Mishlawi: "A minha música é diferente por viver em Portugal"

Depois de já ter atuado nalguns dos maiores festivais nacionais, o artista "luso-americano" Mishlawi acaba de lançar o álbum de estreia Solitaire, que vai apresentar no Hard Club, no Porto, e no Coliseu dos Recreios.

Mesmo sem nenhum álbum até à presente data, Mishlawi é o se pode chamar um caso sério de popularidade. Não só pelos mais de 10 milhões de visualizações do single de estreia All Night, lançado em 2016, mas especialmente pelas multidões que nos concertos cantam as suas músicas, como aconteceu em festivais como Sudoeste, Rock in Rio ou Sol da Caparica.

O disco de estreia, Solitaire, chega finalmente hoje às lojas e nele o artista americano residente em Cascais volta a explorar os territórios do rap, hip-hop, RnB e trap-soul que tornaram em verdadeiros sucessos os singles entretanto lançados, alguns deles a atingir a marca de disco de ouro através das vendas on-line.

São poucos os artistas que, com um disco de estreia acabado de editar, "feito de raiz e só com músicas novas", como explicou ao DN, se aventuram para um primeiro concerto em nome próprio em duas das maiores salas do país, o Hard Club, no Porto (que esgotou em poucos dias, obrigando a marcar um segundo espetáculo) e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, também a caminho da lotação esgotada.

Aos 22 anos, Tarik Mishlawi, o artista "luso-americano", como gosta de se apresentar este jovem nascido em Phoenix, Arizona, mas desde criança a viver em Cascais, tem o mundo para conquistar, "pouco a pouco". E Solitaire é o primeiro passo nesse sentido. O disco, que conta com as colaborações do sul-africano Nasty C e do norte-americano Trace Nova, será posto à venda um pouco por toda a Europa, bem como nos Estados Unidos, onde será distribuído pela histórica Island Records, a editora responsável pelo catálogo de artistas como Drake, Ariana Grande ou Kid Cudi.

Qual é a sua história? Como é que um americano do Arizona acaba a fazer música em Cascais?

Isso tem mais a ver com os meus do que comigo. Nasci e cresci na cidade de Phoenix, a capital do Estado do Arizona, mas a dada altura, começámos a viajar, devido ao trabalho do meu pai, na indústria farmacêutica, que o obrigava a deslocar-se cada vez mais para fora dos Estados Unidos. Vivi primeiro em Itália, durante dois anos, e depois disso viemos para Portugal. Tinha então dez anos e acabei por ficar aqui. De vez em quando passava algumas temporadas fora, nos Estados Unidos ou como quando estudei em Londres, durante um ano, mas passado algum tempo acabava sempre por regressar a Portugal.

Como é o facto de ser um americano a viver em Portugal o influenciou enquanto artista?

Influenciou bastante, porque tudo aquilo que vivi e os sítios por onde passei me mudaram enquanto pessoa e por causa disso é óbvio que as minhas letras serão muito diferentes das de alguém que nunca saiu dos Estados Unidos.

Foi portanto aqui, em Portugal, que começou a fazer música?

A criar a minha própria música, sim, porque antes disso já tocava vários instrumentos, como bateria ou guitarra, como o meu pai, que pertencia a uma banda de bairro, aquilo a que nos Estados Unidos chamamos de dad"s band. A música sempre fez parte da minha vida, de diversas formas, mas só quando comecei a criar o meu próprio material, por volta dos 15 anos, é que assumiu outra importância e isso aconteceu aqui em Portugal.

Que tipo de música começou por fazer?

Já era influenciado pela cultura hip-hop, mas fazia algo muito diferente do que faço agora. Na altura apenas fazia rap, nem sequer cantava, mas depois, pouco a pouco, fui entrando no R&B.

Vai estrear-se com um concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios, que é uma sala mítica em Lisboa e antes disso já esgotou um primeiro concerto no Hard Club, no Porto, que o levou a marcar um segundo. É um feito, para um músico que acabou de editar o primeiro álbum?

