Lina e Raül Refree, um improvável encontro entre fado e música eletrónica

A cantora portuguesa e o produtor catalão apresentam esta quinta-feira em Lisboa o aclamado álbum homónimo, editado no início do ano e no qual recriam alguns dos grandes clássicos de Amália Rodrigues.

É uma discussão recorrente e muito estafada, essa da modernização desvirtuar a alma do fado. É aliás polémica tão antiga que os seus estilhaços chegaram até a atingir até os dois maiores nomes da história do fado: Amália Rodrigues e Carlos do Carmo. E mesmo hoje continua a ser um assunto tratado com pinças, pelas novas gerações de fadistas, como pela indústria e pelo próprio público. É portanto ainda mais de louvar este improvável encontro entre um produtor de música eletrónica e uma fadista, que pegaram na obra de Amália e substituíram as guitarras por pianos e sintetizadores em Lina_Raül Refree, o álbum editado no início do ano e desde então amplamente elogiado pela crítica, tanto nacional como internacional.

Trata-se, de facto, de um encontro improvável, este entre o premiado produtor catalão Raúl Refree (colaborador de gente tão diversa como o ex-Sonic Youth Lee Ranaldo ou da estrela do novo flamenco Rosalía, a quem produziu o primeiro disco) e Lina, fadista residente no Clube de Fado há mais de uma década e uma conhecedora compulsiva da obra de Amália Rodrigues, que juntos conseguiram criar um registo tão surpreendente quanto comovente, pelo modo como soa novo mas ao mesmo tempo familiar. "Tem sido de facto uma aventura, mas que está a correr muito bem", afirma Lino ao DN, na véspera de apresentarem o disco no CCB, em Lisboa, num concerto integrado no Ciclo Há Fado no Cais - já o tinham feito no final do ano passado, no Misty Fest, mas antes do álbum ser editado.

A ideia de os juntar partiu de Carmo Cruz, a agente de Lina, que a desafiou "a fazer algo diferente" e nesse sentido decidiu convidar Raúl Refree, considerado um dos grandes renovadores do flamenco, pelo trabalho desenvolvido, enquanto produtor, como nomes como a já citada Rosalía, mas também com Rocío Márquez ou Niño de Elche.

"Sou de Barcelona, não sou da Finlândia, portanto, como habitante da Península Ibérica, conhecia algumas coisas do fado, mas apenas o normal, não era de todo um conhecedor e fiz questão de esclarecer isso mesmo quando me convidaram", diz o músico catalão, que passou então alguns dias em Lisboa para conhecer Lina e através dela o meio do fado. "O modo como se vive o fado e o estatuto de Amália Rodrigues em Portugal, que é quase sagrado, impressionou-me muito. Compara-se muito o fado com o flamenco, mas o flamenco não é unânime nem tão forte em Espanha, como o fado e em Portugal", sustenta. Percebeu no entanto que, tal como o Flamenco, o também pode ser um meio muito purista e conservador e exatamente por isso ficou "tão surpreendido com a boa recepção" que o disco teve. "Fui muito criticado em Espanha, pelas franjas mais puristas do flamenco, muitas vezes com insinuações muito além da música e aqui, ao contrário até do que esperava, tal não aconteceu aqui, mesmo com a agravante de nem ser português. Creio que diz muito sobre a maneira de ser dos portugueses, enquanto povo", elogia. "Não canto acompanhada por uma guitarra portuguesa, mas a intensidade continua toda lá e as pessoas mais ligadas ao fado, quando ouviram, gostaram muito, porque entenderam que é algo diferente", contrapõe Lina.

Teclas em vez de guitarras

Lina e Raul conheceram-se no Clube de fado, a casa de fados onde ela atua regularmente vai para dez anos. No dia seguinte já estavam ambos em estúdio, a tentar encontrar uma empatia que depressa surgiu. "Correu muito bem e de forma completamente natural", recorda a fadista, que prefere usar a palavra "epidérmica", tal como aprendeu com Raul.

"Começámos por fazer algumas tentativas à guitarra, mas não estava a soar bem e quando o Raul passou para as teclas tudo fez sentido", conta.

O segredo, como também nos ensinaram Amália Rodrigues ou Carlos do Carmo ao longo das respetivas carreiras, passa assim não por desvirtuar, mas antes por sublinhar, com subtiliza e inteligência, as características únicas do fado - e nisso Raül Refree parece ser mestre. As tradicionais guitarras e violas, foram assim substituídas pelo piano e por uma panóplia de sintetizadores vintage, que envolvem a voz de Lina, deixando-a brilhar, como só o fado o permite, através da palavra, em temas também eles quase do domínio do sagrado como Barco Negro, Foi Deus, Medo ou Gaivota. "Senti uma liberdade enorme, como se estivesse a cantar à capella e o Raul levasse a minha voz ao colo", salienta a fadista, a quem coube a difícil tarefa de escolher o repertório. "Decidimos em conjunto que deveria haver um fio condutor, mas escolha é minha. Conheço para aí 90 por cento dos fados cantados pela Amália, apesar de não os conseguir interpretar a todos (risos)", sublinha Lina.

"Desde criança que me lembro de ouvir a minha avó a cantar Amália. E até foi o meu pai que me ensinou a letra da Rua do Capelão", lembra Lina, que nasceu e cresceu em Trás-os-Montes, mas mudou-se para o Porto aos dez anos, quando a irmã entrou para a universidade. Fez parte de um coro, estudou no conservatório e, "por volta dos 16 anos", começou a interessar-se mais a sério pelo fado. "Quando a Amália morreu, comecei a prestar muita atenção a tudo o que ela cantou, emocionava-me muito ouvi-la a cantar aquelas letras". Pouco tempo depois já cantava na Casa da Mariquinhas, uma famosa casa de fados portuense, onde conheceu gente como Maria da Fé ou José Fontes Rocha.

"Quando iam atuar ao Porto passavam sempre por lá", revela Lina, que entretanto acabou também por rumar a Lisboa, onde hoje atua, a interpretar os temas que a fizeram ser fadista. "É um concerto sem pausas, com encenação do António Pires, que funciona como uma viagem. Ainda recentemente, em Paris, demos um concerto ao ar livre e havia pessoas deitadas na relva e no final vieram dar-nos os parabéns, pelo modo como as fizemos sentir em paz durante aquele período de tempo", assinala.

Sendo um disco "tão audacioso" e portanto "muito difícil de transpor para um palco", como o classifica Raul, a dupla tinha apenas duas opções. "Ou repetíamos tudo ou arriscávamo-nos a fazer coisas novas ao vivo, tal como está acontecer em cada concerto, em que me sinto com cada vez mais liberdade para improvisar", revela o músico. Não se julgue no entanto que a voz de Lina fica para segundo plano, muito pelo contrário. "A voz é o mais importante, o instrumento que mais emociona o público e por isso tem de estar sempre em destaque", defende Raul, também ele a confessar-se muito ansioso com esta atuação em Lisboa. "Temos muita vontade de tocar aí, no local onde o público tem realmente a capacidade de compreender tudo o que fizemos neste disco".

Lina e Raül Refree

CCB, Lisboa. 1 de outubro, quinta-feira, 21h. €10 a €23

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG