Leila Slimani: "A sexualidade é profundamente política"

A autora Leila Slimani nasceu em Marrocos e vive em França e assume-se "100% marroquina e 100% francesa". Veio à Feira do Livro do Porto falar dos seus premiados livros e tem resposta pronta sempre na ponta da língua.

Leila Slimani é uma das escritoras sensação em França e em 2016 venceu o prestigiado prémio literário Goncourt com o romance Canção Doce. Não que o livro precisasse de um empurrão, pois os leitores já tinham comprado perto de cem mil exemplares, mas o Goncourt elevou o patamar para 600 mil e traduções em duas dezenas de línguas. Em Portugal, tem também traduzido No Jardim do Ogre, o seu primeiro romance.

A escritora já esteve várias vezes em Lisboa mas nunca no Porto, onde participou na Feira do Livro. Garante que está mais descontraída em Portugal do que em França: "Os atentados alteraram a minha vida e vivemos todos com medo." Revela que o seu próximo romance tratará do tema terrorismo na capital francesa: "Interessa-me essa situação pois Paris é uma personagem muito importante nos meus dois livros e na minha vida." Confirma que quer recuperar sob a forma literária a atmosfera de medo e crispação parisiense e incluir o ataque à sala de espetáculos Bataclan na sua ficção.

Não é a primeira vez que o faz, já que ambos os romances publicados se inspiram em temas reais. No Jardim do Ogre surge após ver a detenção do chefe do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, devido ao abuso sexual de uma empregada de hotel em Nova Iorque. Em Canção Doce, devido ao assassínio de duas crianças perpetrado pela babysitter Louise Woodward em 2011.

Uma coisa que não se pode dizer é que Leila Slimani seja acanhada, pois na primeira resposta disse que era melhor fazer-se a pergunta aos leitores e não a ela. Passa-se por cima e guarda-se para o fim uma curiosidade, porque referiu em múltiplas entrevistas que a morte do pai a "desinibiu". Responderá: "Depois disso, concluí que tudo era possível acontecer-me, até o mundo acabar. Portanto, é preciso fazer e dizer o que se quer no momento e esquecer a segurança. A morte do meu pai libertou-me."

Com o sucesso, a autora praticamente abandonou o jornalismo, não escrevendo mais do que colunas de opinião, e agora é mais vista em situações como a de integrar a comitiva do presidente Macron a Marrocos do que a fazer a cobertura da Primavera Árabe como antigamente: "Sempre me interessei por política, no caso dessa viagem, foi um momento importante para mim porque como tenho duas nacionalidades era bom estar na mesma sala do que o rei de Marrocos e o presidente francês. É uma honra e uma oportunidade que não podemos deixar de aproveitar."

Gosta muito de anti-heroínas. Essas mulheres não chocam os leitores atuais?

Creio que não porque são mulheres interessantes e que se parecem com muitas das com que nos cruzamos, que têm fraquezas e defeitos, mas são muito humanas mesmo sendo anti-heroínas. Aliás, a literatura há muito que trata de mulheres assim, muito dadas à paixão e que são amantes extraordinárias. Sempre apreciei na literatura essas figuras ambíguas, como Emma Bovary, Thérèse Desqueyroux ou Anna Karenina. São grandes personagens, é verdade, mas que desiludem.

A sua protagonista em Jardim do Ogre não tem uma forma de ser em contraciclo com a atualidade e o que defende o Me Too?

Não creio, porque é uma mulher que vive numa espécie de vertigem, que está vazia no seu íntimo e procura completar-se. Por causa da sua sexualidade procura solução noutras relações, mas não tem nada que ver com o Me Too. Esse movimento recusa que na vida de todas as mulheres, num momento ou noutro, se encontrem em situações indesejadas com os homens, seja sob uma forma de pressão, de violência ou opressão. Quanto à sexualidade de cada uma, é aquilo que consentem.

No livro, a protagonista exerce um abuso sexual sobre vários homens.

É verdade que tem uma visão dos homens como objetos, agora é um depois é outro, mas não obriga ninguém nem é violenta. É como um animal que está na sua atitude de sedução de uma presa, satisfaz-se e vai se embora. Não é a visão habitual do sexo, porque ela tem uma visão muito pouco sentimental do sexo.

Sabe-se que a inspiração para esta mulher é Dominique Strauss-Khan. Ele não era capaz de resistir a uma mulher, porque fazer isso com uma mulher?

O que me interessava escrever era sobre o vício. Há um romance que adoro, O Jogador, de Dostoiévski, porque sempre fui fascinada por gente viciada. Seja um alcoólico, um drogado ou um jogador. Um psiquiatra disse-me uma vez que o vício era um momento onde se perde a liberdade de dizer não. Era isso que eu queria fazer.

Escreveu um ensaio, Sexo e Mentiras, porque precisa de ir além da ficção?

É sobre as mulheres marroquinas. Queria dar a ouvir as mulheres que não podem falar como no Me Too, pois dei-me conta de que em Marrocos é difícil uma mulher ter uma vida sexual interessante fora do casamento. Ouvi várias mulheres para mostrar como estava a sexualidade em Marrocos, até porque tenho a opinião de que a sexualidade é profundamente política e se observarmos bem vemos que é através da sexualidade que acontecem coisas complexas como as relações económica e sociais, de dominação do homem sobre a mulher ou do rico sobre o pobre. Queria mostrar até que ponto a sexualidade não é trivial mas que por trás desse tabu há a vontade de esconder muitos assuntos que são fundamentais.

Quando se conhece a sua vida e se lê este livro repara-se em muito de autobiográfico. Porquê?

Para o primeiro livro era muito difícil escrever sobre coisas que desconhecia, nem sequer tinha confiança em mim para estar à vontade e a minha única experiência profissional era o jornalismo. Portanto era mais fácil imaginar a personagem numa redação e num meio que conhecia. Já no segundo, estava mais à vontade e com confiança e era mais fácil falar de um tema que não conhecia assim tão bem.

O seu primeiro romance foi recusado mas cinco anos depois ganha o Goncourt. O que mudou?

Creio que devo em muito ao meu editor pois ajudou-me a encontrar a voz, compreender o que eu era enquanto escritora e como abordar o meu trabalho. Para se ser escritor é preciso enganar-nos várias vezes, escrever e reescrever, e precisamos de tempo para encontrar o modo de contar a história.

Há escritores que não gostam de prémios porque os condicionam. Como é o seu caso?

Essa é uma realidade muito complexa, porque quando se ganha um Goncourt as críticas são muito cruéis, os critérios, porquê este livro e não um outro. Eu tive a sorte de estar no lado bom da história, de ser jovem, com bom estatuto social. E, como tive uma boa receção, não posso estar contra os prémios.

Qual é o segredo da relação entre os leitores e os seus livros?

Talvez, segundo me dizem, haja um certo mistério que tento colocar nos personagens. Até porque deixo de colocar na escrita muita coisa para deixar o leitor fazer a sua interpretação e adivinhar o que não digo. Quero fazer uma literatura que exprima o mistério do ser humano e da vida.

Recebeu também um prémio em Marrocos, onde a sociedade é muito repressora.

As pessoas não sabem muito bem mas a literatura marroquina é muito transgressora, crua, violenta, e fala-se muito de sexualidade, droga, homossexualidade e política, portanto o meu romance em comparação com certos autores deste país é quase inocente.

O facto de ser escrito por uma mulher não apela mais à censura?

Não, porque em Marrocos não há censura na literatura.

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