É uma sensação fantástica, especialmente porque é o meu primeiro espetáculo a solo, não é num festival, onde estão sempre milhares de pessoas mas nunca sabemos quem lá está realmente para nos ver. Era algo que eu desejava há muito tempo, poder atuar para os meus fãs, que eu sei que são imensos. Todos os artistas que conheço, como o Richie Campbell, sempre me disseram que esses são os melhores concertos. São pessoas que estão sempre ao nosso lado, que sabem as canções do princípio ao fim e isso deve ser fantástico de viver. Estou superexcitado com esta oportunidade. Já esgotámos uma das datas no Porto e espero também conseguir encher o Coliseu e parece que o vou conseguir.

Entretanto já passou por alguns dos maiores festivais em Portugal, onde também teve muita gente a cantar as suas canções...

Sim, mas é diferente, porque depende sempre do momento, do lugar. A maior parte das vezes tenho essa noção, mas às vezes, quando vamos a locais mais afastados, às "terrinhas", como se diz cá em Portugal, não é bem assim. Mas mesmo assim há sempre alguém que conhece as músicas e fica ali mesmo à frente, a cantar, o que também é muito engraçado e entusiasmante.

Também já deu alguns concertos na Europa, em Países como o Reino Unido ou a Rússia. Como é que é apresentado nesses países, como americano ou português?

Sim já dei alguns espetáculos na Europa e parece-me que as pessoas não pensam muito nisso, do local de onde venho. A maior parte das pessoas vê-me como um luso-americano que faz música em inglês. Mas onde quer que vá, sabem que não venho diretamente dos Estados Unidos. Por exemplo, quando fui a primeira vez à Rússia, toda a gente me falava de Portugal e não dos Estados Unidos. E o mesmo em Londres, onde no meu primeiro concerto tive imensos portugueses a ver-me. Ou seja, já sou visto como uma espécie de compatriota pela comunidade portuguesa em Inglaterra (risos). Eu próprio faço questão de dizer, nas minhas redes sociais, que venho de Portugal.

Este disco vai ser também distribuído nos Estados Unidos pela Island Records, a editora responsável pelo catálogo de artistas como Drake, Ariana Grande ou Kid Cudi, é um mercado que obviamente lhe deve interessar e no qual, em teoria, poderia até ter mais facilidade em entrar.

Sim, interessa-me muito, mas o mercado americano é muito duro. Obviamente que esse é o meu grande objetivo, mas como é um mercado bastante competitivo, temos de entrar pouco a pouco e tudo o que conseguirmos já é uma vitória. Neste momento tento estar muito mais focado na música e não tanto onde ela me pode levar. A Rússia, por exemplo, é neste momento o meu segundo maior mercado, logo atrás de Portugal. Temos muitos fãs lá, a maior parte dos comentários nos meus vídeos no Youtube são de fãs russos, o que é incrível.

E há alguma razão para isso acontecer?

Sim, há e não tem nada a ver comigo. Em 2016, a minha canção All Night tornou-se num êxito quase ao mesmo tempo em Portugal e na Rússia. Tudo porque uma modelo russa, muito famosa, fez um vídeo no Instagram, onde aparecia a andar de carro com o namorado, um jogador de futebol da seleção, a ouvir essa música. O vídeo tornou-se viral e houve um efeito bola de neve, com muita gente a imitar o vídeo, sempre a ouvir a mesma música. Já lá tocámos três vezes e este ano vamos voltar outra vez, foi um sítio que se tornou obrigatório nas nossas digressões.

Como vê a cultura hip-hop em Portugal?

Tem muita força, o que é bom. É óbvio que se trata de um mercado pequeno, quando comparado com outros países e isso faz com que as coisas demorem algum tempo a evoluir. Por exemplo, a cena trap chegou apenas há cerca de dois anos, quando já era enorme nos Estados Unidos. Antes disso, o hip-hop português ainda estava muito virado para o rap de intervenção. Mas isso entretanto mudou e há imensos artistas de quem gosto bastante, como os Wet Bed Gang, o Slow J ou o Holly Wood. Há por aí gente muito talentosa a fazer a cena hip-hop portuguesa evoluir bastante.

Mishlawi

Hard Club, Porto. 22 e 23 de fevereiro, sexta-feira e sábado, 21.oo. €15

Coliseu dos Recreios, Lisboa. 9 de março, sábado, 21.00 €18

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