"Vitalina Varela" impressiona e "Waves" é a revelação em Toronto

Todos os caminhos no Festival de Toronto vão dar ao estado sagrado de "Vitalina Varela", de Pedro Costa.

A caça aos Óscares no Festival de Toronto está com o engarrafamento habitual. São muitos os filmes com o tal potencial poder para o sucesso na próxima temporada dos prémios. Dos primeiros dias há dois exemplos que vão dar que falar: The Report, de Scott Z. Burns, com Annette Bening e Adam Driver e Waves, de Trey Edward Shultz, com Sterling K. Brown e Lucas Hedges.

O primeiro, ainda sem estreia marcada para Portugal, já vinha com aclamação do Festival Sundance e é a história verdadeira do relatório que provou o envolvimento da CIA em interrogatórios com tortura na administração Bush. Detalhado, minucioso e em formato de filme de investigação, The Report é sobretudo um documento relevante sobre a culpa americana. Cinema que invoca o espírito dos anos 1970 e que é um herdeiro direto da tradição liberal de um Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, filme do qual trabalha a mesma vibração, ainda que Scott Z. Burns procure uma linguagem visual de thriller bastante contemporânea.

No que toca às suas possibilidades para a temporada dos prémios, Adam Driver arrisca-se a ser nomeado para a melhor ator e Annette Bening, no papel da senadora que lutou pela verdade, já está na corrida para melhor atriz secundária. Seja como for, depois de Vice, mais um filme de Hollywood capaz de denunciar os crimes de guerra de Dick Cheney e irritar Donald Trump.

Waves, dirigido por Trey Edward Shultz, é a grande surpresa do festival e só não é maior porque o filme anterior deste jovem cineasta já prometia muito, Ele Vem à Noite (2017). Um olhar refrescante sobre o controlo parental na América dos millenials através de uma tragédia ocorrida na Florida. Um conto sobre uma relação entre dois adolescentes que descamba em violência e abuso depois de uma gravidez indesejada. Ao som da música de Trent Reznor e Atticus Ross, Waves é também uma tese sobre manipulação emocional através de uma nova forma de melodrama e com uma câmara que não pára quieta.

Sente-se o peso de uma tragédia com uma escala para além da medição "indie", sempre perto de algo ambicioso e de uma verdade sentimental capaz de abalar. Depois, há também atores que dão tudo, sobretudo Sterling K. Brown, já premiado na série This is Us, mas também os adolescentes. Tal como aconteceu há três anos com Moonlight, o TIFF vai dar ao mundo um novo clássico instantâneo. Com ou sem nomeações, Waves é já um dos triunfos do cinema americano de 2019.

Vitalina Varela

Na secção Wavelenghts, Portugal brilhou e muito com Vitalina Varela, a verdadeira grande obra-prima de Pedro Costa, chegado a Toronto já com honras de aclamação de Locarno, onde venceu o Leopardo de Ouro. Costa filma a chegada de uma mulher cabo-verdiana a Lisboa três dias depois da morte do seu marido.

Ela chama-se Vitalina Varela e é uma mulher de corpo inteiro, magoada por uma vida que não se cumpriu e por um homem que a abandonou, mas a esperança ainda poderá chegar, nem que seja pela via do espiritual. Vitalina Varela é um objeto para além do cinema: está mais perto da pintura e de uma ideia de épico da verdade. Dir-se-ia que é da ordem do divino e na sua escuridão passa uma luz esculpida pela dor e por Deus.

Melhor de tudo: às tantas o espectador já é cúmplice da missão daquela mulher. Seguramente, é o filme de Costa mais acessível. E o mais bonito. O mais forte, o mais duro, o mais tudo. Quando estrear a 31 de outubro em Portugal estas trevas para além da morte vão converter muita gente - desta vez é impossível não entrar neste mundo de Pedro Costa...

Porém, em Toronto, há também desilusões, como é o caso de Mientras Dure la Guerra, de Alejandro Amenábar, história do episódio do escritor e pensador Miguel de Unamuno quando confrontou o general Franco. O cineasta espano-chileno não passa das boas intenções de fazer uma reflexão sobre as fundações do fascismo e assassina um pastelão histórico cheio de lugares comuns e um academismo antiquado. Em Espanha é claro que poderá merecer um debate nacional mas sente-se que se perdeu uma grande oportunidade de usar o exemplo de Unamuno para enfrentarmos os fantasmas desta remontada fascista que assola o mundo.