Jingle Jangle: para ir entrando no espírito de Natal possível 

Uma produção musical, na tradição da época, que pede o maior dos ecrãs... em casa. Jingle Jangle: Um Natal Mágico, disponível na Netflix, é um conto com elogio da família, brinquedos e neve a cair lá fora, para restabelecer os níveis de magia perdida ao longo de 2020.

Estamos naquela altura do ano em que se reforça a oferta de filmes natalícios, numa inevitável competição de produções escapistas, geralmente alheias ao bom espírito dos clássicos e mais preocupadas em representar uma qualquer "originalidade" moderna. É nesse panorama, em grande parte preenchido por comédias românticas a picar o ponto, que se destaca, pelo contraste, o novo Jingle Jangle: Um Natal Mágico, de David E. Talbert. Nada mais nada menos do que um tradicional conto da época, a recuperar o calor das fantasias musicais para ver em família - golpe certeiro em tempos pouco animadores, que transforma o estar em casa num pequeno espetáculo de magia.

É de tal modo tradicional que começa com uma avó sentada ao pé da lareira a contar uma história aos netos, pronta para puxar do encanto e desafiar o ceticismo de um deles. Das páginas do livro pop-up que tem nas mãos nasce o filme. A personagem principal é um renomado inventor de brinquedos, Jeronicus Jangle, cuja loja de invenções, outrora um mundo de maravilhas, se converteu numa triste loja de penhores, anos depois da fuga do aprendiz, Gustafson, com o seu caderno de fórmulas. Este último tornou-se a grande sensação da cidade, ganhando prémios anuais com brinquedos criados a partir dos apontamentos roubados ao mestre, enquanto Jeronicus - interpretado por um envelhecido Forest Whitaker - vive na solidão dos dias, entre arranjos de peças mecânicas artesanais, longe da filha com quem perdeu o contacto.

Chegada uma nova véspera de Natal, Jeronicus recebe a visita da neta que não conhecia e que, à semelhança dele, se revela um pequeno génio inventivo. Curiosa, ela sonda os objetos e a maquinaria a ganhar pó no sótão do avô e descobre um robot amoroso (imagine-se uma mistura de Wall-E com o E.T. de Spielberg) esquecido a um canto, pronto a ganhar "vida": só precisava de alguém que acreditasse nele para a magia acontecer... Os dados estão lançados. Esta invenção revolucionária, ali mesmo debaixo do nariz, era tudo o que Jeronicus precisava para reerguer o negócio, não fosse o vilão Gustafson, que esgotou os modelos originais do mestre e precisa agora de um novo sucesso, meter-se ao barulho e dificultar a missão sorriso da neta do inventor.

Produzido por John Legend, Jingle Jangle foi inicialmente concebido como uma peça de teatro musical; algo que se percebe pela exuberância dos números, do design de produção e do próprio guarda-roupa. A diferença de uma abordagem cinematográfica é que todos estes aspetos adquirem um grau de imaginação e de prazer visual que poderiam ter algumas limitações concretas em palco. Já para não falar da fluidez gráfica: a ilustração animada de alguns momentos que assinalam breves regressos à circunstância do ato da narração, para logo se voltar a mergulhar no universo "real" da história.

Colorido, festivo, adorável até mais não, e com um elenco quase inteiramente composto por atores afro-americanos, o filme de David E. Talbert é uma espécie de equação da alegria, o novo clássico de Natal dickensiano, com sonoridade pop e os estereótipos sociais arrumadinhos ao canto. Na verdade, nada disto é sobre ser negro - apenas um filme de Natal sem a menina de tranças loiras e olhos azuis, para variar, mas com os mesmos valores, a mesma recarga de bons sentimentos e estética sazonal.

Jingle Jangle: Um Natal Mágico filtra bem o seu público pela evidência do título. É para quem gosta de gostar do Natal, quem se presta ao excesso de entusiasmo, luzes, pozinhos mágicos, bolas de neve e, sobretudo, aprecia as histórias contadas à lareira, com o brilho nos olhos do narrador a insinuar a criança que há em cada adulto. Uma tradição de época açucarada para ver sem culpa.

*** Bom

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