Vítor Espadinha is back

A um ano dos 80, corpo franzino e riso malandro, Victor Espadinha continua a ser o tipo ladino e sedutor à moda antiga, que se não resiste a um piropo com classe. E ainda dá concertos.

Não foi em Setembro que o conheci*. Creio que era Verão. Vamos supor que foi em Junho, e por isso é possível que ainda trouxesse nos olhos a luz de Maio. Nas mãos, em vez do calor de Agosto, transportava o porta-chaves do carro - um desportivo? Não me lembro.

Conhecia-o da televisão - começou a aparecer nos ecrãs da RTP nos finais dos anos 60; até foi àquele programa que dizem ter revolucionado o audiovisual português, o ZIP ZIP e, já nos anos de 2000, integrava o elenco de uma série chamada Malucos do Riso.

Costumam compará-lo a Júlio Iglésias e, de facto, ambos cantaram canções românticas e fazem parte de uma geração marcada pela guerra - um nasceu em Lisboa a 10 de Julho de 1939; o outro em Madrid a 23 de Setembro de 1943. A partir daqui, reduzem-se as semelhanças, tal como escassos eram os pontos comuns entre António de Oliveira Salazar, à data presidente do Conselho e o mais alto governante português, e Francisco Franco, chefe de Estado espanhol, tirando essa "coisa" da ditadura.

Quando Victor Espadinha nasce, nesse 10 de Julho de 1939, celebra-se precisamente, e de forma tímida, o fim da guerra civil espanhola, mas já uma nova nuvem - ainda mais negra -, escurece os céus da Europa: vem aí a II Guerra Mundial.

Victor Manuel dos Santos Espadinha chegou ao mundo num quarto na Rua Garcia da Orta, no bairro da Lapa, mandado construir à revelia do Marquês de Pombal, após o Terramoto de 1755, e que não possuía então o pedigree que lhe conferiram mais tarde. O pai era dono de um casino que funcionava no atual Palácio Foz e embora rico de berço, acabou a vida sem um tostão; a mãe foi criada de servir e a relação com o "nobre" durou pouco. O rapaz foi criado por uma tia - irmã do pai - que bebia demasiado (como, de resto, diz ter sido apanágio da família paterna) e pelo amante francês dela, a quem chamava tio, e que lhe financiou uma estadia em Coimbra para onde foi mandado estudar Agronomia. Correu mal, claro.

Aos 17 anos meteu-se num navio e foi ter com o pai - então funcionário público da Junta de Comércio Externo em Moçambique. Voltaria a experimentar os calores do Ultramar por causa da tropa, e aí as coisas azedaram: esteve preso durante dois anos e exilado numa ilha por seis meses.

Foi aluno do Colégio Moderno, estudou literatura inglesa e teatro na Zâmbia, e vagueou por Paris e Londres com uma malinha onde cabia pouco mais" «incontrolável", mas a realidade chamava-o à terra. Na capital inglesa, lavou pratos, dormiu em comboios, escadas e até dentro de um Volkswagen. Acabou por ser contratado por uma multinacional chamada Hitachi, onde tinha como missão embalar televisões. Subiu por ali acima até chegar a um cargo de chefia, mas a natureza pedia-lhe adrenalina e aterrou no paraíso: tornou-se croupier no casino Playboy, onde distribuía jogo e piscava o olho às coelhinhas. Mas sobre o assunto saias, deveras importante na sua vida, falaremos mais tarde.

Apaixonado pelo teatro - sempre disse que o seu amor à representação batia aos pontos o que sentia pela música - estreou-se no Villaret em 1966, com a comédia Deliciosamente Louca, onde contracenou com Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho e João Perry. O papel, conseguiu-o com um pequeno golpe de chantagem: "Liguei para o Diário de Lisboa e informei-os de que ia fazer uma greve da fome à volta do quarteirão do Monumental para o Vasco Morgado me dar emprego. Tretas! Comecei às 21h30 e andei ali até à meia-noite. Quando passava junto à montra do café Montecarlo, o Humberto Madeira [ator] dava-me um croquete. Depois de os fotógrafos aparecerem, fui-me embora. No dia seguinte saiu tudo em parangonas", revelou na entrevista em que o conheci, publicada em 2006 pela revista Sábado.

Foi cantor romântico por acaso - e tanta coisa aconteceu assim na vida deste artista. Numa participação no programa A Visita da Cornélia, fez um número de mímica com uma canção criada de propósito por Tozé Brito, Palhaço até ao fim, e não só ganhou o primeiro prémio, um apartamento - que teve de devolver porque afinal o concurso era só para amadores - como foi convidado a gravar pela Polygram. O primeiro disco não correu de feição e esteve quase a ser dispensado, mas um dia... "comecei a cantar aquela coisa do Sim eu sei/ que tudo são recordações..., o Tozé Brito pegou na guitarra, e diz o Carlos Pinto, na altura administrador da Polygram: "Oh pá, isso é uma merda. Mas como temos que acabar o contrato vamos lá gravar essa porcaria"". Gravou-se, o tema trepou aos top´s e tornou-o um ícone da canção romântica. Já que se fala de romance: tem cinco filhos, teve cinco mulheres, mas só foi casado uma vez (Iglésias casou duas vezes e tem oito filhos - vai à frente, portanto). Mais um ponto de contacto entre ambos: ao longo da vida, os dois foram surpreendidos com a existência de filhos desconhecidos, fruto de relações fugazes. E ainda outra coisa em comum com o cantor espanhol: a paixão pelo futebol. O primeiro foi um talentoso jogador do real Madrid, até uma lesão grave acabar com o sonho da bola; Espadinha é doido pelo Sporting - foi num baile do seu clube que conheceu a primeira namorada e, há poucas semanas, indignado com o comportamento ex-presidente dos Leões, ameaçou-o com umas palmadas valentes.

A um ano dos 80, corpo franzino e riso malandro, Victor Espadinha continua a ser o tipo ladino e sedutor à moda antiga, que se não resiste a um piropo com classe. Diz que esses talentos nunca se perdem. Por falar nisso, Oh Júlio Iglésias, aposto que não eras capaz de enviar uma mensagem destas a uma senhora que acabaras de conhecer: "Psicologicamente afectado. Seu fascínio desabou em mim". De mestre, Victor.

*Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio
Nas mãos o calor de Agosto
E um sorriso, um sorriso tão grande
Que não cabia no tempo.
Ouve, vamos ver o mar
Foste 30 de Fevereiro de um ano por inventar
Falámos, Falámos coisas tão loucas
Que acabámos em silêncio
Por unir as nossas bocas
E eu aprendi a amar

Sim eu sei, que tudo são recordações
Sim eu sei, é triste viver de ilusões
Mas tu foste a mais linda história de amor
Que um dia me aconteceu
E recordar é viver,
Só tu e eu.

Foi em Novembro que partiste
Levavas nos olhos as chuvas de Março
E nas mãos o mês frio de Janeiro.
Lembro-me que me disseste que o meu corpo tremia.
E eu, que queria ser forte, respondi que tinha frio.
Falei-te do vento norte
Não, não me digas adeus.
Quem sabe, talvez um dia...
Como eu tremia, meu Deus
Amei como nunca amei
Fui louco, não sei, talvez mas por pouco,
Por muito pouco eu voltaria a ser louco
Amar-te-ia outra vez

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