Marcelo e Costa cantaram Casinha

O primeiro dia do último fim-de-semana de festival ficou marcado pela homenagem a Zé Pedro, num emocionante concerto dos Xutos e Pontapés que contou com a presença em palco do presidente da República e do primeiro-ministro

Ainda era dia quando os Xutos e Pontapés subiram ao palco. A avaliar pela quantidade de público que, mesmo com chuva, se começava a aglomerar em frente ao Palco Mundo, percebia-se que esta ia ser uma ocasião especial. Apesar de ser a oitava vez que atuavam no Rock in Rio (tantas quantas as edições do festival), foi a primeira sem Zé Pedro, mas presença do guitarrista e fundador do grupo, falecido em dezembro, foi uma constante ao longo de todo o concerto.

Nas palavras dos antigos companheiros, Tim, João Cabeleira, Gui e Kalú, nas fotos antigas da banda projetadas nos ecrãs, nas letras cantadas por todos a uma só voz, nas lágrimas que, aqui e ali se viam escorrer por algumas faces, mal disfarçadas pelos pingos da chuva. E os Xutos não fizeram a coisa por menos, afazendo alinhar uma sucessão de clássicos acompanhada pelo público do início ao fim, iniciada com À Minha Maneira e Chuva Dissolvente e continuada com Circo de Feras, Não Sou o Único ou Remar Remar.

Em frente ao palco, numa mini-bancada vip, coberta da chuva, via-se o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a cantar, acompanhado do primeiro-ministro António Costa e do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, e do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

Um dos momentos mais emotivos aconteceu quando Tim anunciou que Zé Pedro iria voltar a tocar com eles naquele palco, surgindo nos ecrãs uma gravação de um concerto no Restelo, de 1988, a tocar a entrada de Contentores. Outro, como se esperava, foi a interpretação de Homem do Leme, quando já nem a chuva conseguia disfarçar as lágrimas - misturadas com muitos sorrisos de gratidão.

Mas o melhor estava mesmo guardado para o fim, quando Marcelo, Costa, Ferro e Medina se juntaram à banda em palco, seguidos de uma pequena multidão de familiares, amigos e fãs anónimos do músico, para acompanharem a banda na interpretação de A Minha Casinha. "Ele havia de gostar disto", comentava-se um pouco por todo o lado, com mais lágrimas à mistura. O imenso sorriso de Tim, sozinho, em cima do palco, parecia comprová-lo.

James a meio gás e The Chemical Brothers a alta velocidade

Os primeiros a subirem ao palco foram os britânicos James, que foram penalizados não só pela precocidade do horário como pela forte chuva que então se fazia sentir. Mesmo assim, o vocalista Tim Booth não se poupou a esforços para conquistar o público, para o qual se lançou, literalmente, mais que uma vez. Não faltaram clássicos como Sit Down, Born of Frustration, Sometimes, Laid ou Getting Away With It (All Messed Up), dedicada pela banda "à família em Portugal" (são vários os membros com familiares a viver por cá) mas a sensação final foi a de que ficou a faltar algo - talvez um pouco de sol.

Já os The Killers aproveitaram o embalo do fogo-de-artifício para provar mais uma vez ao público português que não é em vão a fama de "grande banda ao vivo", como alguém comentava, de olhos fechados, enquanto abanava a cabeça ao som do coro soul de All These Things That I've Done. Liderada pelo mestre-de-cerimónias Brandon Flowers, que por vezes mais parecia um artista de casino da sua Las Vegas natal, a banda americana conduziu habilmente o espetáculo até ao epílogo que todos esperavam, ao som de Human e especialmente de Mr. Brightside, o último tema de um concerto com pouco mais de hora e meia, mas que pareceu muto mais.

Quando os Chemical Brothers subiram ao palco, já o recinto não estava tão lotado, mas os que ficaram decerto não se arrependeram, pois a exemplo das visitas anteriores da dupla composta por Ed Simons e Tom Rowlands, também esta foi memorável, tanto a nível sonoro como visual, com a música a ser acompanhada por vídeos hipnóticos, que dão uma dimensão multissensorial ao espetáculo. Mais uma vez, os trunfos ficaram guardados para o final, com o duo a despedir-se ao som de Galvanize e Block Rockin' Beats, encerrando em festa o primeiro dia do último fim-de-semana de Rock in Rio, que continua hoje com as atuações, entre outros, de Carlão, Ivete Sangalo, Paulo Flores, Jesse J, Blaya ou Katy Perry.

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