seu figurino, como se o seu corpo fosse uma tela, uma obra criada pelos vários imaginários pessoais.

"O encontro com os outros - os que vêm ao teatro - é algo muito importante nos meus espetáculos", explica Mónica Calle. "O encontro passa pela exposição, pelo toque, sem ser invasivo, e vai variando. Eu vou construindo o espetáculo em função do que as pessoas me dão. Tenho uma partitura textual e vou fazendo a montagem, em função das pessoas que estão aqui comigo." Claro que sendo um grupo de 15 pessoas, coloca-se desde logo a questão do olhar dos outros. Será a intimidade possível numa situação em que o voyeurismo está muito presente? Somos nós mesmos quando estamos com outros? "A ideia é criar uma intimidade a um grau em que as pessoas se expõem e se fragilizam."

Mónica Calle leva este questionamento até ao limite. Nesta terceira versão, que apresenta agora até 13 de abril, introduziu um novo elemento: os vídeos, realizados por Laycos. São vídeos em que ela própria se expõe. Ainda mais. "Isto coloca-me em sítios de grande fragilidade perante mim própria", admite. "Este espetáculo foi aquele onde eu fui mais longe e mesmo assim, quando comecei achei que até iria ainda mais longe. Mas depois comecei a pensar e quando cheguei aqui se calhar já não estava naquele lugar inicial. E senti medo daquilo a que me estava a propor."

O medo é uma das forças que a move. E nisso ela é única. No modo como desafia os seus (e os nossos) medos. Até mesmo aqueles que são inconfessáveis. Mónica Calle está há quase 30 anos a percorrer este duplo caminho - com espetáculos em que mergulha nos seus desejos mais profundos e em que, ao mesmo tempo, procura uma maior proximidade com os espectadores. E uma coisa é certa: não vai ficar por aqui. No próximo ano, Calle vai voltar a Rosa Purificação e vai voltar aos seus outros cinco solos - A Virgem Doida (1992), Rua de Sentido Único (2002), Lar Doce Lar (2006), Os Meus Sentimentos (2013), A Boa Alma (2015),- apresentando uma espécie de retrospetiva no Teatro São Luiz, em Lisboa, e no Mosteiro de São Bento da Vitória (Teatro Nacional de São João), no Porto. "Cada solo corresponde a uma fase inicial ou a um momento de crise, de rutura, de repensar. Fazê-los todos juntos vai ser uma nova experiência." Uma nova viagem. Para ela. E para quem com ela se atrever.

Rosa Purificação
A partir de Henry Miller
Por Mónica Calle
De quinta a sábado, às 19.30 e às 21.30.
Até 13 de abril
No Mise en Scène (Rua Carlos José Barreiros, 11C, Lisboa)
Bilhetes: 12 euros
Reservas: casaconveniente1992@gmail.com

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